Passado o Natal, com todos os doces, sorrisos e prendas a que todos nós temos direito, encaminha-se o fim de um ano repleto de boas encenações no panorama teatral português. A equipa do Espalha-Factos deixa aqui a seleção e a opinião daquelas que, para nós, foram as melhores peças de teatro do ano que agora termina.

Timão de Atenas

Teatro Nacional D. Maria II/Companhia de Teatro de Almada por Rui Alves de Sousa

Uma das obras mais atuais de William Shakespeare é uma história de vidas que se perdem e amizades que desaparecem por causa do dinheiro e do status. Numa encenação fantástica de Joaquim Benite, neste que foi o seu último trabalho e que fechou com chave de ouro uma brilhante carreira. Uma peça marcante e tão simbólica dos problemas de todas as gerações que, de modo fatal, coincidirão sempre nas mesmas vertentes. 

O Aldrabão

Teatro Nacional D. Maria II por André Franco

Fotografia por: Filipe Ferreira

Dotado de um elenco de luxo e de um texto bem disposto,  O Aldrabão é um trabalho hilariante que é capaz de criar as mais honestas gargalhadas, se lhe juntarmos um excelente registo musical ao vivo. A trama desenrola-se sob o contexto da Grécia Antiga e baseia-se numa conhecida comédia do notório dramaturgo grego, Plauto. Aqui existe um rol enorme de personagens coloridas e divertidas e a encenação de um espetáculo que cativa o interesse do autor até à sua conclusão. Um dos notáveis de 2013. Para saberes mais lê a opinião de André Tenente e André Franco escrita na altura da estreia para o Espalha-Factos aqui.

Rosencrantz e Guildenstern estão mortos

Arena Ensemble/TNSJ/CCB por André Tenente

Fotografia por: João Tuna

Neste espetáculo duas das personagens menos visíveis de Hamlet enchem o palco, de uma forma soberba. Um espetáculo que conta com o melhor dos novos atores nacionais e que, com um palco quase vazio, nos fazem permanecer duas horas impregnados naquela trama inquietante. Este espetáculo foi uma das muitas demonstrações de que, para se fazer bom teatro, não é preciso muito – apenas um bom elenco acompanhado de uma excelente encenação. Para mim, a melhor de 2013 – porque foi única e diferente. Fica a conhecer um pouco mais aqui.

Lar Doce Lar

UAU Produções por Joana Andrade

Cerca de 200 representações, mais de 80 mil espectadores, uma digressão por todo o país, mais de um ano em cena, duas nomeações para os Globos de Ouro e uma vitória. O espetáculo que juntou pela primeira vez em teatro Joaquim Monchique e Maria Rueff foi um dos grandes sucessos de 2013. Com encenação de António Pires, Lar Doce Lar é um espetáculo alucinante, no qual os dois atores se desdobram em múltiplas personagens, no universo de uma residencial para a terceira idade. O sucesso desta produção não surgiu, de todo, por acaso, ou não fosse uma prova viva de que rir é o melhor remédio, seja em que idade for. A opinião de Joana Andradeaqui.

A Dama do Intendente

Companhia de Atores por Raquel Dias Silva

Fotografia por: Inês Silva

Um espetáculo pela adaptado do texto A Dama da Lapa de Marcelo Pedreira, e com encenação de António Terra, A Dama do Intendente esteve em cena de 22 de novembro a 14 de dezembro no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço em Algés. Uma peça tortuosa e intensa que nos faz a apologia do amor e nos incita a “sentir tudo de todas as maneiras”. Numa sala de atmosfera intimista, Sandra Roque e Tiago Fernandes contracenaram harmoniosamente numa dança estranha de amor e ódio que nos seduziu até ao fim. Desde o cenário, passando pelo figurino e a banda sonora, até à incrível iluminação teatral, nada falhou, muito menos a poética do texto, que transformou este espetáculo num dos mais apetecíveis do ano. Conhece mais sobre a peça aqui.

