Comecemos a falar escrever por analogias: Sixto Rodríguez, cantautor folk que só viu o seu talento devidamente reconhecido através do recente documentário Searching For The Sugar Man, ou seja, aproximadamente quarenta anos após a edição dos seus dois únicos álbuns de estúdio, pode ser visto como um exemplo paradigmático de como o passado esconde alguns dos maiores génios musicais de todos os tempos que passaram no seu tempo “no activo” por despercebidos.

Hoje, alguns, devido aos avanços tecnológicos e através da ajuda da internet (ou até com a preciosa a ajuda de um documentário em sua honra, já que falamos em Sixto Rodríguez), vão tendo alguma visibilidade mas nunca aquela que mereciam ter, enquanto outros vão vivendo no seu próprio espaço, longe, bastante longe, do reconhecimento a uma larga escala.

Ian Crause, líder dos extintos Disco Inferno, é um dos génios mais incompreendidos do seu tempo e nem mesmo essa sua genialidade e autenticidade o ajudaram a sair do lugar de onde este nasceu: da lírica abismal (é mesmo um dos melhores singer-songwriters que me vem à cabeça), dos subúrbios mais experimentais do rock britânico dos anos 90, dos resquícios do post-punk e da iniciação nos samples que o início dessa década nos trouxeram. Nunca teve direito a um documentário – nem nunca terá, sejamos realistas -, sendo que a única “ajuda” que teve foi o facto dos MGMT, no seu auge, terem feito uma versão de Can’t See Trought It. Isso trouxe-lhe, como expectável, uma nova quantidade de fãs e conferiu-lhe a ele e ao grupo a muito pouca visibilidade que eles nunca chegaram a ter.

Hoje, a residir na Bolívia, Ian Crause, o grande mestre por detrás dos Disco Inferno, mantém-se o homem que as suas letras aparentavam ser: é como se passados mais de dez anos da edição de Technicolour ele se olhasse ao espelho e mantivesse o mesmo aspecto visual. Abordado acerca de um mês atrás pelo Espalha Factos, ainda antes de ter editado o seu mais recente álbum, The Vertical Axis (lançado no passado dia 18 de Dezembro), Ian Crause respondeu-nos a algumas questões. Mas antes disso, convém relembrar a história.

Estamos algures entre o fim da década de 80 e o início da década de 90, uma época irreversivelmente marcada pela abundância criativa que se fazia sentir em todos os espectros culturais. Do ponto de vista musical, o paradigma mantinha-se e era, de uma maneira não hiperbólica, ainda maior do que em tudo o resto; das terras de Sua Majestade e arredores, fazia-se nascer, em meados de 1980, o shoegaze, que se demonstrava, na altura, um movimento demasiado preocupado, no sentido positivo, com o conceito de música ambiente.

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À esquerda, Nick Allport. À direita, Ian Crause.

Foram, portanto, nomes como A.R. Kane que começaram a desenvolver o movimento, sendo que foi, mais tarde, em álbuns como Isn’t Anything, dos My Bloody Valentine, Nowhere, dos Ride, ou Bloweyelashwish, dos Lovesliescrushing (sempre com a ajuda da cena post-punk e, não será erro dizê-lo, protoshoegaze de coisas como Psychochandy, dos Jesus & Mary Chain), que o shoegaze começou a solidificar-se de vez como um dos movimentos com mais espaço para a exploração sónica. Viveu-se, às contas disso, uma época de ouro até início do novo século, porém, mais do que para a celebração de um movimento musical que apostava novamente na valorização da guitarra em detrimento das engenhocas vitoriosas dos anos oitenta, o shoegaze acabou por começar a fermentar aquilo que hoje conhecemos como post-rock.

Nesse contexto, o leque de bandas que o iniciaram é extenso: Bark Psychosis, por razões óbvias (e porque foi através de Hex, obra-prima de 1994, que nasceu o rótulo), Moonshake, Flying Saucer Attack, Pram ou os geniais Laughing Stock, dos Talk Talk (um álbum que fez com que os Talk Talk saíssem do rótulo da synthpop e experimentassem novas sonoridades e que, por outro lado, fez com que Mark Hollis caísse em “depressão”) e Spiderland, dos norte-americanos Slint (um álbum que em 1991, apesar de abordar a math rock de uma maneira como ninguém até agora fez, já ia apostando em alguns crescendos, que hoje acabam por ser tão clichés) são apenas alguns dos nomes que começaram por trazer àquela altura uma música refrescante e inovadora.

Tirando o último a ser referido, Spiderland, todos os outros nos trouxeram novas abordagens ao shoegaze, uma abordagem que andava por voltas circulares em torno do jazz, de tremendos jogos de teclas e que simultaneamente se esquivava das ambiências que já eram características das guitarras. Nesse campo, no do escape às melodias etéreas e na visualização do que dali podia vir a nascer através das panóplias de teclados e, quiçá, do serviço do que a engenharia do som na altura permitia, ninguém o fez tão bem quanto os Disco Inferno fizeram, depois de uma passagem nítida pelos contornos do post-punk digno de uns Joy Division, em D.I. Go Pop; o triunfo foi deles, mas foi sobretudo de um senhor chamado Ian Crause, líder da banda britânica.

[Este artigo, introdução possível à vida e obra de Ian Crause, surge como preâmbulo da entrevista que o Espalha Factos fez ao artista. A segunda parte, com a entrevista, será publicada na próxima sexta-feira, dia 3 de Janeiro]

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945