Hoje a residir na Bolívia, Ian Crause mantém-se sob o “anonimato” que nunca mereceu; é realmente verdade que grande parte dos génios, independentemente da área onde façam carreira, nunca chegar a ter o devido reconhecimento. O já lançado The Vertical Axis, primeiro longa-duração a solo do músico britânico, chegou quase duas décadas após o fim dos Disco Inferno e a verdade é que sob o prisma das palavras de Ian percebe-se imediatamente o porquê dessa demora: a música que hoje se faz sob o apoio de companhias discográficas não tem o mesmo grau de liberdade do que aquela que se fazia há duas décadas.

Muito por culpa disso, o primeiro LP de Ian Crause foi inteiramente trabalhado por si mesmo, tendo sido inicialmente pensado que este seria editado por uma label. Refugiado na literatura, é lá que encontra as suas maiores inspirações para compor. “Oh, there’s more to life than books, you know // But not much more, not much more“. Homem sábio, com uma cultura capaz de nos deixar boquiabertos (afinal de contas todos os génios nos deixam de boca aberta), inesperadamente conservador e amante de música clássica, Ian respondeu-nos às questões que lhe fizemos: o resultado dificilmente podia ser melhor, existe aqui o sumo que os anos noventa diziam estar azedo, o sumo que hoje a internet nos permite saborear e comprovar que afinal quem estava azedo eram as pessoas daquela época que não o bebiam por seguir esta ou aquela tendência. Tomai e bebei, Ian Crause é em pessoa aquilo que o Ian Crause músico aparentava ser.

DI Single Of The Week

Poucas foram as reviews feitas aos trabalhos dos Disco Inferno no seu tempo “activo”: esta é uma delas.

EF: Na altura em que apareciam os Disco Inferno, a Grã-Bretanha fazia com que surgissem novas bandas com um som totalmente novo e que acabavam sempre por evoluir a partir do shoegaze. É normal que quem conheça hoje Disco Inferno, conheça Moonshake ou Bark Psychosis. Na altura também acontecia isso? Acha que nessa altura sentia que havia um movimento de bandas emergentes e que as pessoas, tal como hoje, as associavam umas às outras?

IC: A nossa audiência nessa altura era muito pequena, como era a dos Moonshake e dos Bark Psychosis, ainda que a destes últimos era maior que as outras e que, além disso, os Bark estavam a começar a ter algum sucesso. Penso, ainda assim, que esse sucesso nunca se comparava às infindáveis bandas que apareciam nos jornais todas as semanas. Nós víamo-nos como similares ao nível de soarmos todos diferentes uns dos outros e de tudo o que andava à nossa volta.

Acho que enquanto a nossa banda estava no activo estava a haver uma grande mudança a ser feita pela nossa geração sobre o que as bandas deveriam ser, que acabaram por se tornar um pré-requisito na parte da audiência, na crítica especializada, e, como consequência, também nas próprias bandas, que era colocarem como primeira prioridade o entretenimento e o sucesso financeiro. Isso, na altura, estava acima de qualquer outra coisa, mesmo da própria música. Foi algo que sempre existiu. Antes de nós, da nossa época, iam existindo movimento “contra-culturais” que eram aqueles que mais nos inspiravam, mas naquela altura para os nossos contemporâneos isso só tinha quase um significado, tomar drogas, e isso não é uma coisa que desafie a audiência. Posto isto, a “contra-cultura” de que nós pensávamos fazer parte tinha deixado de existir na Inglaterra. As bandas que mencionas eram todas como nós, inspiravam-se nas grandes bandas que lutavam por ser diferentes, mas agora estão fora de combate e ficaram encalhadas quando a maré vazou, com uma audiência muito pequena que vinha duma minoria não conformista de pessoas que iam seguindo aquilo que era basicamente a continuação do ideal post-punk.

A maioria dos fãs nos nossos concertos eram pessoas na casa dos 30 ou 40 anos, pessoas que tinham feito parte do movimento punk, o que significava muito para nós visto que tínhamos por volta de 18 ou 19 anos na altura. O Steven Severin, por exemplo, pediu-nos para abrir para os Siouxsie & The Banshees porque pensava que tínhamos os mesmos ideais que essas bandas do final dos 70’s, o que era muito invulgar porque nos 90’s havia toda aquela ideia de que quem não seguia as tendências era um falhado.

