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A Recordar: Cary Grant

A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram. Hoje excecionalmente à segunda-feira.

Começou no Cinema em 1932, e por lá ficou 34 anos. Para a posteridade deixou inesquecíveis e inigualáveis personagens em 74 longas-metragens e três curtas, desde as mais conhecidas comédias de Hollywood até a vários notáveis filmes dramáticos do período clássico da indústria. Cary Grant teve uma longa carreira recheada de sucessos notáveis, que marcou atores posteriores e que continua a ser uma grande influência para os cineastas da atualidade. Foi por quase três décadas uma das maiores fontes do lucro do box-office, e é considerado hoje um dos homens mais carismáticos da Idade de Ouro do Cinema americano.

Cary Grant tornou-se um ícone nos EUA, mas foi em Bristol, em Inglaterra, que nasceu, a 18 de janeiro de 1904. O seu nome real (muito menos sonante para os padrões de Hollywood) era Archibald Alexander Leach. Não teve uma das infâncias mais felizes, tendo sido marcado pelos problemas mentais da mãe (quando Archibald tinha apenas não anos, o seu pai colocou a mulher num hospício) e o segundo casamento do pai, quando tinha 10 anos.

Em 1918 é expulso da Fairfield Grammar School e depois, junta-se a um grupo de teatro, o Bob Pender Stage Troupe. Viajou com o grupo em 1920, para uma digressão de dois anos. E quando a sua equipa decidiu voltar a Inglaterra após o final da tournée, Archibald decidiu ficar na América e continuar lá a sua carreira nos palcos. Começou a dar nas vistas em diversos espectáculos de vaudeville e variedades no teatro The Muni em St. Louis, no Mississippi.

Annex - Grant, Cary (Madame Butterfly)_01

Depois de entrar em diversos espectáculos da Broadway, o jovem e promissor talento parte para Hollywood em 1931. Foi aí que o seu nome artístico mudou para aquele que o popularizou: Archibald foi aconselhado a alterar para algo mais sonante, tal como aconteceu a vários atores e atrizes da época. Primeiro propôs Cary Lockwood, personagem que interpretou no espetáculo Nikki, da Broadway. Mas os estúdios da Paramount, para quem o ator assinara contrato, pediram para se alterar o apelido, semelhante ao de outro artista. Quando mostraram ao seu novo ator uma lista de apelidos, Archibald escolheu Grant, porque assim, ficaria com as iniciais dos nomes que deram sorte a duas das maiores estrelas cinematográficas da indústria, Gary Cooper e Clark Gable.

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Ao contrário de outros atores, não demorou muito para que Cary Grant se tornasse popular. Depois de quatro filmes e uma curta-metragem, foi na quinta longa, A Vénus Loira (1932), com a lendária Marlene Dietrich, que Grant começou a sua viagem até ao estrelato. Outro impulso fundamental foi o da atriz Mae West, que escolheu Grant para contracenar com ela em dois filmes de 1933: Uma Loira Para Três e Não Sou um Anjo. Este último foi um grande sucesso de bilheteira que, tal como o primeiro (que foi ainda nomeado para o Oscar de Melhor Filme) salvou a Paramount da falência, e abriu novas portas para Cary Grant.

Annex - Hepburn, Katharine (Sylvia Scarlett)_05

Contudo, os estúdios não perceberam a potencialidade do ator, e incluíram-no numa série de fracassos até 1936, quando Grant assinou contrato com a Columbia Pictures. Dos últimos anos na Paramount, destaca-se apenas Sylvia Scarlett (1935), uma comédia dramática de George Cukor e que foi a primeira de quatro obras em que Grant contracenou com Katharine Hepburn.

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O primeiro grande êxito de Cary Grant para a Columbia foi O Par Invisível (1937), uma comédia que deu mais fama ao ator e melhores horizontes para o futuro da sua carreira. Mas foi graças a Com a Verdade Me Enganas (1937), de Leo McCarey, que a persona cómica do ator se estabeleceu como uma das mais refinadas e procuradas da época. Baseando-se nas particularidades do realizador do filme, Grant construiu uma personagem peculiar, numa história romântica e atribulada que marcaria o seu estilo humorístico em muitas outras comédias light e sofisticadas que se lhe seguiriam.

Annex - Grant, Cary (Bringing Up Baby)_10

Com a Verdade Me Enganas abriu caminho a Grant para outras grandes comédias românticas e screwball, como por exemplo, dois filmes de 1938, onde o ator voltou a contracenar com Hepburn: As Duas Feras, de Howard Hawks, e A Irmã da Minha Noiva, de George Cukor. São duas amostras do melhor da comédia clássica de Hollywood que, misturada com o romance e o retrato da sociedade americana, abundou durante as décadas de 30 e 40 na indústria. As duas fitas não tiveram grande sucesso comercial na época, mas resistiram ao tempo, e hoje em dia estão mais populares do que nunca.

