Mais atual não podia ser: Pobre Milionário apresenta-se como um retrato desse vil metal que comanda a vida. Esta farsa do dramaturgo francês Francis Veber, originalmente passada em Paris, é revitalizada para Lisboa pela tradução de Ana Sampaio e pela encenação de José Wallenstein que levam esta peça à atualidade tocando nos assuntos que perseguem os cidadãos portugueses. E eles lá estavam, numa sala quase cheia, para assistir à genialidade artística de Miguel Guilherme, à força e garra de Rita Loureiro, à peculiaridade de Nuno Melo, e às não menos positivas atuações de Rita Calçada Bastos, Sinde Filipe e José Boavida

A noite já ia avançada. Chuvoso, o dia estava mais propenso a uma tragédia do que a uma comédia. Mas o Casino Lisboa tinha os dois ingredientes num só. A feroz peça Pobre Milionário voltaria aos palcos depois de uma noite de estreia. Mais maduros, certamente, e provavelmente mais seguros, os atores foram entrando em cena para nos montar uma metáfora meteórica que num segundo fez rir e, logo a seguir, deixou-nos sem ar – no limbo entre o sorriso e o remorso, assim se fez um Pobre Milionário.

Pobre Milionário UAU

“Queria tornar-se interessante e tornou-os a todos interesseiros.”

O texto discorre sobre os acontecimentos que procederam a vida de Francisco Pinho, após ter sido deixado pela mulher, ter perdido o emprego e os amigos. Desinteressante, Pinho, interpretado por Miguel Guilherme, apresenta-se ao público numa fragilidade perturbadora, entre a mutilação e o suicídio. Sobra-lhe apenas ser guarda do apartamento de um tio milionário que só viu uma vez. Mas ele há-de aparecer, nem que seja para revelar o mais sórdido segredo.

O manto de invisibilidade que as circunstâncias da vida lhe impuseram obrigam-no a tomar uma decisão: mentir, e mentir com todos os dentes, para se tornar alguém outra vez (como se a existência estivesse em função dos que nos rodeiam). Mais do que ser, aparentar. E, neste caso, aparentar ser investigado por um fiscal das finanças. No fundo, tudo tem o seu fim no vil metal… na sua falta, ou no seu excesso – o falso milionário e pobre verdadeiro.

“Não me quer fiscalizar?”

É a personagem de Nuno Melo, um funcionário do Ministério das Finanças, que satisfaz a vontade de Francisco Pinho em troca de favores. De volta à ribalta das relações sociais, Pinho rodeia-se da ex-mulher (Maria João Abreu), da decoradora de interiores (Rita Loureiro) e do corretor financeiro (José Boavida). Mais à frente surgem os surpreendentes personagens de Rita Calçada Bastos, que interpreta uma russa inocente, e de Sinde Filipe, que surge na reta final da peça para interpretar o tio milionário desconcertante e revelador.

O cenário futurista, à primeira vista, revela-nos uma espécie de sala de estar que bem podia ser um manicómio. O jogo de luzes é notável para uma comédia. A produtora UAU sabe montar um espectáculo, sem dúvida. Os vários tons e intensidades tornam a peça mais rica, mais percetível e, sem dúvida, mais interessante. Só aqui se enquadra a frase de Francisco Pinho, a qual inicia o conflito: “não me quer fiscalizar?” Rapidamente começam as referências ao presente, com especial foco no Rendimento Social de Inserção, gozado até ao limite. 

Pobre Milionário é uma peça simples, mas não simplista; é uma peça transversal a toda a sociedade, os ricos e os pobres. Ninguém é o criminoso, o protagonistas ou o antagonista. Andam todos à volta da roda do dinheiro, e cabe ao público refletir e escolher as suas apostas. Esta sátira, tal como todas, pretende ferir a plateia enquanto esta ri. Ri de si própria. E sabe disso no momento imediato a cerrar os dentes. Mais do que libertar endorfinas, o Pobre Milionário liberta introspeções necessárias.

Pobre Milionário UAU

“Quem sai aos seus não é de Genebra”

José Wallenstein merece um prémio pelo trabalho de backstage. Coordenou um elenco que esteve em harmonia, sem exageros, num ritmo e timing certeiros, deixando o público sempre ansioso nas trocas de cenário. Um excelente trabalho enriquecido pelo talento dos seus atores. Miguel Guilherme vence no humor corporal, sem nenhum medo de se tornar ridículo, ao interpretar uma personagem que tem tudo para o público a detestar, mas que acaba por ter o efeito contrário.

Rita Loureiro surpreende a cada cena, com a sua força, vivacidade e inteligência em cada frase, em cada movimento, em cada olhar. Com uma personagem de extravagâncias, a atriz consegue também ter uma extravagante performance a recordar. Já Maria João Abreu conseguiu trazer inovação a uma personagem que já interpretou várias vezes. A mulher de forças, um quanto popular, mas que surge aqui pela mão de Abreu com novas nuances e um ar extremamente risório.

Nuno Melo, todo de preto, sai do seu registo habitual, felizmente, e surpreende todos com um fiscal cheio de tiques, cheio de peculiaridades, cheio de alma. Sem dúvida, um dos melhores a pisar aquele palco, tornando-se inesquecível a cada cena. José Boavida também nos traz bons momentos de humor corporal, apesar de precisar de mais presença em cena. Rita Calçada Bastos tem a tarefa complicada de interpretar uma russa, a qual cumpre de forma exemplar. Não é surpreendente, deixando até algumas cenas cair num ritmo lento, mas tal facto é compreensível pelo lado mais romântico desta peça. Por fim, Sinde Filipe revela-se mais jovem do que nunca no papel do tio revolucionário, cheio de presença e alma, a mostrar como a idade amadurece um ator.

Pobre Milionário UAU

“Milionário!? O que vai ser de mim…?”

O jogo do dinheiro, tão apropriado ao sítio em que decorre a peça (Casino, Auditório dos Oceanos), leva a extremos. Nesta farsa de herdar milhões, devido à louca idade do tio milionário, leva Francisco Pinho ao desespero, depois de ter sido um desesperado na situação inversa. Uma volta de 360 graus, como se costuma dizer (ou de 180 graus, como se deveria dizer), que nos deixa perplexos e a pensar entre o gargalhar compulsivo – uma infeção que não deixa o público em paz. Porque, no fim de tudo, a melhor piada será sempre sobre uma tragédia.

Mais do que a podridão do próprio protagonista, o Pobre Milionário mostra os defeitos dos que o rodeiam. Afinal, a corrupção da alma humana nunca nos deixa de surpreender; ainda para mais na altura em que vivemos. E porque as farsas são as mais explícitas peças que o teatro pode ter: que este Pobre Milionário ilumine a redenção de outros pobres.

8.5/10

Ficha Técnica:

Título: Pobre Milionário | Encenador: José Wallenstein | Tradução: Ana Sampaio a partir da peça de Francis Veber

Elenco: Miguel GuilhermeJosé BoavidaNuno Melo, Rita LoureiroMaria João AbreuRita Calçada Bastos e Sinde Filipe.

Cenário: F. Ribeiro | Figurinos: Dino Alves | Música: Nuno Rebelo | Desenho de Luz: Jorge Ribeiro | Assistência de Encenação: Marta Lapa

Género: Comédia, Farsa

Fotografias © Paulo Sabino