Coincidência ou não, o certo é que Lotação 136, novo álbum de estúdio dos Trêsporcento, lotou mesmo o MusicBox Lisboa, ontem à noite. O terceiro disco do conjunto português prorroga a linha musical que vinha sendo desenhada com Hora Extraordinária (2011) e Quadro (2012). Durante o concerto, passeou-se um pouco por todos os álbuns. 

Logo a abrir, És Mais Sede deu um safanão na sala lisboeta, visivelmente entorpecida depois da abertura dos Capitão Capitão. A primeira reação calorosa do público chegou com Elefantes Azuissingle do álbum de estreia da banda, que também consta de Lotação 136Entre palmas compassadas e pulos tímidos, ia-se apreciando a pujança dos Trêsporcento, tanto pela rouquidão forçada do vocalista Tiago Esteves, como pela forma exímia como brincam com as dinâmicas.

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O contraste é, talvez, a principal etiqueta dos TrêsporcentoDo sussurro ao berro, do acústico à eletrificação, da postura roqueira de sublevação à postura romântica de carência. Nada invalida nada. Pode serrar-se presunto, mas de mansinho. A parte do “mansinho” é, muito provavelmente, alcançada pela harmonia proveniente das vozes de Tiago Esteves Pedro Pedro. A ajudar a isso, temos o dedilhar sistemático de uma guitarra elétrica, mesmo que servindo de base às descargas voltaicas da outra. Fazem-nos crer que estamos a ouvir uma balada e, depois, tiram-nos o tapete debaixo dos pés. O Dia em que Esses Olhos Brilharam é exemplo disso mesmo. 

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Dás a Mão e Não SentesQuero que Sejas MinhaLotação 136, e outras, são, sem qualquer dúvida, composições simples, com a particularidade de serem muito bem adornadas. Ao vivo, essa particularidade tomou contornos diferentes do registo de estúdio, especialmente a avaliar pela despreocupação de Tiago Esteves relativamente à métrica. Cantou sempre como quis, uma vezes retardando a entrada da sua voz, outras vezes apressando-a. «A próxima música é uma merda e chama-se Cascatas», ironizou o vocalista ao apresentar o primeiro single de Lotação 136A avaliar pelo entusiasmo da plateia, oxalá que todas as “merdas” fossem assim.

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Para fechar, trouxeram Espero, última faixa do novo álbum. A marcha do bombo e vibração dos pratos deixou o público com água na boca, clamando pelo seu regresso, que acabou por acontecer. Ainda homenagearam os Capitão Capitão, ao pedirem emprestada uma das suas músicas, Grande Mentiroso.

Fotos: Sónia Pena