EF: Na altura em que os Disco Inferno existiam não havia uma exploração electrónica que não a da música simplesmente electrónica, como aquela que existe hoje. Se os Disco Inferno existissem hoje seriam diferentes daquilo que foram há vinte anos atrás? Em que aspectos seriam diferentes?

IC: Existia electrónica experimental, mas era numa área diferente. Sobrepunha-se entre o avant-garde e os bares, enquanto nós fazíamos música pop com guitarras, o que, ironicamente, era o que nos fazia soar tão diferente de tudo o resto, mas também nos metia fora desses movimentos e punha-nos a competir com as bandas de grunge e britpop. Fora isso, obviamente que é impossível dizer de que modo as coisas seriam diferentes com certezas, mas, como “previsão”, se estivesse a começar agora e tivesse as mesmas sensibilidades, tentaria usar as capacidades do computador e o seu poder de processamento e atenção ao detalhe para fazer músicas da mesma forma que fazíamos com os instrumentos de samples que tínhamos na altura, que é o hoje que estou a fazer de certa forma. Sobre o álbum de Disco Inferno a seguir ao Technicolour, eu queria que fosse em 3D com carrinhos de microfones a andar contra performances em tempo real, por exemplo, e isto é muito mais fácil de fazer com computadores, por isso estou a experimentar uma lógica bastante similar, mas com mais cabeça do que quando era jovem, de forma a integrar imagens e cores na minha música – ao contrário da música abstracta que nos rodeia hoje em dia. A minha leitura fez com que deixasse de tentar criar uma sensação de espaço real através do som e começasse a tentar criar uma matriz de símbolos, o que é muito mais fácil de fazer e tem um certo background se recuarmos na história de arte quão longe nos for possível. É também uma maneira de construir um conjunto de significados que o realismo não consegue tão facilmente.

A maioria dos músicos parecem escolher ler literatura realista ou romântica e existencial, e eu acho que isso é um erro. A base, para mim, é a arte humanista do final da idade média, que era uma “matriz de símbolos”, e também a Divina Comédia e os grandes modernistas do século XX, que também adoravam o primitivismo e a arte clássica. O meu álbum até tem uma parte bem atrevida de guitarra acústica que serve de tributo a essas inspirações, por isso porque não comprar uma cópia do álbum e ver se a conseguem encontrar?

EF: Os Joy Division fizeram-no querer pegar numa guitarra, como já disse numa entrevista. Existe alguma outra banda na actualidade que em seu ver tenha o poder para fazer outros ter o mesmo impulso que você teve quando ouvia Joy Division?

IC: Não, não foram eles que me fizeram querer tocar guitarra. Já tinha comprado uma antes de ouvir Joy Division, porque nós tínhamos decidido fazer uma banda e concordámos que o facto de eu tocar guitarra significava que era menos uma pessoa que tínhamos de procurar. O Willmott decidiu que queria tocar baixo e o Gish foi para o teclado. Mas sim, comecei a gostar muito deles pouco tempo depois quando passei mais ou menos um ano a tocar as músicas deles numa corda. Isto foi um ano antes de conseguir tocar mais que uma corda ao mesmo tempo.

Claro que há por aí bandas que podem inspirar as pessoas da mesma maneira, como pode não haver? Se eu tivesse 17 anos agora, os MGMT provavelmente seriam os meus New Order. São especiais e muito inteligentes.

EF: Acha que existe, de alguma maneira, um semelhança entre o post-rock britânico dos anos 90 praticado por Disco Inferno, Moonshake, Bark Psychosis, Talk Talk e o post-rock contemporâneo de Explosions In The Sky, Mogwai ou Godssped You! Black Emperor?

IC: Não ouvi muita coisa dessas bandas, por isso não sei dizer. Aquilo que ouvi soava um bocado a exercícios instrumentais, o que me aborrece um bocado, para dizer a verdade. O que fazíamos como DI e aquilo que faço agora articula-se na ideia de uma canção ser algo específico, com conteúdo textual que introduz uma dimensão de significado que não é possível com música apenas instrumental.

A maior parte desses artistas não tem letras, por isso o significado linguístico é inexistente logo desde início. Para me entusiasmar, a música tem de atingir a forma pictórica através da abstracção, e aquilo que ouvi não fazia isso. Era simplesmente abstracto.

