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A Recordar: Spencer Tracy

A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Foi em vida uma das maiores estrelas de Hollywood, uma das figuras mais icónicas da “Idade de Ouro” do Cinema Americano, e um dos atores mais populares à escala global: Spencer Tracy, o homem que interpretou personagens que ficaram no imaginário popular e que hoje ainda se fazem sentir, muito por “culpa” da energia e do toque especial que o ator atribuía a cada papel que desempenhava, uma característica que a ele ficou associada do primeiro ao último filme em que participou. As figuras inteligentes e psicologicamente complexas a que Tracy deu vida no grande ecrã, em 37 anos de trabalho na indústria cinematográfica que resultaram em 75 filmes, são ainda hoje cativantes e inigualáveis, tal como o genial talento do artista.

Nasceu a 5 de abril de 1900 em Milwaukee, no Wisconsin. E foi na Ripon College, um colégio liberal da área das Artes, que Spencer Bonaventure Tracy começou a empenhar-se a sério na representação. Mais tarde recebeu uma bolsa de estudo da Academia Americana das Artes Dramáticas. Passou sete anos da sua carreira a pisar os palcos do teatro, trabalhando com diversas companhias e causando sempre sucesso na Broadway. Foi graças ao teatro que Tracy chegou ao grande ecrã: em 1930, o papel principal que interpretou na peça The Last Mile, de John Wexley, que teve quase trezentas representações nesse ano, surpreendeu as audiências e chamou a atenção dos estúdios de Hollywood.

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Spencer Tracy estreou-se no Cinema em três curtas metragens, todas de 1930, mas o primeiro filme que interpretou foi Up in the River, do mesmo ano, realizado por John Ford, e que teve outro ator a fazer a sua primeira longa-metragem: Humphrey Bogart. Contudo, esta primeira aparição foi inglória para Tracy e, ao contrário de Bogart, a fama não chegou tão depressa, e o ator continuou desconhecido do grande público por mais vinte e cinco obras cinematográficas.

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Só a partir de 1935 é que Spencer Tracy viu o seu talento a ser reconhecido tanto pelo público norte-americano como pela crítica especializada: ao assinar contrato com os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer nesse ano, o estúdio com mais prestígio na época em Hollywood, a sua carreira floresceu e protagonizou uma série de filmes que obtiveram grande sucesso. Um desses filmes que catapultou o ator foi Fúria, de 1936. Realizado por Fritz Lang, é uma história de injustiça e vingança em que Tracy oferece uma das suas mais poderosas performances como Joe Wilson, o homem inocente que é preso por um crime de rapto que não cometeu, e que destrói a sua vida pacata e correta na sociedade americana. Nesse mesmo ano, a Academia atribuiu-lhe a sua primeira de nove nomeações para o Oscar, com o filme San Francisco.

spencer tracy e mickey rooney

E em 1937 e 1938 foi distinguido duas vezes consecutivas pela Academia das Artes e Ciências de Hollywood, arrecadando dois Oscares para Melhor Ator Principal pela sua prestação nos filmes Lobos do Mar, a adaptação da obra homónima de Rudyard Kipling (37) e Homens de Amanhã (38), um drama de grande êxito co-protagonizado por Mickey Rooney e que deu origem a uma sequela com a mesma dupla, Alarme na Cidade dos Rapazes (1941) . Depois, a Academia só voltaria a lembrar-se dele a partir de 1951, ano em que foi nomeado pela comédia do ano anterior O Pai da Noiva, de Vincente Minnelli.

spencer tracy e katharine hepburn

Na década de 40, Spencer Tracy tornou-se uma das maiores estrelas dos estúdios da MGM, mas em 1942 começaria uma parceria que se tornaria lendária em Hollywood. Esse foi o ano da estreia de A Primeira Dama, uma comédia realizada por George Stevens que juntou, pela primeira vez, Spencer Tracy com a atriz Katharine Hepburn, o que fez surgir uma das mais conhecidas duplas da “Idade de Ouro” do Cinema Americano. A química entre os atores não era conseguida apenas pela ficção cinematográfica, e Tracy iniciou uma relação com Hepburn em 1941, apesar do ator ser casado (mas estava separado da mulher), e que só acabou com a morte do ator, em 1967. A dupla funcionou tão bem, tanto em termos artísticos como lucrativos, que os dois atores voltaram a juntar-se no ecrã por mais oito ocasiões. A forma mágica e sempre divertida com que os atores contracenavam um com o outro originou filmes que ficaram para a História, em que se destacam Um Filho do Povo (1948) de Frank Capra, A Costela de Adão (1949) e A Mulher Absoluta (1952), ambos de George Cukor, e Adivinha Quem Vem Jantar (1967), de Stanley Kramer.

