Após ser anunciado como a nova aposta da Vionnet para a sua linha de Demi-Couture, Hussein Chalayan levou a marca para um novo rumo que comunga tecnologia, minimalismo e pontuais referências à herança da marca. O designer visionário arrecadou críticas positivas da imprensa que posicionou a coleção entre as mais interessantes da recente semana de Alta-Costura parisiense.

Pela terceira vez a integrar o calendário de Alta-Costura, no início do mês passado e através da presidente e diretora criativa Goga Ashkenazi, a Vionnet anunciou a colaboração com Hussein Chalayan na sua linha de Demi-Couture.

Depois de uma década de intensa experimentação tecnológica e a protagonizar performances míticas que rapidamente se inscreveram na história da moda, o criador de origem turco-cipriota vive um período de acalmia e voltou a sua criação para uma estética minimalista à qual retornou na sua mais recente coleção para a Vionnet.

O style.com aponta duas razões possíveis para Chalayan ter aceitado este novo desafio: reinterpretar a herança da casa ou ignorá-la. Naturalmente, a escolha recaiu sobre a segunda hipótese. É cada vez mais frequente vermos marcas antigas a ser revitalizadas. Para o designer, “revisitar arquivos” é uma opção demasiado confortável que certamente nada acrescenta ao diálogo de moda.

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Em círculos concêntricos cortados em viés, Chalayan joga com diferentes graduações de transparência. O primeiro coordenado (à esquerda) marca definitivamente a sua posição.

Raf Simons para a Dior, Christopher Bailey para a Burberry, Hedi Slimane para a Saint Laurent (anteriormente Yves Saint Laurent) ou Stefano Pilati para a Ermenegildo Zegna são apenas alguns exemplos. E temos também o caso paradigmático de Karl Lagerfeld que reinventa a Chanel estação após estação. E, neste ponto, forma-se nas nossas mentes a recordação da sua mítica frase: “A Chanel é uma instituição e temos que tratar uma instituição como se fosse uma prostituta para no fim conseguirmos algo dela.”.

Muito distante deste senso satírico, a temática de Chalayan para a sua “tomada de posse” foram objetos industriais. Escadas em espiral, mobiliário, ferramentas elétricas, estes são alguns dos elementos da moodboard. Não obstante alguns críticos apontarem um certo saudosismo relativamente à sua abordagem conceptual no passado, é preciso atender ao contexto da marca e do seu pendor classicista que se vê agora entrecortado por silhuetas esculturais, esguias e algo sóbrias.

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As referências ao design industrial não contiveram a fluidez de alguns momentos como aquele que vemos na segunda imagem. Uma camada de chiffon cinzento cobre o bustiê estampado e a saia amarela confere o toque necessário de vivacidade.

Variações entre etéreas musselinas e a rigidez dos vestidos longos, em que padrão e bordados são ambos referências às toiles (protótipos), uma subtil referência ao processo de conceção das peças. Outras ideias, como a escada em espiral, resultou num vestido de organdi tecnológico em camadas cortadas em viés, e outras peças com costura única e círculos concêntricos cortados a laser, com variações de transparências. Esta coleção ilustra agradavelmente uma ponte entre a herança da criadora Madeleine Vionnet e o futuro tecnológico, neste caso, nas mãos de Chalayan.

O criador jogou com os plissados, outra técnica intrínseca aos genes da casa, estampando apenas um dos lados das pregas ou misturando diferentes tipos de plissados, suspensos desde um colar de sementes de cores neon. Apesar da rigidez de alguns momentos, a coleção revelou noutros uma alegria subtil, quase contida, em pormenores que celebram o trabalho manual dos artesãos da Vionnet.

Não conseguiu a unanimidade da crítica, como a própria marca, em coleções passadas, não tem conseguido, mas reviews positivas não lhe faltaram e sonantes foram aquelas que comparam o seu posicionamento ao de Raf Simons perante a herança da Dior. Sem o mesmo impacto global, mas nem por isso menos quieto, Chalayan contribuirá certamente para a propagação e o crescimento desta marca.

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A luso-angolana Maria Borges (à esquerda) teve lugar no desfile da Vionnet. À direita, a manequim Ming Xi enverga um vestido com um bordado e estampado em referência às técnicas de modelagem.

A marca histórica, fundada em 1912 por Madeleine Vionnet, atingiu o seu auge na década de 1930 com a introdução dos vestidos de noite drapeados. O corte em viés (o tecido a 45º) celebrizou-a e o seu cair fluido e favorecedor da silhueta feminina, converteu Vionnet numa das maiores referências da moda do século XX. Competiu diretamente com Coco Chanel em popularidade e clientela. A maison francesa fechou em 1939 e foi adquirida na década de 80 pela família Lummen, que manteve o low profile da empresa. O novo milénio significou para a Vionnet um período de ressurgimento e, após várias fases, a maioria das ações foram compradas por Goga Ashkenazi, a responsável por lhe dar um novo rumo, ao qual se juntou Chalayan.