EF: Acha que o facto de hoje a internet ter muita importância no mundo da música contribui para que o legado dos Disco Inferno seja hoje diferente daquilo que foi no tempo em que estiveram activos?

IC: Parece-me mais que foi o Ned Raggett a espalhar a mensagem às pessoas sobre nós e até lhes chegava a enviar CD’s, o que criou um efeito catalisador. Também falava com pessoas da internet, por isso parece-me óbvio que sim, a internet teve uma grande influência nisso. Claro que há um lado irónico no meio disso tudo, que é o facto de a maioria das pessoas que ouve as nossas músicas, assim como grande parte do resto da música que existe agora, obtiveram-nos de graça, por isso nós não beneficiámos disso de maneira a que isso afectasse o nosso dia-a-dia. Eu tentei registar-me há alguns anos com a MCPS (organização inglesa que regista músicas e gravações) e disseram-me que não têm nenhum registo de termos existido, por isso…

EF: Lemos numa entrevista concedida por si que, quando estava a escrever e a gravar o D.I. Go Pop, estava com receio e convencido de que uma banda qualquer iria ter a mesma ideia de trabalhar a com as tecnologias de sampling, o que tornaria a sua ideia “menos inovadora”. Acha que, após estes anos todos, isso realmente aconteceu? Conhece alguma banda com um som idêntico ao de D.I. Go Pop?

IC: Acho que não, mas, para ser sincero, o nosso som estava dependente dos aparelhos de sampling e dos instrumentos midi que nós usávamos, por isso, quando os computadores tomaram conta das cenas no final dos anos 90, tornou-se evidente que não ia haver mais ninguém a soar exactamente como nós porque a tecnologia tinha avançado. Acho que só os The Avalanches é que faziam coisas parecidas com aquelas a que eu queria que nós soássemos quando nos separámos. Sons cartoonescos era uma das direcções que eu gostava de ter seguido. O facto de uma vez ter feito demos desse género e de ninguém ter gostado fez com que deixasse essa ideia de lado. Ao fazer isso, fui perdendo as minhas ideias e levou anos para que voltassem a aparecer.

EF: Como aconteceu a mudança sonora do primeiro álbum (Open Doors, Cloded Windows) para D.I. Go Pop? E para Technicolour? O que fez mudar tanto? As influências mudaram de álbum para álbum? E já agora, como correu a peculiar gravação de D.I. Go Pop?

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Capa de D.I. Go Pop

IC: Sempre odiei o primeiro álbum, excepto as baterias, que soavam fantásticas. Entre o Rob e o Charlie tudo soava muito bem, mas o resto era uma merda. A produção do Charlie foi um desperdício em nós, para ser franco. Por isso, era inevitável que mudássemos.

Quando começámos a escrever o D.I. Go Pop muito do que me motivava era tentar encontrar novas maneiras de dizer as coisas através do som, por isso a mudança desse som foi essencial para a expansão lexical dessa linguagem. Passou a ser parte da razão para o fazer.

EF: Acha que os samples que escolhia e escolhe para as suas músicas acabavam por ser influenciados pelas suas letras ou era simplesmente uma questão de sonoridade, de ver o que encaixava ou não bem?

IC: Agora ou antes? Antigamente, as letras sugeriam sons e os sons sugeriam letras. Havia uma ligação bastante sólida entre as duas. Ultimamente, a ligação entre as duas é toda aquela que eu conseguir ter. Toda a filosofia daquilo que tenho feito é criar uma espécie de canção iluminada, onde as letras apresentam imagens que correm por trás dela, ligando-a ao som e misturando-se com a música de todas as formas que eu o conseguir. Não é suposto ser apenas só uma música e nada mais. A lira é o instrumento do vocalista, é a presença do narrador.

EF: Nos tempos em que os Disco Inferno estiveram activos as letras das suas músicas eram pouco perceptíveis, não pelo seu conteúdo mas sim pela produção dos seus registos. Hoje em dia nota-se que tem enfatizado as letras que escreve sob o nome de Ian Crause. Em que modo são diferentes as temáticas que o inspiravam para escrever nos tempos de Disco Inferno e nos de hoje? Acha que o fim dos Disco Inferno e o facto de terem sido quase ignorados na altura o influenciou no modo de escrever?

