Câmaras, câmaras e mais câmaras. O concerto de Richie Campbell no Campo Pequeno não promete ser mais um. Aliás, não foi um concerto a mais. Rodeado de câmaras, o palco apetrechado de equipamento q.b. fazia adivinhar – para os menos atentos – que ali ia ser gravado o DVD da Focused Tour. Mesmo antes das 21h30, hora do espectáculo, a multidão fazia-se ouvir: não era composta apenas por jovens com rastas e camisolas a dizer Jamaica. O público de Richie é transversal – dos pais aos filhos, as gerações uniram-se a 19 de dezembro para celebrar o reggae português.

21h35. Os Supa Squad entram em palco para fazer o warm-up. Numa mistura forte de reggae e música eletrónica, a dupla conseguiu aquecer um Campo Pequeno bem preenchido com uma plateia de cerveja na mão, e pronta para receber o mais bem sucedido artista português de reggae.

richie campbell

100% de preto, Richie Campbell surge na escuridão do palco e logo se percebe que não vale a pena dizer “façam barulho” – o público já está ao rubro. São 22h20, a cor vermelha apodera-se do palco e a música começa. A habitual toalha branca, justificada pela aula de cardio que Richie faz em cada concerto, não falha, assim como o acompanhamento da 911 Band, onde se distinguem as back vocals, os dois guitarristas, três saxofones, um pianista e um baterista que dão música à voz de Ricardo Ventura da Costa.

A primeira pergunta de Richie leva a uma avalanche de braços no ar: “quem gosta de música reggae?” Não há dúvidas do porquê de cá estarem. No ecrã surge um vídeo infinito com a estrada da vida, bem iluminada, a ser percorrida – hora de What A Day. A ideia fica no ar: “Pack up everything me a go fly away” ecoa através da voz estonteante de Campbell. Pausa para instrumental e para uma confissão… “tivemos muito trabalho para montar este espectáculo”, afirma Ricardo, iluminado por um forte foco, acrescentando um pedido: “peço um aplauso para a minha família toda.” Pretexto para começar a inspirada Love Me So. Com o habitual pé na coluna, Richie põe-se em posição para fazer novamente um pedido ao público: “um aplauso para a 911 Band, seguido de um grito em uníssono.

richie campbell

Nem só se amor e paz se faz o reggae. Segue-se Going Out que nos fala da emigração, um assunto tão atual em Portugal e na Europa. Going Out é uma tocante balada reggae que espelha a vivência do próprio artista e dos presentes na plateia, a qual adere em massa a este hino.

O holofote passa a estar numa bola de espelhos capaz de fornecer um belo jogo de luzes. Tempo para a viciante Everytime I Cry que alcança um dos maiores aplausos da noite. Realmente, a nível vocal, Richie nunca desilude e dá espectáculo como ninguém, capaz de abafar qualquer instrumental ou diversão visual. O espectáculo prossegue para Missing You num momento interessante onde a conjugação da luz e da música atinge o auge. Os fãs parecem gostar e aderem rapidamente a este refrão catchy.

Mas esta noite não foi apenas de Richie Campbell. Ao seu lado estiveram convidados que fizeram sucessivas aparições para este especial gravado em DVD. O primeiro a surgir dos bastidores é Richie Stevens, com um peculiar cabedal castanho, para interpretar True Believer. O dueto resulta, não estivessem os presentes já de braços no ar, num movimento coordenado.

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Segue-se Gentleman para uma inspirada Journey. Aos saltos, com uma energia de contagiar até os mais fãs da ataraxia, o alemão leva o Campo Pequeno ao rubro ao mesmo tempo que levanta os joelhos como se estivesse no ginásio lá de casa. Um belo treino para os Jogos Olímpicos a acontecer – certamente um momento marcante para o DVD. A música acaba e Richie não tem dúvidas: “este momento foi tão bom para vocês como foi para mim.”

O climax do espectáculo começa depois de um momento acapella: Get With You tem o ambiente das luzes melodramáticas e do videoclip a preto e branco que passa no ecrã gigante. Lisboa é revisitada ao fundo do palco enquanto Richie capta a atenção do público que rapidamente acompanha o cantor no refrão: “I’ve been up and down, / Round and around / Made a lot of money but / I just can’t get with you, with you” Um enorme aplauso invade o Campo Pequeno assim que a transição para a próxima canção começa – “everybody say Whoa, pede Campbell.

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Ouve-se o instrumental de Love Is An Addiction, uma das back vocals vai para o meio do palco e o momento mais sexy da noite começa. Com uma dança ritmada, a back vocal escolhida facilmente fez o público esquecer-se de Ikaya. Um excelente dueto, com uma carga emocional partilhada entre casais do público, que é interrompido pelo som da sirene. A frase somebody call the 911 ecoa o recinto e o ambiente consegue ficar ainda mais quente numa noite fria. A pirotecnia surge, pela primeira vez, no espectáculo assim como um salto conjunto do público – dois momentos para (re)ver em DVD.

Richie abandona o palco, mas depois de resolvidos uns problemas com o microfone, o português regressa para o encore. As introspetivas All About You e Please fazem as honras da casa para um final precioso. Mas é com Blame It On Me que o próprio Campbell fica sem palavras: sem nenhum pedido, o público começa a cantar sem falhas o refrão do segundo maior hit do cantor, num momento que arrepia até os mais sérios. Richie emociona-se e aplaude o público, ainda sem palavras.

O som de um coração a bater, ilustrado no vídeo projetado, faz antever mais um convidado especial: Dengaz. From The Heart é uma interessante mistura de hip hop e reggae fortalecida pela amizade que une os dois artistas portugueses. Tempo para umas brincadeiras: Dengaz faz questão de fazer o Campo Pequeno ouvir Snoop Dogg enquanto Richie escolhe Bob DylanCould You Be Loved? Já muito perto do final, o cantor consegue aninhar o público e fazer os seus fãs saltar como nunca, qual aula de cardio. That’s How We Roll é o prenúncio do fim. Todos cantam e entoam o maior hit de Richie Campbell à medida que este se despede do Campo Pequeno.

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Apesar de bem produzido, o espectáculo não chega a apelar de forma visual para exigir a gravação em vídeo. Na realidade, quem esperava um concerto cheio de efeitos para DVD ficou defraudado.

Um Richie talvez demasiado longe do público, devido às câmaras que separavam o palco da plateia, que não consegue ser tão eficaz na arte (que tem) de conquistar os seus fãs (mesmo que não percebam as letras) logo nos primeiros acordes. De facto, o concerto no Campo Pequeno não foi a melhor demonstração da osmose de energia entre o artista reggae e os seus apreciadores. Sem dúvida que a grande protagonista desta noite foi a voz de Ricardo Ventura da Costa. Não falhou, cumpriu de forma sublime todos os desafios, mesmo depois de uma maratona no palco. Podia ser considerada Património Imaterial do Reggae. Não quero, de todo, fazer trocadilhos com o local do espectáculo, mas Richie Campbell é um animal de palco.

O resultado estará brevemente disponível em DVD.

Fotografias: Inês Delgado