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Warpaint, de Warpaint: as guerreiras pedem tréguas

É sempre agradável quando uma banda lança logo na sua primeira investida um álbum de grande qualidade. Ficamos com uma boa impressão, eventualmente decoramos cada uma das faixas do disco e ansiamos que Portugal esteja incluído no longo circuito de festivais de verão que as ditas bandas hoje em dia fazem. Casos destes sempre foram recorrentes no panorama musical, desde os Pixies e Oasis até a situações mais recentes como The xx ou Alt-J.

Dito isto, um grande álbum de estreia também poderá ser uma fonte de extra pressão para a banda, que se vê obrigada a lançar um esforço igual ou maior para provar que não são só um álbum nem que tiveram apenas um golpe de sorte. É o chamado teste do “difícil segundo álbum”. Algumas bandas conseguem manter o excelente nível, outras não conseguem reproduzir o mesmo encanto apesar de terem sido competentes e depois há aquelas, cujos nomes não serão mencionados, que mais valia terem ficado por ali (pronto, Two Door Cinema Club).

Bom, mas estamos aqui para falar das encantadoras senhoras que figuram na formação das Warpaint, banda californiana inspirada nas guitarras oscilantes de The Cure e na atmosfera sonhadora de Cocteau Twins ou Mazzy Star e cujo álbum de estreia, The Fool, saiu já no longínquo mês de Outubro do ano de 2010. O primeiro esforço da banda de Undertow foi recebido com grande aclamação crítica e naturalmente a expectativa para Warpaint, segundo álbum homónimo, era deveras grande.

Eis que chega aos ouvidos do mundo, mais de três anos depois e sob a tutela de Mark Ellis e Nigel Godrich. O veredicto? Um trabalho bastante sólido. A segunda investida das californianas tem estilo, muita substância e desenvolve ainda mais o som denso e onírico da banda. É um registo mais pessoal, influenciado pelo shoegaze e um dos primeiros grandes triunfos discográficos de 2014.

A razão para a demora, segundo a banda, prende-se pelo factor da calma. As quatro elegantes moças queriam tempo para poderem fazer o álbum que queriam, e de facto nota-se um trabalho bastante conciso e sólido. Warpaint é um conjunto de 12 arrepiantes canções repletas daquela atmosfera primitiva e bucólica do primeiro disco e um passo a frente na sonoridade da banda. E isso é perceptível logo na pequena intro que inaugura o disco: a secção rítmica adquire um bem merecido destaque, mérito da talentosa Stella Mozgawa, habilidosa dona das baquetas, que aparecem aqui mais incisivas.

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 A principal mudança no som deste disco é precisamente o par maravilha que a bateria faz com o baixo omnipresente de Jenny Lee Lindberg, que mais uma vez nos volta a assombrar com basslines viciantes e completamente absorventes. Sem dúvida, a alma e coração destas novas canções, a secção rítmica, cria toda uma atmosfera chill que se enquadra perfeitamente com o cariz misterioso e sensual da música das Warpaint. Músicas como Hi, Biggy ou Feeling Alright são todas dotadas de um ritmo viciante que se alia aos padrões circulares desenhados pelas guitarras de Emily Kokal e Theresa Wayman.

Uma coisa que nos apercebemos logo nos primeiros segundos deste segundo disco é que a essência dos trabalhos anteriores está lá. E tendo em conta a qualidade de The Fool e do EP Exquisite Corpse, isso é um rasgado elogio. Dentro de Disco//very residem pequenos ecos da velha Elephants, bem como o conteúdo mais ácido e fatal das letras. “She will eat you alive/Like cyanide, it’s poison” avisa Emily Kokal no seu cântico hipnotizante. E hipnotizante é mesmo o adjectivo certo para descrever estas quatro artistas da California e as cortinas de som suave que as mesmas produzem.

Love is To Die, o single de avanço, é viciante e com certeza será uma das jóias mais adoradas pelos fãs no repertório da banda. Hi, com o seu beat contagiante, é um exercício de estilo em que a banda explora de forma mais evidente as tendências da música underground inglesa, nomeadamente um trip-hop a fazer lembrar o melhor que há em Massive Attack; uma das melhores músicas do álbum, juntamente com a confiante Biggy. Son, Teese e Drive são os momentos mais frágeis e tocantes que banda já nos presenteou, enquanto Feeling Alright e principalmente Go In demonstram pequenas tendências soul e jazz.

É também perceptível ao longo do disco a maior aposta no uso de sintetizadores, o que pode ser explicado com o facto de ser Mark Ellis (Nine Inch Nails, Depeche Mode) o produtor do disco. O que também é bastante perceptível é a leveza do som da banda comparativamente a The Fool. Longe vão aqueles coros guerreiros e primitivos tão característicos dos seus anteriores trabalhos. Também não existe aqui um hook tão viciante e imediato como Undertow, nem tão pouco o estilo confiante e animado dos refrões de Composure e de Beetles, tal como não existiam no primeiro álbum temas tão sensaborões quanto CC ou Teese. A pintura de guerra esbateu um bocado a troco da sensibilidade.

Em suma, Warpaint é um trabalho mais sensato, bem ponderado e um progresso sónico para a banda. É importante que, num género já tão carregado de novos projetos e bandas a quererem vingar rapidamente, ainda existam artistas capazes de saber o tempo que precisam para lançar trabalhos de boa qualidade. O encanto não é o mesmo de The Fool, nem tão pouco precisa de ser. É antes o som de uma jovem banda cheia de confiança a caminhar na direcção certa e fazer as coisas à sua maneira. Um aplauso às Warpaint e venha então o próximo desafio do terceiro disco.

Nota final: 8.5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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