Ricardo Ventura da Costa, 27 anos, já lançou dois álbuns a solo, com singles que andam na boca dos portugueses; tem mais de 193 mil fãs na página oficial de Facebook; e, na passada quinta-feira, gravou o seu primeiro DVD com a Focused Tour no Campo Pequeno, em Lisboa. O Espalha-Factos esteve à conversa com Richie Campbell para fazer uma antevisão do espectáculo e abordar o percurso do cantor que se funde intrinsecamente com o reggae. 

Espalha-Factos: Já atuaste no Campo Pequeno e, mais recentemente, no Coliseu do Porto. Quais vão ser as surpresas deste concerto em que vais gravar o DVD?

Richie Campbell: Bem, primeiro, já foi revelado quem são os convidados: o Gentleman, o Richie Stevens e o Dengaz. Essas são as principais surpresas do concerto. Para além disso, toda a produção do concerto vai ser diferente. Vamos ter cenografia, o palco vai ser diferente, toda a sala vai ser decorada de outra maneira. Normalmente, não é o que fazemos nos nossos concertos. Mas, como vai ser gravado para o DVD, vai ser diferente. Para além disso, vamos tocar mais músicas do que costumamos tocar porque temos mais tempo para tocar também. E, no geral, vai ser melhor.

EF: E mais câmaras à volta…

RC: Sim, exato, vamos ter umas 30 câmaras.

EF: Vais apresentar alguma música inédita?

RC: Inédita, inédita, não. Mas músicas que nunca tocamos ao vivo, sim. Várias. Porque é como eu estava a dizer… temos mais tempo para tocar. Nós normalmente temos uma hora, uma hora e meia, para tocar nos festivais porque há outros artistas. Aqui, como a sala é nossa durante a noite toda, temos o tempo que nos apetecer para tocar.

EF: Lançaste o My Path, o teu primeiro álbum, para download gratuito. Preferes que o público vá aos concertos ao invés de comprar o teu disco, numa altura em que o mercado está em baixa?

RC: Sim, quer dizer… Eu já cresci nessa altura em que a música é um bocado grátis, perdeu um bocado o preço. Mas não foi por causa disso que eu lancei grátis. Eu lancei grátis porque foi a maneira mais fácil que eu achei que podia chegar às pessoas. Porque a minha teoria na altura era que ninguém vai comprar um CD de um artista que não conhece. E como eu não tinha editora na altura, não tinha nada, foi a maneira que nós encontramos… pôr em download gratuito e distribuir o link pelo máximo de sítios possíveis para dar hipótese às pessoas para sacar, e funcionou bem.

EF: No início, quem te ouvia na rádio não sabia que eras português…

RC: E branco…

EF: Como é que consiste ter essa identidade tão jamaicana que, de certa forma, é o ‘crioulo’ do inglês?

RC: Não foi uma coisa muito forçada. Foi simplesmente das músicas que eu ouvia ao longo dos anos. Cada vez foi ficando mais. E eu ‘desaprendi’ um bocado a falar inglês correto e comecei a falar jamaicano porque as músicas todas que eu ouvia eram em jamaicano. Acabei por criar um bocado essa identidade por causa das influências que eu tinha. Ao longo de dez anos, estares sempre a ouvir o mesmo tipo de música… quando vais fazer música vai ser exatamente uma coisa daquele género.

EF: Então foi uma coisa gradual? Também por influência da tua mãe…

RC: Foi, foi. Exatamente, ela ouvia reggae… Foi daí que eu comecei a ouvir. Foi desde aí que as influências foram ficando mais profundas, e quando comecei a fazer música foi por aí que fui logo.

richie altas-3

EF: Pegando um bocado nesse assunto da língua em que cantas as tuas músicas, há um vídeo no youtube – que já deves ter visto… [Richie abana a cabeça afirmativamente, imitando sons do vídeo] – em que um rapaz diz que te conhece e depois começa a tentar cantar uma música tua, dizendo palavras aleatórias. Tens medo que o público não te compreenda? Que a mensagem não passe?

