Esta crítica foi nomeada para a edição de 2014 dos TCN Blog Awards, para a categoria de Crítica de Televisão e encontra-se neste momento em período de votação até ao dia 25 de dezembro de 2014. Para escolheres este texto, basta clicares aqui e procurares pela caixa de voto.

Depois de dois anos a ansiar por este momento, os fãs foram finalmente recompensados com o épico regresso de Sherlock Holmes! Um casamento, um novo inimigo e revelações inesperadas são os acontecimentos que marcam a terceira temporada de Sherlock. É de longe a melhor desta série britânica, que não podia ter pedido um início mais estimulante e um final tão surpreendente.

Há dois anos atrás, em The Reichenbach Fall, o último episódio da temporada que nos deixou a todos boquiabertos, vimos Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) no topo de um edifício a despedir-se de John Watson (Martin Freeman) no que seria a sua nota de suicídio, acabando por saltar para a sua aparente morte prematura. Todos acreditaram no seu fim definitivo, porém não seria assim tão simples e o que tínhamos acabado de assistir não passaria de uma ilusão.

Exactamente dois anos depois da “queda” do detetive mais astuto de todos, no primeiro episódio da temporada, The Empty Hearse, encontramos um Watson com bigode, exercendo um trabalho confortável como médico, com uma casa agradável e uma namorada, Mary Morstan (Amanda Abbington), prestes a tornar-se sua noiva. Por sua vez, encontramos um Sherlock Holmes desgrenhado e coberto de sangue, enquanto é torturado por informação numa prisão sérvia, onde é ajudado pelo seu irmão, Mycroft (Mark Gatiss)  que lhe pede para regressar a Londres, de modo a poder evitar um ataque terrorista eminente.

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O momento mais esperado desta temporada, e que certamente não dececionou os fãs, foi o momento em que Sherlock revela a Watson que está vivo. Convencido que vai ser recebido de braços abertos, a reacção de John não corresponde bem às suas expectativas. Um destaque para esta cena, ao mesmo tempo hilariante e de partir o coração, onde, para além do timing perfeito, a inconveniência e a falta de tato de Sherlock não têm limites. Outro dos momentos mais aguardados foi a revelação de como o grande Sherlock Holmes enganou a morte. O elaborado esquema é revelado pelo próprio, num plano bem engendrado que remete para muito mais do que se podia estar à espera. É plausível… mas será real?

The Sign of Three, o segundo episódio, destaca-se igualmente pela sua veia humorística, com momentos mais que preciosos que se juntam num humor digno de uma série britânica. O foco é dado ao casamento de Watson, um acontecimento que pode vir a mudar para sempre a relação dos dois protagonistas, no qual Sherlock Holmes se depara com o maior e mais temível desafio que alguma vez enfrentou: escrever o discurso de padrinho de casamento. Com receio do que pode acontecer quando o astuto detetive fala em público, acabamos por ser surpreendidos com os momentos mais cómicos e enternecedores de toda a série.

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Destaca-se a surpresa de Sherlock quando Watson admite que o considera o seu melhor amigo e lhe faz um pedido especial, toda a hilariante despedida de solteiro (um Sherlock embriagado nunca antes visto faz-nos rir a bandeiras despregadas), a forma como Mary aceita e estimula a relação entre ambos (manipulando-os para que passem mais tempo juntos) e as palavras comoventes de Sherlock (que nunca sonharíamos serem possíveis). Mas mesmo num casamento não deixa de haver casos por resolver. O mistério típico que nos costuma arrebatar está aqui pouco subjacente, sendo que esse não é de todo o ponto forte de The Sign of Three, nem o que nos vai fazer recordar este episódio como um dos melhores da série, onde o papel das personagens volta a ser o que mais sobressai.

Se já tínhamos delirado com o segundo episódio, His Last Vow, o episódio que fecha mais uma temporada, é de longe o melhor episódio de toda a série. Com plot twists geniais e com um clima mais sombrio que contrasta com os anteriores, leva-nos ao rubro por razões completamente diferentes. Depois dos indícios de que um novo inimigo viria a surgir, é finalmente aqui que o seu rosto é revelado: Charles Augustus Magnussen (Lars Mikkelsen) é um editor de um jornal, com um carácter arrogante, cruel e manipulativo, dotado de uma extraordinária agilidade mental capaz de rivalizar com a de Sherlock.

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Para ganhar poder, Magnussen consegue encontrar a fraqueza de qualquer pessoa e com esse conhecimento consegue dominá-la e conseguir o que quer. “O napoleão da chantagem”, como Magnussen é denominado, é o vilão mais perturbador e arrepiante com que Sherlock alguma vez se deparou. O detetive desenvolve mais um plano engenhoso para o derrotar, no entanto, no decorrer da investigação somos surpreendidos com acontecimentos que nos deixam boquiabertos. A relação de John e Mary fica por um fio quando a simplicidade de Mary é posta em causa e o confronto final com Magnussen leva Sherlock a tomar medidas desesperadas que podem vir a influenciar profundamente o seu futuro.

Contrastando com alguns momentos mais dramáticos, a terceira temporada de Sherlock é talvez a mais bem-humorada e a mais centrada no desenvolvimento das relações entre as personagens. É talvez o foco dado à relação entre John e Sherlock que torna esta temporada tão sublime e superior às anteriores, devido à química forte entre Cumberbatch e Freeman, sendo que os diálogos são de novo os momentos mais geniais e divertidos desta temporada. Apesar de ainda ser o detetive presunçoso, extravagante, arrogante, insensível e genial (que tanto adoramos), aqui vemos um Sherlock Holmes mais descontraído, que mostra um lado mais humano.

As personagens secundárias tornam-se igualmente mais cativantes, tais como inspetor Lestrade (Rupert Graves) e Mrs. Hudson (Una Stubbs) e até Molly Hooper (Louise Brealey) que acaba por aparecer mais. Por sua vez, Amanda Abbington como Mary é uma excelente adição ao elenco. Com um espírito vivo e alegre, surge como um salva vidas para Watson, tornando-se o apoio da relação entre Sherlock e John. Ao mesmo tempo, a relação amor-ódio entre Mycroft e Sherlock é aprofundada.

A escrita de Mark Gatiss e de Steven Moffat, argumentistas da série, mais uma vez não desilude, com uma excelente temporada e um final inesperado que mais uma vez nos deixa a ansiar para o que virá a seguir.