Após 3 anos de espera e de um adiamento inesperado da data de estreia, Como Queiram sobe finalmente ao palco numa encenação simples, mas nem por isso simplista, decorada por um cenário fixo que foge ao comodismo de um retrato pormenorizado da corte e de uma floresta Arden, iluminada por focos de luzes que fazem sobressair os belos e bem executados figurinos de José António Tenente e, sobretudo, composta por um elenco jovem (sempre jovem) e de luxo que nos faz permanecer três horas na sala de espectáculos, com a sensação que passou pouco tempo.

São muitas as razões para aplaudir energicamente e de pé toda a equipa de criação deste belo espetáculo – belo porque escrito por um dos melhores dramaturgos mundiais e belo pelo outro-texto que a tradução de Daniel Jonas é: Shakespeare pode ser acessível, contemporâneo e com palavras que se entendem. É através de uma constante brincadeira entre o uso do “vós” e do “tu” das personagens, que se vai conferir a esta comédia pastoril um lado mais informal – não são, pelos vistos, necessários tratamentos muito cordiais para se ser cordial.

A cordialidade está apenas imbricada no Conde – todas as outras fazem disso uma forma ainda mais requintada de nos fazer rir. Daniel afirma que para se traduzir Shakespeare é necessário traduzir-se, primeiro, para inglês, devido à sua complexidade: e que trabalho espetacular, numa simplificação teatralizada do que muitos não compreendem. Nada a apontar portanto, já que a história permaneceu intacta, as referências também, bem como todas as pontadas de humor.

Como Queiram©Tiago Oliveira (3)

Arena Ensemble realizou aquele espaço cénico, naquele palco despido, onde parece que cortinas só iam atrapalhar a visão do espetador. Se “todo o mundo é um palco” e é no palco que todos estamos, não é necessário levar-nos para outro lugar através de elaboradas carpintarias – bastam umas estruturas de madeira e a fabulosa interpretação do elenco para fazer com que o espetador se situe na ação: ou numa corte demasiado cortesã, onde parece que não tem entrada o amor verdadeiro; ou numa floresta, de nome Arden onde o amor floresce, como flores inexistentes que perfumam. Apenas com a luminotecnia e pela versatilidade dos atores do elenco apercebemo-nos que não é preciso muito mais: apenas algo que preencha ainda mais o palco – para além do que já fazem os atores.

O que também preenche sem dúvida toda esta história de amores e desamores, de relações entre sexualidade, relacionamento amoroso e poder, é precisamente o que os atores vestem, para além do seu manto interpretativo. José António Tenente consegue de forma exemplar transformar o clássico em contemporâneo, o cortesão no bonito, o complexo no quase-simples. E todos nós ficamos ali, impregnados naquela beleza criada no palco, onde “todos nós somos atores” e onde não é preciso grandes coisas: apenas criatividade e boa execução.

Depois de uma entrada fulgurosa na sala, onde o cenário está já iluminado com algum fumo que pode prejudicar os olhos dos mais sensíveis provocando lágrimas, se não de comoção, de espanto, entram os atores e rapidamente percebemos aquilo que temos diante de nós: um elenco de luxo encenado por Beatriz Batarda, realizando movimentações nem sempre óbvias, nem sempre previsíveis mas sempre de forma tão brilhante. Beatriz Batarda assume uma função difícil – encenar Shakespeare, rompendo de alguma forma com os cânones que parecem ainda subsistir – mas consegue focar o olhar do espetador no essencial. É o dramatismo poético, sempre cruzando gargalhadas com lágrimas, que tem interesse em Shakespeare.

Trata-se de uma comédia que muito nos ensina com sábias palavras, fazendo com que o espetador tenha sempre as emoções à flor da pele, como se pede, aliás, em qualquer bom espetáculo de teatro. Talvez, porém, o palco seja demasiado fundo, porque despido de um quadro, e colocar alguns atores lá bem no fundo, embora se perceba, pode prejudicar a audição correta de algumas frases que ficam “por dizer”. Não é grave, mas distancia-se talvez demasiado do espetador – e parece-me que o teatro promova o oposto. O rompimento clássico ator-espetador foi abolido, o espetador faz parte da acção teatral por nele participar de forma interpretativa; com os atores tão distantes, distante poderá ficar também o espetador mais leigo ou desatento.

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São apenas alguns momentos de pouca duração, o que pode não ser justificação para um completo alheamento da ação – no fundo, fomos lá para ver um Shakespeare contemporâneo, o que implica algum esforço por parte de todos aqueles que compõem a sala teatral. De qualquer maneira, aplausos para uma encenação que não deixou de lado as opiniões dos atores, porque afinal de contas, eles são a ação.