RC: Não tenho medo. Às vezes é um bocado ingrato tu teres uma letra que tu gostas tanto, e achas que é uma mensagem tão importante, e as pessoas às tantas não percebem. Mas eu acho graça porque é um facto: eu próprio há uns anos atrás não percebia nada. E esse vídeo tem uma graça do caraças porque é exatamente… há imensas pessoas que ouvem a minha música e não consegue perceber. Por um lado, é um bocado frustante. Mas é um contra que faz parte do estilo de música que eu escolhi.

EF: E o próprio público pode aprender algo por aí…

RC: Claro, e eu nos dois álbuns disponibilizei as letras. Precisamente por causa disso. Porque eu sei que quando eu comecei, também era mais fácil para mim ler e chegar lá. Eu tento escrever as letras o mais inglês possível. Há muitas palavras que não há outra maneira de escrever. É o crioulo [do inglês], não existe gramática correta. Eu nas letras tento pôr a palavra inglesa para as pessoas poderem perceber melhor, exatamente.

EF: O reggae, antes de apareceres, não era muito mainstream em Portugal. Qual é o ingrediente das tuas músicas que cativou as pessoas que não ouviam tanto este tipo de música?

RC: Eu não te sei dizer, sinceramente. Para já, eu não acho que o reggae seja mainstream em Portugal. Há alguns artistas de reggae que são. Eu gostava que toda a cultura do reggae fosse mainstream em Portugal. Não sei te dizer qual é o ingrediente porque nem sequer foi uma coisa que eu tenha planeado. Porque o meu primeiro álbum, que na verdade tinha o Blame It On Me – que foi a minha primeira música com sucesso mainstream -, nunca foi feito a pensar nisso. Esse álbum foi feito a pensar no mercado que eu tinha na altura, que era só o mercado do reggae. Por isso, eu não te sei explicar o que é que é… Mas é um facto que tanto o primeiro como o segundo álbum foram feitos a pensar em reggae. Não sei, deve ser algo que tem a ver com as minhas influências, deve haver ali alguma mistura qualquer que faz com que se reggae, mas que tenha também uma cena apelativa para o mainstream. Não sei, mas é um bom ingrediente pelos vistos.

EF: Foi um processo natural que tornou o single comercial?

RC: Sem dúvida. Eu acho que ainda não fiz nada com esse objetivo. Fiz uma vez uma música com o objetivo de ser mainstream e nem sequer a lancei.

EF: Então, não tinhas mesmo esse propósito?

RC: Não, e não gosto de ir escrever uma música a pensar que isto tem de ser um hit, percebes? Todas as que eu faço, eu quero que sejam agradáveis ao ouvido. E que as pessoas gostem. Mas aquele processo de tu ires [para o estúdio] para fazer um hit, fazer uma música comerciável, acho que é contraprodecente porque vais para o estúdio e tens essa pressão de fazer um hit. E eu não gosto. Prefiro fazer várias músicas e depois olhar para elas e dizer: acho que as pessoas no geral vão gostar mais desta.

EF: E não te cansas de cantar os teus singles, como a That’s How We Roll?

RC: Canso-me. Eu estou cansado da música antes de ela sair. Porque eu gravo o álbum e até eu deixar sair, eu ouço a música 24 sobre 24 horas.

richie altas-6

EF: Nas atuações, principalmente nas pontuais, pedem-te sempre para cantares a mesma música. Como é que se gere a mediatização dos singles?

RC: É assim, no caso de atuar ao vivo, independentemente da música ter um, dois, três, quatro, cinco anos, é sempre diferente. E todas as atuações são diferentes. Portanto, nem sequer estou a pensar se estou farto da música ou não porque a reação das pessoas faz valer a pena. Estares a tocar aquela música que estás farto… claro que isso é complicado. Vais a um programa, toca esta. Vais a não sei quê, tocas esta. É chato, mas também, quer dizer, tu tens de cortar com isso e quando for a próxima fase e quiseres promover outro single, dizes: não, agora é este e é este.