IC: Isso é porque a minha voz era horrível! Ninguém a achava boa, muito menos eu. Agora consigo cantar melhor, penso, por isso fico feliz por a ouvir. Também acho mais fácil escrever letras (ainda que levem muito tempo a ser feitas) porque tenho passado muito dos meus últimos anos só a ler, principalmente estudos de alguns poetas.

Por isso tenho um conhecimento mais robusto sobre aquilo que posso e não fazer, o que é poesia e que verso o é, e depois no que se torna a canção e onde quero chegar com as palavras. Fazem-se várias coisas diferentes nas músicas, mas há sempre um objectivo na canção, ou então não há um motivo para ela existir. As letras aparecem sempre antes da música, e a música acompanha as letras.

Eu penso  o que escrevo de forma muito racional. As letras estão melhores agora porque lidam com as coisas coerentemente, coisa que sempre tentava fazer quando era mais novo mas não sabia como. As músicas começam normalmente com uma ideia ou uma frase, depois seguem para uma conclusão, escrita por alguém que sente que percebe o seu espaço no universo, que é mesmo um universo, com os seus limites, de causa e efeito. Não é uma fórmula comercial, mas sim uma simples crença em coisas que se relacionam umas com as outras e que contém um significado. E isso é uma perspectiva humanista. O facto dos elementos serem símbolos, também significam que quase podes sentir que todo o universo da música está a apenas dois passos de ti, e se quiseres podes muito bem chegar até lá e tocar numa parte qualquer. É profundamente reconfortante em comparação com os trabalhos que tentam tocar no sublime e criar sentimentos lindos a partir de ideais românticos e existenciais.

EF: Sabemos que durante a gravação do seu novo disco teve algumas divergências com a sua editora, que acabaram por ditar o seu afastamento da mesma. Acha que o sentido criativo dos músicos de hoje em dia está afectado por quem os gere, isto é, pelas editoras? Acha que ainda existe espaço, no meio das massas, para que alguma coisa não seja verdadeiramente conceptual venha um dia triunfar ou acabará sempre por se reduzir a uma pequena porção de pessoas?

IC: Acho que tudo isso é irrelevante quando se compara com o tsunami que atingiu o mercado da música independente nos últimos anos. Costumava haver um sector independente, mas eu nunca consegui ter acesso a isso. Provavelmente, isso é porque as pessoas nessa indústria me vêem como irrelevante, o que até é verdade em parte (ou até eu ganhar visibilidade na imprensa por causa de alguma coisa, ou quando voltar a ser o melhor amigo de toda a gente outra vez). Não percebo qual é o objectivo das editoras pequenas que não têm dinheiro, que até estão no activo por causa de um hobby de algum cavalheiro ou então para algum presunçoso conseguir obter atenção, de tentarem gerir talentos e vendas ao ponto de serem eles próprios a “encomendar” a música que querem. Do género “se isto tiver mais graves podemos mandar mais 30000 cópias para a Malásia”, quando no total vão ser feitas para aí 500 cópias do disco. Eles deviam era escrever os seus próprios discos, como alguns fazem, e expressarem-se criativamente através disso.

Mostra quanto amadorismo está presente nas classes baixas da música actualmente, mas não de uma forma positiva como existia no punk, onde as coisas eram realmente abertas e a criatividade podia ser explorada à vontade. Aqui é o oposto. Aqui está o pequeno burguês dono de uma loja ou a mentalidade de músico frustrado.

EF: Não são poucas as abordagens que os Disco Inferno e o Ian, ao longo das suas carreiras, fizeram à música pop; como olha para a música pop de hoje em dia e qual a sua opinião acerca de quem a consome? Acha que, cada vez mais, o seu triunfo está nas suas estratégias de marketing?

IC: O “triunfo” reside nos ritmos, melodias e letras simples e universais: os princípios básicos da música euro-asiática. Eu prefiro ouvir música pop do que ouvir, por exemplo, uma banda aleatória de noise rock ou shoegaze, onde as músicas são entediantes na sua maioria. Porque é que essas pessoas merecem mérito só porque usam noise? O que significa, na verdade, noise? Fodam-se todos.  Qual é a surpresa? Eles tratam a música como se fosse suposto ser uma ponte para um estado mental visionário, mas na sua maior parte parece simplesmente o equipamento a bater mal. Aborrecido. É o chamado Botão do Génio, onde as pessoas compram um aparelho a pensar que tem um Botão do Génio qualquer, onde tu pensas “Se carregar neste botão, vai soar espectacular”, mas tudo o que faz é outro som. Nada mais.