A conspiração do Silêncio

Spencer Tracy continuaria a obter êxitos e aclamações durante os anos 40 e nos anos 50. Em 1955, um ano antes de sair da MGM, protagoniza um dos filmes mais conhecidos entre os que fez nos estúdios, e que com o qual arrecadou a sua quinta nomeação da Academia: A Conspiração do Silêncio. Realizado por John Sturges, Bad Day at Black Rock, no seu título original, é um thriller sobre um forasteiro que chega a uma pequena cidade escondida nos EUA, onde descobre a existência de um segredo que é comum a todos os seus habitantes, o de um crime de que todos têm conhecimento, mas cujas circunstâncias e culpados guardam silenciosamente entre si, com medo das consequências que a revelação dos factos possam ter naquela aparentemente pacífica comunidade.

The Old Man and the Sea - inside
A partir de 1956, ao ganhar a “independência”, começa a fazer outro tipo de trabalhos cinematográficos, e apesar de ter sofrido algumas experiências de trabalho menos positivas, no final desta década deixou mais dois papéis notáveis e memoráveis, ambos de 1958: foi o protagonista da adaptação de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, num filme assinado por John Sturges, Henry King e Fred Zinnemann, numa interpretação que lhe valeu mais uma nomeação para o Oscar. Spencer Tracy voltou também nesse ano a ser dirigido por John Ford, com o filme O Último Hurra, uma obra sobre os bastidores da política e as eleições numa cidade americana, onde o mayor então em funções, Frank Skeffington (interpretado pelo ator), concorre pela última vez para o cargo que desempenhou durante vários mandatos.

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Na década de 60, e graças ao seu estatuto de estrela independente, Spencer Tracy apostou em papéis que conquistaram uma nova geração de cinéfilos, e que revelaram uma desconhecida faceta do talento do ator, com filmes mais sociais e diferentes do panorama convencional de Hollywood. Nos últimos anos da sua carreira, e ao contrário de muitos outros artistas do seu tempo, Tracy continuou a reinventar-se e a conquistar espectadores e críticos, e nesta década, tudo se deveu a Stanley Kramer, para o qual o ator fez 4 dos 5 filmes que interpretou nos anos 60. O primeiro foi Inherit the Wind (1960), em que o ator interpreta com grande energia um advogado que defende um professor que ensinou a teoria da Evolução de Darwin aos seus alunos, numa comunidade dominada pelos valores fanáticos do Criacionismo. Valeu mais uma nomeação da Academia.

o julgamento de nuremberga

A saúde do ator começou a deteriorar-se nos primeiros anos da década, e apesar de rejeitar alguns papéis que poderiam ter sido marcantes na sua filmografia (como Longa Viagem para a Noite, um filme de Sidney Lumet e com Katharine Hepburn, e O Leopardo de Luchino Visconti), Spencer Tracy continuou brilhante nos outros papéis que fez em fitas de Stanley Kramer. Em 1961 foi a vez de O Julgamento de Nuremberga, que a Academia também distinguiu na sua lista de nomeados desse ano, e em que o ator é um dos juízes que integrou os processos de condenação de vários dos envolvidos num dos maiores crimes que a Humanidade conheceu: o Holocausto. E em 1963, fez um pequeno mas crucial papel na comédia O Mundo Maluco , em que Kramer faz uma sátira de ação e aventura em que o espectador acompanha uma estranha caça ao tesouro.

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O estado do ator piorou cada vez mais, o que fez com que estivesse afastado dos ecrãs de todo o Mundo durante algum tempo e cancelasse participações em vários projetos, voltando apenas em 1967 para a sua quarta colaboração com Stanley Kramer, naquela que foi a sua última interpretação e a derradeira vez em que contracenou com a sua companheira de longa data: Adivinha Quem Vem Jantar, uma história de famílias e de preconceitos, teve um processo de feitura difícil devido à doença do ator, mas se se vir o filme, as piores condições de saúde de Spencer Tracy não são tão notórias, em comparação à sua excelente performance, onde está tão bem acompanhado por Katharine Hepburn e pelo jovem Sidney Poitier.

Spencer Tracy morreu a 10 de Junho de 1967, vítima de um ataque cardíaco apenas dezassete dias depois do final das filmagens da película. Foi nomeado pela nona vez, mas postumamente, para o Oscar por esta última interpretação, que deu um ponto final a uma brilhante e extensa carreira, repleta de êxitos e de personagens inesquecíveis que influenciaram várias gerações de atores que se lhe seguiram. É ainda uma das figuras mais queridas do Cinema Americano, e a sua obra merece ser descoberta pelos cinéfilos do século XXI.

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