EF: Foste o primeiro convidado especial do Factor X. Como é que vês esse tipo de concurso no que toca à divulgação da música?

RC: Penso que esses concursos são o que são. São programas de televisão, acima de tudo. Não podes chamar àquilo um curso de talentos… Não é um programa só para promover talentos. É um produto para televisão. Só que tem como base essa promoção de novos talentos. E depois fica um bocado do lado dos concorrentes aproveitarem ou não as hipóteses que ganham através desse concurso. Porque tu entras lá e tens uma exposição imediata. Ficas a um nível que se calhar um artista que está a trabalhar há cinco anos não consegue. Depois, entretanto, se ganhares, acho que neste caso é um álbum com a Sónia e mais dinheiro… portanto, eu acho que tu ganhando isso, depois sim, podes começar… É um bom ponto de partida para uma carreira. Mas aquilo na verdade é um programa de televisão e os concorrentes nunca se podem esquecer disso.

EF: A tua canção Going Out é sobre a emigração dos jovens, incluindo o caso do teu irmão. Gostas de escrever sobre assuntos atuais?

RC: Acho que sim. Acho que todas as pessoas que gostam de reggae, que gostam de escrever e fazer reggae, acho que isso é a parte principal. Eu sempre disse que reggae era tipo a mistura perfeita entre a parte melódica, estética da música, com uma mensagem importante. Porque há muitas músicas pop que a melodia é um espectáculo e depois a mensagem não tem nada de jeito. Acho que o reggae tem essas duas partes. É agradável esteticamente, mas depois permite também falar sobre coisas sérias e a realidade aqui não é a mesma que a da Jamaica, portanto eu não posso falar das mesmas coisas, então escolho ver os problemas equivalentes mas aqui. E essa música foi exatamente porque essa é uma cena que agora todos nós compreendemos.

EF: Costumas viajar bastante: já passaste algumas temporadas na Jamaica, em Cabo Verde e, mais recentemente, em Barbados. Antes de seres o Richie Campbell estavas a estudar Antropologia. De certa forma, quando vais para estes lugares estás a ser um antropólogo? Tentas absorver tudo?

RC: Sim, uma vez estive com um  membro dos Bambu Station, que é uma banda do reggae das Ilhas Virgem, e eu na altura estava a tirar o curso. Eu disse-lhe que curso estava a tirar e ele disse-me: “é o melhor curso que podes tirar se és músico.” E é verdade porque todas essas coisas acabam por ser estudos antropológicos. Até os concertos são estudos antropológicos. Veres o Homem em sociedade. E ir para os Barbados, para Cabo Verde, para a Jamaica, etc, acaba por ser um bocado isso. Eu vejo os sítios desse prisma, da visão do antropólogo. Não acabei o curso, mas estive lá uns cinco anos.

EF: E são essas viagens que também influenciam o teu trabalho?

RC: Sempre que fiz as viagens, quando volto, venho sempre com muito mais vontade de escrever. Provavelmente, por causa disso, exato.

EF: De certa forma, quando estás em tour, nos concertos, não tens tanta disponibilidade para criar?

RC: Sim, e quando te tiram do teu conforto… Eu aqui acordo, se não tiver nada para fazer, fico em casa, vejo televisão. Lá não. Tens de sair, tens de ver, tens de falar, de conviver com as pessoas e automaticamente acabas por estar muito mais ativo na parte criativa.

EF: És amigo de alguns artistas portugueses como DJ Ride e o Dengaz, que são de outro tipo de música. Gostas de fazer esta mistura de estilos, e assim reiventar um bocado para não cair sempre no mesmo?

