Cama de Gato_3

Entrevista: João Miller Guerra – co-realizador de ‘Cama de Gato’ e ‘Bela Vista’

Composto por uma trilogia de filmes com personagens que se cruzam, Um Fim do MundoCama de Gato e Bela Vista fazem parte de um projecto único até à data em Portugal e são a prova de que existe uma nova geração de cineastas cheios de vontade em mostrar serviço. O ponto que une os três filmes é, nada menos, do que o bairro da Bela Vista, popular pelas altercações que ocasionalmente têm destaque na comunicação social.

Numa tentativa de “lavar a cara” a uma comunidade profundamente estigmatizada, Pedro PinhoFilipa Reis e João Miller Guerra organizaram-se em conjunto com a Câmara Municipal de Setúbal e deram vida a este aliciante trabalho cinematográfico. Para perceber um pouco sobre a feitura deste filmes o Espalha-Factos falou com Pedro Pinho no jardim do Príncipe Real e com João Miller Guerra nos escritórios da Vende-se Filmes.

Filipa Reis & Joao Miller Guerra

Entrevista a João Miller Guerra

Já conhecia o bairro da Bela Vista?
João Miller Guerra (J.M.G.): Confesso que, como a maioria dos portugueses, eu conhecia a Bela Vista através das notícias e pouco mais. Inicialmente tínhamos feito um trabalho para a RTP2 que se chamava BIem que desenvolvíamos filmes de três minutos junto de jovens de Setúbal, e trabalhávamos a identidade desses jovens durante as suas actividades no bairro. Depois recebemos uma informação da Câmara [de Setúbal], com quem ficámos com uma boa relação, de que tinha aberto um concurso público ao abrigo do QREN, para se fazerem filmes para passar uma outra ideia da comunidade da Bela Vista e que coincidia com umas obras que estavam a ser feitas para lavar a cara ao bairro. Entregámos um projecto onde constavam três filmes: duas curtas-metragens, uma minha e da Filipa Reis e outra do Pedro Pinho, que convidámos por sabermos que estava a escrever um filme sobre a Bela Vista, e um terceiro que seria o documentário que idealizámos como uma estratégia de abordagem ao terreno. Não estávamos à vontade no terreno e o documentário permitir-nos-ia filmar no bairro sem ter grandes problemas. Tivemos a sorte de ganhar esse concurso. Depois fomos para o terreno estudar o local, começámos por abordar o facto dos corredores no interior dos prédios terem sido ao longo do tempo apropriados e fechados pelos moradores com medo dos ladrões, depois fomos desenvolvendo as histórias. No caso do Pedro, ele já tinha o argumento escrito, mas nós não tínhamos ainda ideia sobre o que falar. A Filipa propôs falarmos da maternidade na adolescência, uma vez que ela própria tinha sido mãe muita nova, quando ainda estudava na faculdade, e no contexto do bairro seria fácil falar desse assunto. Depois fizemos o casting para conhecer pessoas e histórias, e houve uma miúda, a Joana, que no casting começa muito bem-disposta e, depois de ter chorado, acaba a conversa a rir-se novamente. Uma montanha russa de emoções só com a pergunta “como é que vieste aqui parar?”.

Como foi feito o casting?
J.M.G.: Foi simples, fizemos e imprimimos papéis em computador, pusemos os papéis pelo bairro e falámos com pessoas que entretanto já nos começavam a cumprimentar. E é curioso que usando a palavra casting aparecem sempre muitas pessoas, algumas que nem sabiam para o que é que vinham e outras como a Joana que os pais tinham insistido pela ela ir, porque achavam que era um casting para uma telenovela. Gostávamos que tivessem vindo mais pessoas adultas, porque nos interessava acima de tudo as histórias das pessoas e a realidade delas naquele sítio.

Houve então influência na história pelo facto de terem escolhido a Joana?
J.M.G.: Sim, sem dúvida. Inclusivamente muitas das partes mais ficcionais foram abandonadas em detrimento de dar mais ênfase à Joana. Ela começa por ser vista como sendo a dona do bairro, com uma personalidade muito forte, e ao longo do filme vamos assistindo ao quebrar dela, mostrando o seu outro lado mais frágil e emocional.

Onde entra a ideia de terem os mesmos personagens nos três filmes?
J.M.G.: Logo no início, também graças ao facto de ter sido o Pedro a escrever os três filmes. Tínhamos várias partes que convergiam nos mesmos locais. Uma das partes era passada numa escola. No caso do Pedro vemos a história da professora no Facebook e no nosso caso vemos a Joana a sair da aula a meio. Essa história foi-nos contada por uma das pessoas que veio ao casting. Nós depois ficamos com um grupo de pessoas que seleccionámos e que quiseram ficar connosco. Essas pessoas passaram por um processo de formação, a ter aulas de teatro com o Romeu Costa. Entretanto mudámo-nos para o bairro e tivemos uns meses em Setúbal a viver numa pensão desactivada, e íamos para o bairro fazer o restante trabalho.

Como correram as filmagens?
J.M.G.: Passaram por uma estratégia vencedora de primeira abordagem com o documentário. Era frequente sermos interpelados na rua e até ser-nos dito “sai daqui”. [As abordagens] Não foram pacíficas, mas correram bem. Foram, sobretudo, correndo bem gradualmente à medida que as pessoas foram sentindo que também logo de manhã estávamos no café com eles, e à tarde também estávamos a beber uma mini quando as pessoas voltavam do trabalho. Esses rituais na rua foram criando laços que também nos permitiam estabelecer contactos com outras pessoas que estavam em casa. Durante o documentário dizia muitas vezes na brincadeira ao Vasco, que era o director de fotografia, e ao João Gazua, que fazia o som: “Então como é que é, vamos à caça?”. Porque aquilo era ver o que é que acontecia, por exemplo, filmar uma pessoa a lavar de manhã à mangueirada a varanda. Implicava filmar primeiro o que estivesse a acontecer com o pouco à vontade que tínhamos e depois explicar que estávamos a fazer um documentário e se nos dava autorização para usar as imagens.

Sentiram em algum momento receio das pessoas pela formam como poderiam estar a ser retractadas?
J.M.G.: Senti que lhes devíamos sempre essa explicação, senti que havia pessoas que não estavam interessadas em ser filmadas e com quem era impossível trabalhar. A única situação mais complicada que tivemos foi com umas miudinhas ciganas que nos apareceram em frente à câmara e veio a avó a achar que estávamos deliberadamente a filmá-las e começou a dizer que não sabia para onde iam as imagens e falar de “pedofilias” e coisas assim. Depois veio um cigano mais velhote que ameaçou o Vasco de morte, e, por momentos, a coisa complicou, mas estávamos acompanhados de um rapaz que trabalha lá como assistente social que tratou de acalmar os ânimos. Mas foi a única vez que aconteceu algo assim. Havia sítios que nós já sabíamos à partida onde não podíamos filmar, como o sítio do gang dos “caixa baixa” para onde não convinha apontar a câmara.

Podes ler a entrevista ao realizador Pedro Pinho, aqui.

Entrevista por Paulo Figueiredo

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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