Coriolano ©Vitor Hugo Pontes_10

A ira de Coriolano contagia o Teatro Nacional D. Maria II

Coriolano estreou na passada quinta-feira, 9 de janeiro, na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II. O Espalha-Factos assistiu à estreia e dá-te a conhecer um pouco mais a história do protagonista Caio Márcio, conhecido como Coriolano e escrito por Shakespeare, numa Roma moderna em que o povo vive numa esmagadora miséria e os ricos acumulam cada vez mais dinheiro. Está em cena até 2 de fevereiro.

Pouco passavam das 21 horas quando uma Sala Garrett praticamente cheia é recebida com remessas de fumo, pedradas e um cenário de protesto e motim onde, numa escadaria, cidadãos anónimos causam tumultos revoltados a fazer lembrar eventos recentes que ocorreram em países como a Inglaterra e a Grécia. Passada numa Roma modernizada, esta cena dá o mote a uma temática central na peça: o descontentamento do povo face a uma sociedade demasiado estratificada em que os ricos têm tudo e os pobres ficam com as migalhas.

Serve também para introduzir a personagem que dá o título a esta obra política de Shakespeare, Coriolano (Caio Márcio, de verdadeiro nome), um irado militar que rapidamente faz questão de mostrar ao povo a sua posição de desacordo com recurso à brutalidade, oprimindo tudo e todos. Iniciemos então o enredo.

Coriolano ©Vitor Hugo Pontes_2

Coriolano é uma das últimas grandes peças escritas pelo aclamado e enigmático dramaturgo inglês, William Shakespeare, e é talvez uma das suas mais experimentais incursões na história da sua obra. O (anti) herói deste trabalho não pode ser colocado ao lado de Ulisses ou Páris e outros heróis do género. É um militar impiedoso, uma máquina de matar, um exército de um só homem que prima pela sua antipatia e mentalidade manchada pela sede de conquista e domínio do próximo.

Coriolano acredita que o povo romano não merece mais que o pouco que lhes é concedido, que se queixam de barriga cheia e por isso merecem até punição. Tudo isto faz com que esta personagem seja vista com desdém pelo seio popular, imagem esta que cultiva autêntica indiferença por parte de Coriolano, que apenas se interessa pela busca de glória e supremacia vitoriosa através da guerra, valores venenosamente incutidos por sua mãe, Volúmnia (encarnada por uma tocante Ana Bustoff).

Esta adaptação liderada por Nuno Cardoso insere-nos numa Roma contemporânea, com uma roupagem despida (o cenário é estático e resume-se a uma enorme escadaria, corrimões e dois postes de luz) e com a ausência quase total de adereços. Estamos perante uma versão brechtiana daquilo que é talvez das obras mais políticas de Shakespeare e que, em parte, consegue funcionar e entrar em harmonia com o registo elaborado e denso do texto do dramaturgo precisamente por ser um cenário tão desprovido de adornos.

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Assim, esta nação está envolvida em conflito com Corioli, uma cidade rival sedenta de guerra. Caio Márcio (agora com o sobrenome de Coriolano) surge como o trunfo dos romanos e garante, quase sozinho, a vitória do seu povo. É então que satisfaz a sua mãe ao se tornar um herói de guerra e ter Roma aos seus pés para assim se tornar cônsul. No entanto, na típica tradição shakespeariana, surge uma perigosa teia de conspirações que rapidamente muda de novo a frágil opinião popular. O que nunca mudou foi o desprezo que Caio Márcio tem pelos populares e após uma espiral de confrontos este acaba para sempre isolado de Roma.

Desta forma iremos assistir à subida e queda de Coriolano e o seu conturbado regresso à pátria na companhia de um competente elenco no qual é necessário destacar um ameaçador e convincente Coriolano interpretado por um intenso Albano Jerónimo, que parece que a qualquer momento poderá saltar para a plateia e assaltar o público. A já referida Ana Bustoff exerce de forma perfeita a função da sua personagem mostrando o seu misto de candura pelo seu filho e ambição desmedida pelo seu sucesso e condecoração.

Somos capazes de colocar a culpa na mãe por ter criado um filho sedento e conflituoso, mas tal como as personagens afirmam, é difícil não nos tocarmos quando a mesma apela ao seu bom senso. Pedro Frias também cativa a atenção como o fiel defensor de Coriolano, Menémio, personagem que surge como moderador das situações mais exaltadas durante o espetáculo. Por fim, há que sentir pena de Virgília, a mulher de Coriolano, que tal como Catarina Larceda comunica de forma mais que competente, sente-se frustrada e infeliz por ser posta numa plano bem mais que secundário na vida de Caio Márcio, que a subjuga completamente.

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Construída de forma inteligente e interpretada com um grande mérito para todo o elenco que dominou ferozmente este texto tão extenso durante três horas, Coriolano é capaz de pecar pela sua linearidade, que é acentuada ainda mais pela sua duração. Ao longo de três horas somos confrontados com engenhosas transições de cena e um excelente trabalho de figuração, no entanto, também verificamos uma boa dose de cenas que se “esticam” e demoram em demasia num cenário despido e com pouca identidade.

No entanto, nada disto pode retirar mérito a esta co-produção do TNDM II, Ao Cabo Teatro, entre outros. O conto de Coriolano é um de extrema intensidade, que nos transmite mensagens mais que atuais, tal como a fragilidade da opinião pública e as teias de conspirações que são criadas por quem quer deter o poder sem escrúpulos.

O nosso protagonista sempre fez questão de desprezar o mediatismo da sua pessoa, bem como os malabarismos próprios de um político de sucesso e, por isso, teve de se debater contra uma cidade inteira. É de louvar como um texto de século XVII consegue estabelecer um fio condutor até algumas questões da atualidade e como esta equipa conseguiu transportar Coriolano para um mundo mais contemporâneo de forma tão astuciosa, independentemente de algumas questões de fluidez relacionadas com o ritmo do enredo cujo Ato Final se assume como o mais empolgante.

Apreciadores de Shakespeare vão gostar de ver a sua obra revestida com uma roupagem diferente e avant-garde, bem como embarcar numa viagem repleta de ironias e peripécias. Esta é uma peça de teatro séria, pouco casual e que exige algum grau de entrega por parte do espetador, que por vezes não poderá piscar o olho nem uma vez que seja de modo a não perder este ou aquele pormenor de um espetáculo que nos faz pensar depois de sairmos da ilustre Sala Garrett.

Coriolano permanece residente na Sala Garrett até dia 2 de fevereiro, de quarta a domingo no Teatro Nacional D. Maria II.

Fotografias por: Vitor Hugo Pontes

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