RC: Não penso muito no género musical. Gosto de trabalhar com pessoas eu vi a começarem comigo. O Dengaz é um exemplo desses. Eu e o Dengaz começamos no mesmo sítio, em Cascais, em bandas diferentes. E acima de tudo o que eu gosto é de partilhar o crescimento das duas carreiras com ele. Porque há imensas coisas que acontecem no decorrer de uma carreira, quando ganhas exposição, etc… Às vezes é complicado tu arranjares alguém com quem falares sobre isso. E o Dengaz é essa pessoa. No caso do DJ Ride é diferente. São pessoas que eu admiro, de vários estilos diferentes. Independentemente de que estilo seja, se for alguém que eu admire e goste de falar, vamos sempre arranjar maneira de trabalhar.

EF: Também és fã de Major Lazer ou Diplo, que são de um estilo diferente do teu. Tentas inserir essas influência no teu trabalho, ou poderás vir a fazer isso?

RC: No futuro, talvez. Ainda não o fiz, mas sem dúvida. Hei-de tentar. Eu adoro Major Lazer desde o início.

EF: Também é uma forma de variares para o público não se cansar das mesmas sonoridades?

RC: Há muitas pessoas que fazem reggae e que são um bocado fechadas. Reggae, reggae, reggae. Eu adoro tudo o que a Jamaica faz, tudo o que seja estilo musical que há na Jamaica eu gosto. Eu não tenho medo de variar. Sou um artista de reggae, vou sempre ser. Mas não tenho medo nenhum de variar e fazer coisas como Major Lazer, por exemplo, ou até cenas com hip hop, precisamente. Desde que eu ache que é uma boa música, eu vou fazer.

richie campbell destaque

EF: O teu nome artístico, Richie Campbell, vem de Ricardo – o teu nome próprio – e dos teus dois ídolos Sheldon Campbell e Chrissy Campbell. O nome artística surge por causa do estilo de música que cantas ou se tivesses a fazer pop ou rock ias adotar na mesma?

RC: Acho que qualquer coisa que eu cantasse em inglês… por ser inglês, ia ter de arranjar um nome. Porque Ricardo Ventura da Costa não é um nome assim muito…

EF: Ia soar estranho?

RC: Sim, não é assim um nome muito apelativo, acho eu.

EF: Já aqui falamos de que disponibilizaste o teu primeiro álbum para download gratuito. O que achas de serviços como o Spotify? É uma forma de contornar a crise da indústria musical?

RC: Eu acho que sim. Eu gostava, quando o Spotify saiu, de ter 16 anos outra vez para saber qual seria a minha reação ao Spotify. Neste momento, para mim, o Spotify é a melhor coisa que há. Assim que saiu o Spotify subscrevi logo a tarifa mensal. Consegues arranjar música com qualidade e todas as músicas que há. Mas eu gostava mesmo assim de perceber como é que os miúdos andam a reagir a isso. Porque apesar de tudo, não sei… é preciso pagar, percebes? Ou pagas ou tens de levar com publicidade. Ainda não é aquela ideia perfeita. Ainda não está resolvido o problema. Porque hoje em dia o que as pessoas fazem é ir ao youtube sacar o link, fazem download da música e ouvem.

EF: Não achas que pode ser um benefício, por exemplo, para dar a conhecer novos artistas e levar o público aos concertos?

RC: Tem um problema que é um bocado entrave aos novos artistas. O Spotify é composto por editoras. Ou seja, do meu ponto de vista como artista com uma editora, para mim é uma ótima ferramenta. Não sei até que ponto já tem expressão em Portugal ou não, a esse nível, mas se tiver, melhor para nós, obviamente.

EF: E sentes o apoio das rádio portuguesas, como a Mega Hits ou a Antena 3?

RC: Sinto, felizmente sinto-me apoiado pela Mega Hits já desde que eu fiz o meu primeiro concerto no Campo Pequeno. Eles decidiram arriscar. Arriscar entre aspas. Viram que a sala estava cheia e os gajos pronto, okay. Eu sinto-me apoiado. Agora, acho que se calhar uma ou outra rádio deviam arriscar um bocado mais. Hoje em dia ser uma rádio é difícil. Eles deveriam arriscar um bocado mais, em tocar algumas coisas que ainda não são populares. Isso faz-se muito pouco cá, infelizmente.

