“O perigo de penetrar apaixonadamente no mundo dos livros é o de nos tornarmos, nós próprios, no aglomerado de pequenos excertos literários.”

Eduardo Halfon, nascido em 1971 em Guatemala, estudou Engenharia Industrial na Universidade da Carolina do Norte e, mais tarde, foi professor de Literatura na Universidade Francisco Marroquín, na sua cidade natal. Com 12 obras, é considerado um dos melhores jovens autores nascidos na América Latina.

O Anjo Literário, publicado originalmente em 2004 e quatro anos mais tarde pela Cavalo de Ferro, é uma coletânea de pequenos textos que aborda a entrada no mundo da literatura. “O narrador deste livro, que pode ser – ou não – o autor Eduardo Halfon, tenta descobrir esse preciso e fugaz instante em que um anjo voando por cima da cabeça de uma pessoa a obriga a entrar (…). Mas esse momento existirá realmente?”.

Não é possível definir o estilo dos espasmos artísticos de Eduardo Halfon, mas diria, de uma forma talvez redutora – porque é sempre redutor rotular algo -, que é um ensaio sobre a literatura e a escrita, um processo esquizofrénico, uma busca vã, contundo algo gratificante, pelo momento apoteótico de todos os escritores.

Há uma obsessão latente pela vida de grandes nomes, como Hemingway e Nabokov e tantos outros génios literários, como Raymond Carver ou Ricardo Piglia. Porém, o próprio autor o admite, não se trata de procurar o início dos outros, mas o início de si próprio, da sua apoteose, do porquê do amor às letras, às palavras, às histórias, ao simples ato de escrever sobre “restos de uns trabalhos de casa aprendidos e esquecidos, a vida sem lágrimas, tal como a choramos. E a merda”. Porque também Eduardo Halfon teve um início, quando decidiu trocar a engenharia pela literatura.

Recorrendo à biografia e à ficção, Halfon permite ao leitor ser espectador de outras vidas e assistir aos seus instantes de epifania, quando alguém “deixa de ser uma virgem literária e começa a fazer amor com as palavras”, e damos por nós num sótão com um pequenino Hermann Hesse, numa lavandaria na cidade do Iowa com Carver ou a ver Hemingway a beber rum no Café des Amateurs, em Paris. Quando é que nos apercebemos que queremos escrever? Haverá um único momento ou uma panóplia deles, cruzados, misturados, amalgamados? O que interessa? Escreveríamos menos ou mais se o soubéssemos? Não me parece. Mas porque razão escrevemos, persiste Halfon.

A resposta talvez seja inútil. A pergunta parece pertinente e é sem dúvida interessante. Talvez por necessidade – parece-me plausível. É uma extensão de respirar, uma extensão esteticamente mais apelativa, mais vaidosa, mais egoísta. Respira-se para se viver e escreve-se para se continuar a viver depois de se deixar de respirar. É a maneira de deixarmos o testemunho, suponho.

Este é um trabalho muito pessoal, desconfio, muito íntimo, arrisco, tal como o é o processo de escrever e o processo de começar a fazê-lo, que não pode ser nada menos (embora possa ser muito mais) do que algo inexplicavelmente curioso e, por isso, também inatingível. Inatingível no sentido de não ser possível entendê-lo no seu todo. De qualquer modo, nós desejamos sempre aquilo que não possuímos, pelo menos por completo, e acho que é no não possuir e no haver sempre algo mais nas entrelinhas, algo mais para desvendar, que está todo o poder sedutor da obra, seja ela qual for.

8/10