12 Anos Escravo é o mais recente filme de Steve McQueen, um filme cheio de coração e entrega por parte do realizador, que se arrisca agora numa grande produção, mas que lhe dá os seus toques pessoais do costume. Um grande filme para começar da melhor maneira o ano cinematográfico de 2014.

Esta é a história verídica de um homem negro, Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) que, no ambiente pré-guerra civil dos Estados Unidos, vê acabada a sua liberdade quando é raptado e posteriormente vendido no mercado esclavagista norte-americano. Enfrentando a crueldade mas também momentos de inesperada bondade, Solomon luta não só para se manter vivo, mas para preservar a sua dignidade.

Depois do inspirado e ousado Vergonha, McQueen volta ao cinemas com a sua mais recente obra. O realizador, que até hoje ainda só realizou três longas – Fome, Vergonha e 12 Anos Escravo – estreia-se agora ao comando de uma grande produção. McQueen ganhou reputação através dos seus filmes indie, principalmente Vergonha que fez a delícia da crítica mas foi completamente ignorado por prémios maiores. No entanto os apreciadores do trabalho de McQueen podem até torcer um pouco o nariz ao visualizarem o trailer de 12 Anos Escravo, eu próprio o fiz. Mas porquê? Porque o trailer está realmente muito mal conseguido, tem tudo o que Steve McQueen não é, repleto de clichés e banalidades, ele repele o tipo de espectador que gostou de Fome e Vergonha.

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Algumas das marcas mais interessantes do trabalho anterior do realizador são a construção da personagem, o enredo quase íntimo que cria e, sem dúvida, as sensações de desconforto criadas pela filmagem sem tabus de McQueen. Também os seus jogos constantes de nitidez e profundidade de campo, quase brincando com o foque e o desfoque e, surpreendentemente, tudo isto se encontra em 12 Anos Escravo. Acho que talvez o maior feito de McQueen neste filme foi mesmo o de não se ter subjugado às grandes produtoras e às suas ideias. Manteve o pulso firme e entregou um filme feito com todo o seu coração e o seu cunho pessoal. Aliás, é talvez o filme de McQueen onde mais se nota o esforço para tentar passar uma mensagem, uma moral.

A história de Solomon é aterradora, as provações que teve que passar foram colossais, algo que nenhum ser humano deveria ser obrigado a vivenciar e o realizador não tem quaisquer pudores em mostrar isso na grande tela. Se em Fome e Vergonha a câmara de McQueen sempre teve uma forma fria e crua de gravar certos aspectos deploráveis da realidade humana, não é em 12 Anos Escravo que isso muda. Há sequências no filme que nos são tão violentas que é-nos inevitável suster a respiração. A violência emocional da longa-metragem é qualquer coisa de assustador e é quase impossível sair da sala de ânimo leve, as imagens são por vezes tão pesadas que ficamos até aturdidos.

Mas não fiquem com a sensação que a violência do filme é gratuita, nada disso. Ela é talvez essencial e faz parte do efeito de choque que McQueen que pregar aos espectadores. Como disse, o realizador quer perpassar uma mensagem, ensinar a todos, ou antes, não fazer esquecer tudo o que um povo sofreu num passado não muito longínquo. Este filme é um ensinamento não só para os americanos, mas para toda a humanidade que, ainda hoje em dia, comete actos tão repugnantes como os que vemos projectados na tela.

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O filme é em muito construído pelo realizador, ele é o maior impulsionador do mesmo, mas há outros aspectos a ter em conta. Um deles é, sem dúvida, o contributo de alguns actores, principalmente dos secundários. Se Chiwetel Ejiofor convence mas não deixa de ser apenas razoável, é Michael Fassbender e Lupita Nyong’o que preenchem o ecrã com as suas performances. Fassbender já nos habituou a grandes prestações e não nos deixa desiludidos como um implacável proprietário de uma plantação de algodão. A demência e a possessividade de Edwin Epps é perfeitamente transposta para o grande ecrã através de uma prestação com muito potencial a ser nomeada para o Oscar. Lupita é a grande surpresa do filme. A sua Patsey é uma personagem bastante interessante e carismática e o momento mais intenso de todo o filme só o é graças à grande prestação de Lupita nessa mesma cena, que promete chocar qualquer um.

Em termos técnicos é preciso fazer algumas ressalvas. Em primeiro lugar, a fantástica fotografia como um dos aspectos técnicos mais relevantes. O filme e as suas cores são lindíssimos e funcionam perfeitamente em ecrã. Uma fotografia que também não deve passar despercebida ao olhar da Academia. Em segundo lugar a emocionante banda-sonora que se entronca a partir de uma música bastante presente em toda a longa, composta por Hans Zimmer. Ela aumenta consideravelmente a carga dramática e a dimensão humana do filme, é um acrescento fabuloso, feito por um dos maiores compositores de bandas-sonoras de Hollywood.

Em suma, 12 Anos Escravo é um filme totalmente suportado pela excelente realização que teve. Um filme magnífico que merece ser visto por todos, um filme que nos ensina a ser mais humanos e com o qual é-nos impossível não criar uma empatia bastante forte. Sem dúvida um excelente começo de ano para o cinema, já que, ou muito me engano, este será um dos melhores filmes que vamos poder ver no ano de 2014 nas salas portuguesas.

9/10

Ficha Técnica:

Título Original: 12 Years a Slave

Realizadores: Steve McQueen

Argumento: John Ridley, baseado na obra 12 Years a Slave de Solomon Northup

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedit, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Brad Pitt

Género: Drama, História

Duração: 134 minutos

 

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945