Grande Revista à Portuguesa de Felipe La Féria

Teatro Politeama  por Marta F. Cardoso

Foi a primeira vez que assisti a uma revista. Nunca considerei ser um género de peça de que fosse gostar, talvez pelo seu lado espampanante e bairrista, pelo que sempre tive tendência a fugir dele. 2013 foi o ano em que disse a mim mesma que desta vez não iria fugir. Tenho tido sorte ao longo dos anos em ter a possibilidade de ir assistir a várias peças do Felipe La Féria que, na minha opinião, é um encenador brilhante.

“Nunca me desiludiu, não me irá desiludir desta vez”, foi este o pensamento que me acompanhou e que me levou a sentar numa das tribunas do Politeama por volta das 21h30 de uma sexta-feira. Grande Revista à Portuguesa, uma mega-produção cheia de cenários bombásticos e com figurinos espetaculares, pela mão de Costa Reis, que representa o melhor e o pior do nosso país de uma forma tão fidedigna e genuína que é impossível alguém ficar-lhe indiferente. Com o habitual humor característico da Revista, muita sátira rola no palco nas vozes de João Baião, Marina Mota, Maria Vieira, Ricardo Castro, Vanessa, Filipe Albuquerque e tantos outros. E porque o Politeama comemora 100 anos, não deixemos os franceses ou os ingleses estragarem tudo outra vez e invadamos nós o teatro para celebrar aquilo que tanto é nosso, que tanto é português.

O Preço

Teatro Aberto por Tiago Loureiro

Sob encenação de João Lourenço, os atores João Perry, Marco Delgado, António Fonseca e São José Correia abraçaram este texto superlativo de Arthur Miller com brilhantismo. A cena acontece em Nova-Iorque, em plena década de 50. No sótão de um prédio na baixa da cidade, prestes a ser demolido, Vítor Franz (Marco Delgado), polícia, e a esposa, Ester (São José Correia), deambulam pelo salão, antecipando a chegada de Greógio Salomão (João Perry), o velho judeu avaliador de espólios.

Esperam conseguir deste o melhor preço pelo recheio da casa, herança de Vítor e do irmão, Walter (António Fonseca). Num cenário rico em artefatos empoeirados, as personagens insurgem-se umas contra as outras, deixando escapar a raiva e a mágoa que sentem entre si, motivada por mal-entendidos familiares, invejas e desconfianças. O espetador é gradualmente levado a suspeitar do caráter de cada uma das personagens, até que elas se desmoronam em fragilidades. Esta peça foi anunciada como a possível última encenação do Teatro Aberto, após a ameaça de fecho por cortes no financiamento público às instituições culturais. Não poderia acabar este texto sem uma vénia à brilhante e comovedora performace de João Perry, quanto a mim, o melhor actor português vivo. Nota ainda para os figurinos de Dino Alves.

Três Dedos Abaixo do Joelho

Mundo Perfeito (Teatro Municipal Maria Matos) por Rita Mata-Seta

O ano de 2013 resolveu dar uma 2ª oportunidade a quem perdeu Três Dedos Abaixo do Joelho quando esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em 2012. Depois de ter percorrido de norte a sul o país e o mundo (foi exibida em França, Itália, Finlândia, Holanda, Bélgica, Irlanda, Brasil), a peça foi acolhida pelo Teatro Municipal Maria Matos nos dias 15 e 16 de novembro deste ano.

Nomeada para dois globos de ouro – Melhor Actriz e Melhor Peça, conquistando o globo nesta última categoria – e vencedora do Prémio Autores para Melhor Espetáculo de Teatro, este trabalho do encenador Tiago Rodrigues denuncia um talento, criatividade e sensibilidade excecionais! Baseando-se nos relatórios dos censores do Estado Novo aos textos submetidas a exame na época, agora presentes nos arquivos da Torre do Tombo, toda a peça se constrói em torno das correções destes que, ao cortar e reescrever as peças de modo a poderem ser representadas sem pôr em causa os princípios do regime, adquirem eles próprios, de certa forma, o estatuto de dramaturgos.

A excelência de “Três Dedos Abaixo do Joelho” é alcançada com as brilhantes performances dos actores Gonçalo Waddington e Isabel Abreu, que cantam, tocam, gritam, esperneiam e, sobretudo, arrancam muitas gargalhadas através do tom irónico que conferem ao espetáculo. Sem dúvida, a melhor peça a que assisti em 2013.