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Herman José e uma casa mal-arrumada

Herman José comemora, em 2014, 40 anos de carreira. Outrora classificado como o melhor humorista, o melhor apresentador e até o rei da televisão portuguesa, atravessa desde dezembro um dos momentos mais desafiantes das últimas quatro décadas – saiu do ar e não foi por opção própria.

A carreira do luso-alemão mais conhecido do mundo confunde-se com a história da televisão portuguesa, da nossa democracia e contém alguns dos momentos mais marcantes daquele que é o Portugal contemporâneo.

As baixas audiências foram o argumento fácil para encerrar o Herman 2013, que com o ano velho ficou para trás. Mas, se é para falar de audiências, o 5 para a meia-noite faz pior e não é cancelado. Luís Marinho disse, em declarações à Notícias TV, que Herman não é um grande apresentador. É curioso que o diga, uma vez que Herman 98, Parabéns ou Roda da Sorte foram, todos eles, na RTP, e foram grandes momentos de televisão.

Outros pedem a Herman que se reinvente, pedem um regresso aos sketches de outros tempos, esquecendo-se que as carreiras, como as pessoas, também mudam e amadurecem. A última experiência desse género foi, para Herman José, o Hora H. E acho que todos podemos concordar que ficou bem longe da genialidade de outros tempos.

Herman não tem de se reinventar. No máximo tem de ter tanto amor à televisão como aquele que põe em palco nos espetáculos ao vivo que faz. E aqui talvez o problema não seja do apresentador, mas sim da televisão portuguesa, tão carecida de brilho, investimento e instinto.

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Não passaram assim tantos anos desde o Herman SIC. E se, no seu final, o programa era uma mera sombra do que foi ao início, também é verdade que foi, durante quase uma década, a sala de visitas do país, onde passaram os mais importantes, de cá de dentro e de lá de fora. As entrevistas conduzidas por Herman não ficaram aquém dos momentos gloriosos dos sketches do Tal Canal, do Hermanias ou do Herman Enciclopédia.

Talvez esteja na hora dos responsáveis pela televisão portuguesa pensarem que o que honra um horário nobre são programas com espaço para mostrar talento e arte, programas de conteúdo próprio, que sendo para toda a família, são capazes de estimular a inteligência e cativar o bom humor. Não são Gostos Disto ou edições em série de concursos e programas de entretenimento importados que fazem diferença na vida das pessoas.

Não venham pedir a Herman José para mudar, não venham dizer-lhe que o problema é dele. Nem tenham coragem de lhe pedir para regressar à televisão, se for para o encostar à meia-noite, sem guiões ou orçamento decentes, para o tratar como uma mobília velha que já não sabem onde arrumar. Às vezes, o problema não é da mobília, é do mau decorador. E, infelizmente, a televisão generalista portuguesa é uma casa muito mal arrumada.

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