Já não estamos nos anos 60, quando o Jimi Hendrix andava a irritar o Leo Fender por abusar das guitarras dele e a tentar ver até onde conseguiam ir os novos amplificadores, quando os Velvet Undergorund andavam a experimentar formas genuínas de fazer algo novo, ou quando os The Byrds e os The Band andavam a tentar trazer tipos de folk do século XIX para a era eléctrica. Tudo o que a maior parte dessas pessoas fazem é carregar num pedal e confiar que o circuito eléctrico crie uma parede de som. Não há nada nisso que comunique com as pessoas de forma humana. O próximo passo tem de ser o conteúdo, para que o conteúdo por si consiga reconfigurar a forma externa, porque essas formas já foram completamente exploradas devido à tecnologia presente hoje em dia.

Mas isso exige pensamento e trabalho, próximo do trabalho que um escritor ou pintor figurativo tem de ter, e a maior parte dos músicos são preguiçosos ou estúpidos, por isso não querem ter esse trabalho todo para o fazer, coisa que envolveria intelecto e compreensão. A razão para os My Bloody Valentine soarem tão bem é o facto das melodias e harmonias serem sublimes. A parede de ruído, por muito intrinsecamente bem construída que esteja, é secundária. Podias tocar as músicas deles com um quarteto de cordas e soar sensacional, tenho a certeza.

EF: O que tem ouvido nos últimos tempos? As suas influências ainda são as mesmas que tinha quando escrevia nos Disco Inferno?

IC: Musicalmente, falando de pop e rock, são um bocado as mesmas, para dizer a verdade. Acho que o Fennesz tem feito coisas fantásticas e que soam a algo que nunca tinha ouvido antes, mas a verdade é que nos últimos anos só me tenho sentado a ler livros ou a ouvir rádio. Perdi todo o interesse na progressão das coisas fora de mim mesmo, e a minha progressão pessoal residia na leitura. Passei alguns anos a ouvir praticamente só música barroca e clássica, coisa que deixou uma marca em alguns pontos no meu álbum, que até tem um preço razoável (“sacável” de qualquer bom servidor de ficheiros). Descobri os Radiohead no final dos anos 90 quando os vi tocar ao vivo em Londres, não era um fã mas fiquei abismado com o concerto, uma das melhores bandas que já vi.

Mas são os livros que me informam da maneira como os discos soam e dão-me ideias para músicas. Porque o som para mim é apenas plástico, como a tinta, para ser manipulado de acordo com o texto e as imagens e os efeitos espaciais que preciso num determinado momento. Isto dá-lhes outro nível de significado.

O crítico literário Erich Auerbach é mais influente no meu pensamento musical do que qualquer outro músico actualmente. O livro dele, o Mimesis, é tipo uma bíblia sobre a relação entre a forma e o conteúdo na literatura (e, com isso, todas as artes).

EF: Se tivesse que escolher os cinco discos favoritos de todos os tempos, quais seriam os eleitos? E quanto a canções, quais as suas cinco canções favoritas de todos os tempos?

IC: Hoje de manhã estava a ouvir o Closer, por acaso, por isso tem de estar entre as escolhas. Os Joy Division nunca ficaram datados, para mim. A Passover é das minhas favoritas deles. Um som único. Música escrita à parte, o som do álbum é lindo – muito suave nas frequências mais altas se o ouvires em colunas de estúdio. Dizem que o Hannett pegou nos monitores do estúdio, colocou-os na cantina e regravou o álbum todo com microfones para conseguir mais ambiências, portanto se calhar é por isso.

Uma coisa que não tenho ouvido ultimamente porque risquei o meu CD antes de o mandar para o iTunes é o The Music of the italian Renaissance, da Shirley Rumsey, um dos discos mais bonitos que alguma vez ouvi, um dos meus favoritos de sempre. Ela canta várias canções de amor e guerra enquanto toca alaúde, cistro, etc. É incrivelmente bom.