São os atores o essencial no espetáculo, mas não o mais importante: conjugados com toda a equipa de produção, os atores dão vida ao texto, às ações, aos amores, às dúvidas e à constante representação que a nossa vida é. O elenco nesta peça não é uniforme, como nenhum o é. Há sempre aquelas personagens que sobressaem por alguma razão: ou porque nos identificamos, ou porque as lágrimas escorrem naquele ator de forma natural, ou porque a sua prestação é realmente muito boa. Neste elenco o mesmo acontece. Especial destaque para os atores Luísa Cruz, Nuno Lopes e Romeu Costa.

Luísa é quem inicia o espectáculo, na personagem que talvez tenha soltado mais gargalhadas ao público. Trata-se de Tocaspartes, um bobo, que lá por ser bobo não quer dizer que não seja inteligente, já que são mais bobos aqueles que não o querem ser do que os que repudiam esse estatuto. Luísa consegue de uma forma fenomenal prender o público à sua personagem: mesmo no fundo do palco, escondida, solta sempre algumas gargalhadas, compondo a acção que acontece simultaneamente à boca de cena. Pouco mais há a dizer, apenas veementes saudações à atriz, que, mesmo já com alguma experiência nestas lides, ainda consegue surpreender. Shakespeare e as três horas do espetáculo nunca poderão ser entediantes com personagens construídas desta maneira.

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Nuno Lopes é um dos protagonistas, o grande amado de Rosalinda, interpretada por Carla Maciel também de uma maneira bastante boa, num amor que estava cada vez mais difícil de se juntar. Nuno carrega na sua personagem uma carga bastante emocional – os seus olhos brilham, acompanhando-nos em busca de um último nó para que a acção e aquele amor finalmente dê frutos. Mas o que fica não é o amor, são as suas palavras, os seus movimentos e a forma como se entrega em palco. Esta foi mais uma prestação fenomenal de Nuno que parece nunca desiludir.

Outra grande surpresa foi sem dúvida Romeu Costa que encara três personagens, todas elas bem conseguidas, fruto de um trabalho pormenorizado de construção. É mais um na história, é uma personagem secundária, sem dúvida, mas preenche com esplendor uma história cheia de peripécias e nós por desenlaçar. E se isso acontece, é graças ao trabalho de ator que mais uma vez se mostrou o essencial – é o ator que faz um bom texto ser um bom espetáculo, e nunca o contrário.

De um modo geral, o elenco, com altos e baixos, faz realmente de forma exemplar o seu trabalho – se o seu trabalho é passar uma história, isso é possível. É pena apenas que haja prestações sempre iguais, não muito criativas, cujo trabalho de construção de personagem não foi concretizado de forma tão absoluta como noutros membros do elenco: por isso há assimetrias, por isso há destaques. Não é, contudo, de modo nenhum limitativo para que o espetáculo nos prenda a atenção e nos faça sorrir, chorar, arrepiar ou apetecer sair do lugar. Apenas se pedia, talvez, um pouco mais de esforço – porque é sempre possível a perfeição.

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Com a música sempre a acompanhar a viagem pelo amor de Rosalinda e Orlando, todas as peripécias que acontecem no jardim de Arden ganham nova cor – uma música bem executada vocalmente, onde os atores demonstram ainda mais a sua versatilidade enviesando-nos numa harmonia celestial. A conceção musical de Pedro Moreira é bonita – à primeira vez. A monotonia das harmonias e o idêntico ritmo de todas as canções contrastam com a velocidade das ações no palco. Numa história que nos agarra tanto, parece que a música vem fazer uma quebra de ritmo sem deixar, contudo, de nos arrepiar.

Ao final de três horas, o público aplaude de pé, porque a equipa merece. Foram três horas em que Shakespeare e as suas personagens tão bem construídas foram pessoas como nós, numa peça em que é a mulher a atenção central – como no epílogo se faz questão de sublinhar. A igualdade entre sexos impera já – e impera também que se vá assistir a este espetáculo, em cena até dia 26 de janeiro, de terça a sábado às 21h e no domingo às 17h30m. “Ora vinde!” então assistir a este belo espetáculo – o teatro nacional continua bem vivo, Portugal tem grandes atores e o espírito criativo nunca morre: lições que guardo a partir do momento em que terminei de assistir a este belo espetáculo.

Fotografias © Tiago Oliveira