Cheio de incertezas e dificuldades, 2013 foi, em comparação com 2012, um ano algo austero para a música portuguesa. A sabática de B Fachada, o “silêncio” dos grandes da Lovers & Lollypops e a falta de um lançamento bombástico por parte da Cafetra Records são alguns exemplos, escolhidos a título pessoal, para justificar este fenómeno.

Ainda assim, nem tudo foi mau; apesar das condições menos favoráveis, alguns rasgos de luz, aqui e ali, foram-nos dando a nós, melómanos confessos, grandes alegrias e acalentaram a nossa esperança na música nacional. Desse rol de pérolas, a redação do Espalha Factos escolheu dez discos que, para nós, representam a melhor produção nacional. Contados os votos e tiradas as teimas, aqui fica o nosso top 10:

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10. Mynah, de JUBA

A estreia dos JUBA em LP foi, no mínimo dos mínimos, tremendamente auspiciosa e digna de premonições grandiosas quanto ao futuro deste jovem quarteto. Produzido por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim (ambos membros dos PAUS), Mynah é um manual de instruções perfeito para uma dream pop intensa, desconcertante, apoiada nas guitarras luzidias, nos vocais etéreos, na secção rítmica à lá post-punk e nos cheiros psicadélicos que balançam entre o surf da Califórnia e as especiarias orientais. Apesar de serem 10 faixas com sabor a pouco, as canções deste Mynah afirmam os JUBA como uma das maiores promessas da música feita no nosso país.

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9. O Grande Medo do Pequeno Mundo, de Samuel Úria

Ao terceiro longa-duração, com O Grande Medo do Pequeno Mundo, Samuel Úria atingiu o ponto de rebuçado afirmando-se como um dos nomes mais importantes cá do retângulo. São treze canções impecavelmente compostas, quer ao nível da instrumentalização quer ao nível das letras, que ganham muito com as colaborações que o compõem. Entre elas, assumem lugar de destaque Lenço Enxuto, com a preciosa voz de Manuel Cruz (tivesse 1€ por cada vez que a ouvi este ano e estaria rica!); O Deserto, embalado a banjo e invocando paisagens americanas, com Jorge Rivotti e o momento maior do disco com Triunvirato, com António Zambujo e Miguel Araújo a juntarem-se a Úria para um trio perfeito. AS

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8. Roma, de JP Simões

Estas andanças não são novidade para JP Simões, que já anda metido no mundo da música há mais de 15 anos. Depois de muitos trabalhos lançados em nome de projetos como Belle Chase Hotel, este pode não ser o primeiro trabalho a solo de JP mas é sem dúvida aquele que mais se destaca. Quer seja pela excelência lírica ou pela forma como o cantor se atira aos versos dos seus temas, Roma vence 1970 e Boato e serve como bilhete de identidade para o que JP Simões representa atualmente no panorama musical português. Cantar em outras línguas e percorrer estilos musicais tão diversos como jazz, samba e rock fez com que temas como O Português Voador, A Million Songs of Yesterday ou O Fardo do Amor fossem tratadas como joias artísticas, cimentando o terceiro álbum de originais do cantor como o seu melhor até agora. JP Simões consegue afirmar-se como um português de Portugal ao deixar-se afogar nos ritmos brasileiros e é isso, em conjunto com as inteligentes escolhas de palavras, que faz de Roma um dos melhores trabalhos que o nosso país teve para oferecer este ano. JPP

Crítica Filho da Mãe - Cabeça

7. Cabeça, de Filho da Mãe

Todos sabemos, ou devíamos saber, que Portugal é uma província propensa a ter mestres na arte de tocar guitarra; essa ideia ganha força quando pensamos em nomes como Carlos Paredes ou até mesmo Zeca Afonso. Hoje em dia, é quase irreversível não nos vir à memória os nomes de Filho da Mãe, nome artístico de Rui Carvalho, e Norberto Lobo. Cabeça, o mais recente trabalho de estúdio de Filho da Mãe, cuja edição foi carimbada pela barcelense Lovers & Lollypops, só veio confirmar de um modo mais sólido aquilo que em 2011 Palácio prometera: Filho da Mãe é mesmo um guitarrista estrondoso que se serve das suas almas (a sua e a da guitarra) para chegar à nossa. A destreza no seu dedilhar clama por respeito e admiração, a agilidade de que se serve faz-nos crer é desumano, mas a verdade é que músicas desprovidas de qualquer sílaba raramente nos conseguem dizer tantas coisas ao mesmo tempo. Palavras para quê? EG

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6. Mixtape II, de Orelha Negra

Mixtape II, do conjunto maravilha Orelha Negra, é isso mesmo, uma compilação de boas canções com o ouvido no gira-discos do passado, o feeling no momento presente e a mão na tecnologia do futuro. Tem o dom de dar destaque ao hip-hop tuga mas também de meter no mesmo caldeirão todos, ou quase todos, os géneros musicais. Conta ainda com participações de luxo, das quais se destacam Capicua, Osso Vaidoso ou Pacman, mas numa mix com 21 faixas arrisco em afirmar que “a minha preferida são todas”. AS

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5. Leeches, de The Glockenwise

