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A Espuma dos Dias: uma tragédia existencialista

A Espuma dos Dias é um filme existencialista por excelência. Se a referência contínua a Sartre não for suficiente, toda a construção do filme nos transporta para este mundo alternativo onde tudo é possível, tudo é o que parece e nada do que é parece poder sê-lo na realidade. O universo criado por Michel Gondry é a sua própria visão do romance de Boris Vian, numa realização plena de significados, verdadeiramente surrealista… e surreal.

Colin conhece Chloé e apaixona-se imediatamente. Juntamente com Chick, Alise, Nicolas e Isis, os dois conhecem a amizade verdadeira, têm o casamento com que sonharam e são felizes. Até descobrirem que Chloé padece de uma doença terrível, que a torna frágil e a faz perder toda a vitalidade – e que a Colin, para além de todo o sofrimento, destrói a sua riqueza e a sua vida. Audrey Tautou e Romain Duris lideram o elenco, num filme de Gondry que, depois de O Despertar da Mente, nos volta a oferecer um belo exemplo do que é capaz.

A construção do mundo surrealista de Boris Vian é maravilhosa, desde os aparelhos pseudo-tecnológicos que levam o protagonismo dos seres humanos, à própria cor do filme que, tal como a história, vai desfalecendo do início para o fim. Os planos são concretos, mas pouco referenciais, quase como se aquele sítio pudesse ser qualquer um; o que importa é a história, é o aparato de brinquedos e coisas estranhas que caracterizam a imagem.

Assim se vai edificando o ridículo. Um Chef que tanto surge nos ecrãs a dar conselhos a Nicolas como morre de frio dentro do frigorífico; uma mesa com ondas; um mini-homem-rato que vive numa miniatura da casa de Colin. E isto apenas dentro de casa, porque fora dela o mundo não faz mais sentido. Um carro transparente, um sítio chuvoso e um sol radiante a um passo de distância, No seu primeiro encontro, Colin e Chloé ‘voam’ numa espécie de roda gigante cuja rota são eles mesmos que constroem a seu bel-prazer.

Visualmente, A Espuma dos Dias é maravilhoso. Chloé adoece, sem dúvida, num dos momentos fotograficamente mais bem criados do filme: quando uma espécie de floco de neve lhe gela os pulmões e afecta o coração. Afinal é um nenúfar que lhe cresce no pulmão esquerdo e precisa de ser atenuado com a milagrosa vitalidade de flores frescas.

Contudo, a doença vai piorando. A alegria inicial, a paixão, a juventude, perdem-se, pisadas por um sopro de sofrimento, de deterioração. Nicolas envelhece invulgarmente, a casa encolhe, fica suja e estragada, enquanto estes mesmos aparelhos (para nós de uma certa ficção científica vintage) se vão também estragando. As cores vivas desaparecem, dando lugar ao preto e branco, aqui sinónimo de um tempo sombrio e doloroso, como se o próprio filme pressentisse o que está a acontecer e procurasse, esteticamente, traduzir essa deterioração. “Ce sont les choses qui changent, pas les gens”, diz Colin. Mas o que vemos é a mudança também nas pessoas, perpetrada pela mudança das coisas.

Sartre é uma grande inspiração para o universo de Boris Vian na obra que inspira o filme, tanto que o homenageou com a personagem Jean-Sol Partre. Chick é obcecado pelos seus escritos, de tal forma que Alise enlouquece a tentar tornar-se mais importante do que o pensador para Chick e não consegue senão perceber a sua própria insignificância em toda a situação. O existencialismo tem destas coisas e o filme oferece-nos tudo isto de bandeja – e de enxurrada: é tudo tão figurativo e tão literal ao mesmo tempo, que por vezes damos por nós a ter (também nós, sim) pensamentos existencialistas e a questionar o mundo que nos rodeia.

Apalavra certa é ‘absurdo’. Infelizmente parece que tudo se torna demasiado absurdo, em dose excessiva, talvez, não só para apenas duas horas de filme como para a própria história que se pretende transmitir. É tudo, ao mesmo tempo, dotado de um carácter algo aleatório que parece só ser contrariado pela doença de Chloé, que confere ao filme algum sentido. É verdade que o existencialismo é a negação da causalidade narrativa – daí que faça sentido esta ausência de sentido. Mas em termos cinematográficos depende muito das expectativas de quem vê e da sua predisposição para despender algumas horas da sua vida pós-visualização do filme a pensar sobre ele, desconstruí-lo e compreender a naturalidade da sua incompreensão da totalidade do que se viu.

Em simultâneo, o absurdo é tal que nos faz rir da incompreensão, da genialidade de quem conseguiu criar todas aquelas coisas e torná-las possíveis na nossa imaginação. E enquanto rimos e vamos fazendo a desconstrução, vamos também percebendo como tudo é tão dramático, realista, cruel, no que diz respeito às questões humanas presentes. Para lá do aparato tecnológico, o que fica são as emoções. E as maravilhosas interpretações de Tautou e Duris entram nesta construção dramática, trágica até, oferecendo profundidade às suas personagens que não passam de simples marionetas da vida. A ideia também muito existencialista de inevitabilidade atravessa todo o filme, acompanhando de perto a ironia de se conseguir fazer tanta coisa, mas não se conseguir mudar o rumo da história.

Desconhecendo a obra de Vian, a vontade de a ler é exacerbada por estas duas horas de filme, que parecem mostrar bem o espírito do autor e das suas ideias amalucadas (e nem por isso menos acertadas) sobre a vida. Como Chick dizia de Colin, também este A Espuma dos Dias francês é “elegante, único e original” – três adjectivos que ninguém lhe pode negar.

7,5/10

Ficha Técnica:

Título Original: L’Écume des Jours

Realizador: Michel Gondry

Argumento: Michel Gondry, Luc Bossi e Boris Vian (obra adaptada)

Elenco: Audrey Tautou, Romain Duris, Gad Elmaleh, Omar Sy, Aïssa Maïga, Charlotte Le Bon

Género: Drama, Fantasia

Duração: 125 minutos

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