Em outubro do ano passado Luís Sereno apresentou com sucesso no Espaço BLOOM do Portugal Fashion a sua mais recente coleção, Liens. O designer fala-nos, agora, sobre as suas inspirações para este trabalho e projetos vindouros.

… Muitos anos depois se dirá que caiu ali um meteorito, um corpo celeste dos muitos que vagueiam pelo espaço, mas não é verdade, foi a Torre de Babel, que o orgulho do senhor não consentiu que terminássemos. A História dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.” in  Caim de José Saramago.

É recorrendo às palavras do escritor português que Luís Sereno introduz a sua coleção mais recente, apresentada na última edição do Portugal Fashion. Foi na ESAD, sob a tutoria de Maria Gambina, que desenvolveu este projeto e foi também integrado no desfile desta universidade que o apresentou no maior certame de moda do norte do país.

A mítica Torre de Babel e a sua construção por camadas determinou a esquematização da coleção, uma antevisão do universo de Luís que funde uma gramática próxima do concretismo com algums pormenores casuais. A estrutura de cada peça é posta a nu de forma clara e ordeira no seu exterior, e logo de seguida atenuada pelo caimento elegante e a fluidez de alguns materiais, bem como pela acessorização simples e assertiva. Liens é, sim, um bloco que, ao embater no terreno, se lapida timidamente em diversas direções.

É nesta rebeldia quieta que Luís Sereno questiona a apatia da sociedade do presente, bem distante das disputas pela fé ou do Homem humanista de outrora. O império do ego e da reacção mecânica aos problemas que o mundo nos coloca foram a centelha que acendeu o rastilho criativo de Luís. Segundo o designer, o que procura é uma sociedade mais voltada para o “nós” e menos para o “eu”. Logo, o caráter funcional, que permite a fruição deste objetivo, não foi posto de lado.

Nas camadas exteriores de cada coordenado, Luís definiu bases clássicas que desconstrói através de elementos sport, fechamentos diferentes do habitual, materiais tecnológicos ou novas possibilidades de utilização. Esta noção de descontrução propaga-se para as camadas interiores, onde o estampado em branco craquelado persegue a ideia de um ideal em fragmentos, em desintegração, como a própria Torre que pereceu à vontade maior. Matizes de cinza, preto e branco compõem a paleta cromática deste trabalho.

A maturidade desta coleção tornou-se possível partindo de muito tempo de pesquisa e reflexão, quer no foro pessoal quer na componente técnica, e muito trabalho experimental. O período de licenciatura teve um efeito depurador na estética grotesca e negra que desenvolvia a início. Durante esse tempo teve a oportunidade de participar em vários concursos, como o Acrobatic, o Fabprint e outros que o despertaram para um vasto leque de possibilidades. A trabalhar na Triwool, empresa têxtil com clientes tão diversos como a Zara ou a Zadig & Voltaire, desenvolve projetos a título individual ainda por revelar.

Hoje, feito difícil em início de carreira, é senhor de um estilo próprio e marcadamente distante do que se vê no panorama nacional. Não será errado, portanto, posicionar Luís Sereno entre os jovens mais promissores neste sector.

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