Leeches traz os The Glockenwise com uma capacidade mais melódica, mesmo sem perder o gancho frenético da guitarra rasgada e dos riffs potentes do garage rock que eles sempre honraram. O método mais pop (arpejos, segundas vozes, piano) encaixa muito bem no som à Stooges ou Black Lips dos barcelenses e fá-los mais velozes, sagazes, dançáveis. Ao estilo dos australianos Royal Headache, constroem um disco curto, mas muito eficaz no que toca a transmitir a intenção. Passaram com distinção no tira-teimas do segundo disco. JB

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4. Almost Visible Orchestra, de Noiserv

Olhar para David Santos, que se dá pelo nome de Noiserv, é como olhar para um único homem enquanto orquestra; mais do que detentor de uma voz peculiar, que raramente se aventura por cantorias e que prefere mais falar do que propriamente cantar, Noiserv é um dos talentos maiores na noção rítmica a dar a uma canção. Almost Visible Orchestra espelha o melhor trabalho de estúdio do lisboeta e traz-nos as paisagens onde outrora já fomos felizes: uma panóplia infindável de instrumentos para um único homem, episódios ocasionais do quotidiano e canções maculadas de beleza. Esperamos que a vontade de Noiserv em nos contar as suas estórias nunca acabe. EG

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3. Gisela João, de Gisela João

Gisela João é dos maiores exemplos de que realmente o fado pertence aos tempos modernos do cenário musical português. A fadista dá continuidade a um movimento muito bem iniciado há cerca de duas décadas por nomes como Mariza e, mais recentemente, por Ana Moura, outro destaque no fado contemporâneo. Mas, ao contrário de Ana, Gisela passa uma imagem mais jovem do fado, uma imagem mais arriscada e selvagem, uma imagem que transmite a mensagem de que o fado chegou em força e de que é fixe apoiá-lo. O álbum homónimo de Gisela João é portanto o trabalho ideal para dar seguimento a essa atitude já que, ao longo de 14 músicas, transmite fado cru e cheio de sentimento, dor e emoção. Se o objetivo é modernizar o fado ao mostrar o quão bom o fado tradicional é, a missão foi cumprida da melhor maneira possível, pois Gisela faz deste álbum a sua taberna, a sua casa de fado e faz questão de mostrar, em faixas como Antigamente e Meu Amigo Está Longe que o passado não pode ser esquecido, mas sim abraçado. A música que talvez mais chama a atenção em Gisela João é (A Casa da) Mariquinhas, original de Amália Rodrigues, que recebeu nova letra de Capicua e que ilustra perfeitamente a ideologia que a fadista tinha para o seu novo álbum, um fado 2.0, agarrado às suas raízes mas capaz de aceitar 2013 como o seu ano de nascimento. Gisela João diz em Voltaste que está cansada de chorar sozinha. Bem, depois de um álbum destes, ela e o fado estarão tudo menos sozinhos. JPP

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2. Vem Por Aqui, de Ermo

O tinir eletrónico que se repete e hipnotiza, sob um percutir astuto e urgente que enverga uns vocais primordiais e brutos de Criação ou de claustro, é uma constante em Vem Por Aqui. Não é um minimalismo ornado de método, antes de sangue e sapiência ancestral. Adolfo Luxúria Canibal disse que os Ermo usam do “património do nosso inconsciente coletivo e que imediatamente reconhecemos como nosso”, pelos sons, pelos versos, por todo o denso espectro que a música dos Ermo cria sobre quem a ouve. Um fatalismo de discurso que não cai nas malhas que o fado (falo do estilo musical) tece e ecoa nos ouvidos como a História ecoa no sangue. JB

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1. Turbo Lento, de Linda Martini

Foi com grande expetativa que se soube que 2013 seria o ano do regresso dos Linda Martini aos discos. Depois de três anos de espera, que se seguiram ao lançamento do portentoso Casa Ocupada (2010), digníssimo sucessor do também admirável Olhos de Mongol (2006), todos os olhos estavam postos na trupe de André Henriques, Cláudia Guerreiro, Pedro Geraldes e Hélio Morais. Turbo Lento, terceiro disco de originais do quarteto, superou as expetativas, apaziguando os fãs, aprofundando o culto e calando os céticos. Ao invés de optarem pela facilidade e repetirem a fórmula, direta e repleta de one liners de uma vida, de Casa Ocupada, os Linda Martini saltaram sem rede e criaram uma sonoridade mais intrincada e elaborada, cheia de sinuosidades instrumentais e líricas, respeitando o passado mas abrindo horizontes para o futuro. Uma aposta arriscada e pouco óbvia, mas demonstrativa de um crescimento e de uma maior maturidade, Turbo Lento é a prova viva da evolução positiva que os Linda Martini fizeram nos últimos anos e, acima de tudo, reafirma-os como uma das melhores bandas que o nosso país já pariu nos últimos anos. Em 2013, o trono foi deles. E que assim seja por muitos e bons anos. JM

Este top foi feito com as votações e os textos de Alexandra SilvaEmanuel GraçaJoão BiscaiaJoão MoraisJoão Pedro Peixoto. Segue-se, amanhã, a publicação do top internacional.