O Christophe Rousset a tocar Bach numa harpa tem que estar lá em cima, especialmente com o Christian Schmidt no violino. Eles tocam de acordo com o que é, supostamente, a forma mais precisa da altura do Bach, usando instrumentos dessa era, e soa mesmo bem. Eles jogam muito com a ciência e a matemática e com o facto de adorarem a forma como essas ciências influenciam a música actual, para tentarem fazer com que a sua própria música seja relevante (mas, obviamente, estão só a tentar validar os seus egos com a ideia de que estão a fazer algo inovador, tentando esconder o facto de não criarem eles próprios nada artístico). A segunda faixa no Six Sonata é das melhores músicas que ouvi de sempre, sem dúvida. Só um violino e uma harpa. Costumava ouvi-la em loop durante horas. Os padrões são sobrehumanamente bons. É difícil acreditar que foi escrita por apenas um homem, porque parece mesmo além das capacidades de apenas uma mente. A harpa parece-me como uma molécula de ADN. Tem mais criatividade e melodia nos seus quase 3 minutos do que a maioria dos músicos conseguem em metade das suas vidas. A certa altura, passei 18 meses a tentar escrever uma peça de harpa que conseguisse emular o que o Bach fazia, mas falhei por completo, obviamente.

Pronto! Chegou a hora de algum rock contemporâneo. Vou escolher o Mum Tidied Room, dos Lostprophets, para o quarto lugar, uma banda cuja música conheço bem e adoro, por isso espero voltar a ganhar alguma credibilidade entre a juventude por fazer isto. Por isso, aí está o número quatro.

Não posso escolher os The Ring Cycle porque seria demasiada música clássica… por isso, Fear of a Blank Planet? The Young Gods? Songs About Fucking? Bitches Brew, talvez? The Throwing Muses? Clear Spot? O Greatest Hits dos The Byrds? Sinceramente, não sei. Assim de repente, montes deles. Will You Still Love Me Tomorrow, do Goffin and King, será sempre um dos meus favoritos. Há uma música da Bolívia chamada Hoy Me Iré, da Tarija, que me toca imenso. Trata-se da separação nas relações amorosas, algo de que os latino-americanos sabem muito, como eu. É uma das minhas músicas favoritas. Artistas de drum ’n’ bass aleatórios que me deixaram de boca aberta mas que nunca me lembro dos nomes? O Ege Bamyasi, dos Can, só ouvi o ano passado e arrasou comigo. É um dos meus favoritos agora. Sempre odiei a Madonna, mas o Ray of Light é brilhante – não é surpresa nenhuma o facto de a) ela não o ter escrito e b) não o ter produzido (foi o William Orbit e ele podia ser grande, como nos Fascinating Rhythm) e a voz dela também não estragou tudo. Aí está outro dos meus favoritos. Resumidamente, não faço ideia… Tudo da minha época, porque para ser sincero, não me parece que o reconhecimento tenha mudado nos últimos 20 anos como eu esperava que mudasse (como aconteceu nos 40 anos anteriores), o que diz muito, acho.

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Tal como em The Big Lebowski, filme realizado pelos irmãos Cohen, aqui também existe um senhor capaz de nos contar a histórias em seu redor: chama-se Ian Crause e, ao contrário da personagem desse filme, não consta numa história da qual nos possamos rir. Pelo contrário, sentimo-nos injustiçados pelo modo como foi tratado durante o seu período em actividade com uma das bandas mais peculiares da história da música. Vinte anos depois do desfecho de uma estória mágica, acabou de lançar há poucos dias o seu primeiro longa-duração, sob o seu próprio nome, que se intitula The Vertical Axis. A história não o deixou triunfar como devia, mas o sample ainda não morreu nem nunca morrerá: duas décadas depois, o homem que fermenta o artista permanece intacto, incólume, crente naquilo que sempre creu. Dizem que o tempo muda as vontades, no caso de Ian são as suas vontades que mudaram e mudam o seu tempo: outrora, muito à frente dos seus conterrâneos, hoje fixado naquilo que sempre foi o seu porto seguro.

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[Podem ouvir e comprar o The Vertical Axis a partir deste link]

Texto: Emanuel Graça

Entrevista: Emanuel Graça, Luís Miguel Vieira  e João Torrão Calisto

Tradução: Luís Miguel Vieira

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945