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Mas Cary Grant avançava também para outras áreas que não a mais pura comédia. Em 1939, pudemos vê-lo no meio de grandes aventuras, com Gunga Din, de George Stevens, e no fenómeno de bilheteira Paraíso Infernal, de Howard Hawks.

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1940 foi um dos melhores anos da carreira do ator, porque entrou em três grandes filmes que se tornaram gigantescos êxitos da crítica e do público. O primeiro foi O Grande Escândalo, de Hawks, uma comédia romântica sobre o jornalismo e os jornalistas, numa crítica certeira e inteligente à obsessão por se ter a melhor notícia em relação à concorrência. Depois, veio A Minha Mulher Favorita, de Garson Kanin, mais um filme cómico sobre uma mulher que, dada como desaparecida durante sete anos, regressa no dia do segundo casamento do marido.

Annex - Hepburn, Katharine (Philadelphia Story, The)_28

E por fim, a fechar o ano com chave de ouro, os espectadores viram Grant em Casamento Escandaloso, de Cukor. Foi a quarta e última colaboração entre o ator e Katharine Hepburn, numa outra comédia que contou também com James Stewart (que venceu o Oscar por este papel) e que conta as peripécias de um grupo de personagens dos mais diferentes estratos sociais, numa sátira de costumes brilhante como só os americanos souberam fazer.

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1941 é marcado por dois filmes. O primeiro foi A Canção da Saudade, de George Stevens, com o qual Grant recebeu a primeira nomeação para o Oscar de Melhor Ator (depois só voltou a ter outra em 1944, com O Vagabundo, mas voltou de mãos vazias nas duas ocasiões). O segundo foi Suspeita, primeira colaboração com Alfred Hitchcock. Enquanto que a fita de Stevens se trata de um drama romântico sobre a esperança numa vida melhor de um casal triste e angustiado, já a obra de Hitchcock é um thriller como só o realizador soube fazer, e onde podemos ver Grant como vilão (algo raro na sua filmografia).

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O Mundo é um Manicómio, realizado por Frank Capra em 1944, é outro título singular da filmografia de Cary Grant. É uma comédia anárquica e repleta de insanidade, sobre um crítico que descobre, no dia do seu casamento, que as suas tias solteiras são assassinas maníacas. O filme conta ainda com Priscilla Lane e Peter Lorre, e tornou-se uma das obras mais surpreendentes de Capra.

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As colaborações com Hitchcock continuariam por mais três filmes. O realizador afirmava que Cary Grant foi “o único ator que amei em toda a minha vida”, e tornou-se um dos seus artistas prediletos. Pudemos vê-lo em Difamação (1946), com Ingrid Bergman, e em Ladrão de Casaca (1955), onde contracena com outra musa de Hollywood, Grace Kelly. Mas a fita mais famosa desta parceria é sem dúvida a última: Intriga Internacional (1959), a história de um homem acusado de um crime que não cometeu, e de onde vem uma das mais icónicas cenas da filmografia de Hitchcock e uma aventura que marcou a História do Cinema.

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Dois anos antes, Cary Grant voltara a dar nas vistas com o melodrama O Grande Amor da Minha Vida, de Leo McCarey. Co-protagonizado por Deborah Kerr, é uma história de amor clássica, em que um homem e uma mulher se apaixonam e se comprometem a reencontrarem-se daí a seis meses no Empire State Building, mas será difícil saber se a promessa vai ser cumprida ou não.

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Em 1960, Cary Grant recebeu uma estrela no Passeio da Fama, e três anos depois, protagonizaria mais um êxito incontornável: Charada, de Stanley Donen. Numa mistura de comédia, romance e suspense, Grant está muito bem acompanhado pela inesquecível Audrey Hepburn, numa trama que se passa em Paris. Foi a quinta e última vez que o ator recebeu uma nomeação para os Globos de Ouro.

http://www.youtube.com/watch?v=R0Zijgn-c9w

A despedida de Grant do Cinema não foi das mais gloriosas do Cinema Americano (o último filme foi Devagar, Não Corra, de Charles Waters). Mas para a posteridade ficou a memória de um vasto número de filmes intemporais e que se tornaram ainda melhores com a passagem dos anos. E em 1970, a Academia reconheceu finalmente o legado que o ator deixou para o Cinema, e atribuiu-lhe um prémio honorário.

A cerimónia mostra o que o tempo não apagou: que o seu talento é venerado por audiências de todo o mundo e respeitado por todos os seus colegas da época e das gerações que lhe seguiram, graças ao carisma, à simpatia e ao charme que deu aos personagens que encarnou na tela.

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