EF: O reggae ainda está descredibilizado em Portugal ou isso já mudou?

RC: Eu acho que continua um bocadinho. Se perguntares se Richie Campbell está descridibilizado, dizem-te que não, mas depois mostras outra coisa de reggae assim um bocado mais underground… Acho que é uma questão de tempo. Há muito reggae de qualidade a ser feito e cada vez mais reggae que é bem produzido, com qualidade, e comerciável. Espero que, pelo menos com a minha carreira, as pessoas que me ouvem e dizem “ah, gosto de reggae”, vão à procura de outras coisas por aí.

EF: Estavas à espera, quando começaste este projeto, de ter um público tão jovem a ouvir-te?

RC: Não foi nada de propósito. Nada. Como eu te disse, o objetivo quando começamos – o target das minhas músicas – era o público do reggae. Eu nem sequer pensei ter o público mainstream em Portugal. Eu achava que ia ter aqueles dois mil que ouvem reggae aqui, e depois ia tentar fazer o mesmo pela Europa fora. E o que aconteceu não foi isso. O que aconteceu foi que aqui em Portugal se tornou mainstream completo e, de facto, as miudinhas e os miúdos… é ótimo, é ótimo chegar a todas as pessoas. Muitas vezes há pais desses miúdos que falam comigo a dizer: “ah, a minha filha adora-o e eu também.” E isso é ótimo.  Normalmente a música que os miúdos ouvem, os pais não gostam. É bom agradar aos dois.

richie

EF: Como surgiu a ligação com a 911 Band?

RC: Todos eles já tinham estado envolvidos em projetos de reggae na zona de Lisboa. E eu conhecia-os já há muito tempo. Quando fiz este projeto a solo, a minha primeira banda não funcionou muito bem, então eu tentei ir buscar músicos profissionais. Eles não eram músicos profissionais mas conheciam reggae como ninguém e sabiam tocar reggae como ninguém. Então, com muitos ensaios, a 911 Band hoje em dia tornou-se numa banda que qualquer artista de reggae que vem cá a Portugal fica impressionado com a qualidade, porque nós trabalhamos imenso também.

EF: Do reggae que ouvias em criança para o reggae que ouves agora – como foi esta transição? Que mudanças? É mais aberto?

RC: É, é muito mais aberto. O reggae desde essa altura diversificou imenso. Há uma data de vertentes do reggae. Uns foram pelo caminho do que se fazia exatamente nessa altura, outros fazem isso com outra sonoridade mais moderna; depois há o dancehall que é uma mistura de hip hop mas feito na Jamaica. Eu sou fã de todas as evoluções do reggae e quando quero ouvir alguma coisa antiga, vou ouvir o antigo na mesma e é tão atual como as músicas de agora. Eu sempre estudei muito tudo o que se faz no reggae. Quem gosta de reggae há uma coisa que tem de fazer que é estudar as várias fases do reggae dos anos 70, 80, 90… há sempre ali uma mudança clara. E há muito boa música perdida um bocado por aí.

EF: E qual é a tua direção? Onde te esquadras tendo em conta os dois álbuns que já lançaste?

RC: Eu gosto de uma fase ali nos anos 70/80 que era os lovers rock. Era um adaptação das músicas de soul dos Estados Unidos para o reggae. Acho que é aí onde eu claramente me insiro melhor.

EF: Como te surgem os ‘riddim’, os instrumentais? Como é o processo criativo em estúdio?

RC: Uns somos nós que fazemos… a nível de instrumentais, ou somos nós que vamos para estúdio, eu estou a trabalhar com a banda e fazemos; ou, no caso do último álbum, fui para a Alemanha e tive com a banda do Gentleman, eles tocaram as coisas deles, fomos escolhendo. É um processo que parte de todos os lados. O guitarrista começa a tocar qualquer coisa, tu cantas qualquer coisa, o outro começa a acompanhar, …

EF: Não é nada forçado? Tentas que seja sempre de forma natural?

RC: Sim, e às vezes, também uma cena muito típica dos jamaicanos, recebo já instrumentais feitos. E trabalho a partir daí. É mais complicado mas também dá gozo.

EF: O teu disco Focused foi considerado o sexto melhor álbum do ano pela Reggaevil. Como é que lidas com as críticas, sejam positivas ou negativas?

RC: Quando são positivas são ótimas. Quando são negativas nem vale a pena ler. Eu, como músico, se lanço alguma coisa é porque acho que aquilo é bom. Melhor ou pior… se eu fiquei satisfeito com aquilo, e lancei aquilo, estou satisfeito. Agora se vier alguém dizer que é mau, pouco me interessa. Se as pessoas continuarem a gostar, e eu a gostar do trabalho, é isso que interessa na verdade. Porque o crítica é exatamente isso… é um crítico. Um crítico não pode dizer sempre bem, caso contrário deixa de ser um crítico.

EF: Mas as críticas negativas também podem ser construtivas…

RC: O problema é que raramente são. Pelo menos os que eu já vi em Portugal. Por exemplo, tive uma há uns tempos que não foi nada construtiva: era uma pessoa que percebia zero de reggae… era ele a dissertar o quão não-reggae o meu álbum era e a dar referências completamente absurdas. Portanto, ficas a olhar para aquilo um bocado, e ficas chateado porque há uma pessoa que está a dizer mal do teu álbum, mas não percebe nada… Acaba por ser um bocado insignificante. Ouço críticas, sim, mas de outros artistas lá de fora, por exemplo. Pessoas que têm mais anos disto do que eu e esses sim, eu ouço as críticas. E essas aí ficam aqui na cabeça durante um bocado de tempo, até de mais.

EF: Os filhos do Bob Marley, com quem já trabalhaste, por exemplo, têm mais influência, mais impacto quando te criticam?

RC: Sim, por exemplo, sem dúvida. Se ele me disser não digas isso, eu não digo. [risos] Quem sou eu para estar a dizer isto.

richie

EF: Uma das músicas mais recente que lançaste ou que, pelo menos, apresentaste ao vivo no 5 para a meia noite, foi a Good For Me. Do que fala?

RC: Esta música é um atrofio. [risos] Esta música é uma crítica social também. Basicamente, o refrão diz “uma garrafa na minha mão, drama na minha cabeça, (…) não percebo como isto é bom para mim.” E nos versos explico. É a refilar com governos e essas coisas…

EF: E é o novo single ou foi algo casual?

RC: Não, é uma música do álbum que nós queríamos tocar e como no 5 para a meia noite nos dão liberdade de fazermos o que queremos… Já lá fomos imensas vezes, então temos de fazer uma coisa diferente. Fomos buscar uma música que nós todos gostamos imenso do álbum, nós queríamos todos imenso que fosse um single… mas não arranjamos maneira de tornar aquilo um single, então pensamos: vamos tocar ao 5 para a meia noite, fazemos um arranjo diferente e, pelo menos, dar algum destaque a uma música que nós gostamos todos.

EF: É preciso ser viciado em reggae para fazer reggae? Entregar-se completamente?

RC: Sem dúvida, dentro da minha perspetiva do reggae. Depois há várias músicas com influência de reggae que podes fazer. Mas reggae, reggae, tens de ser mesmo um viciado. Todas as pessoas que tomaram a decisão de serem artistas de reggae é porque se viciaram em reggae durante muitos anos e se apaixonaram completamente por aquilo, e querem fazer.

EF: A essência do reggae… vem muito da comunidade, do socialismo…

RC: O reggae não tem nada a ver com socialismo…

EF: Sim, não era isso que queria dizer. O reggae vem muito de dentro da comunidade: vão para a rua, cantam…

RC: Sim, mas é engraçado porque ao dizeres socialismo… tens razão porque mistura-se um bocado essa ideia de comunidade e igualdade de direitos e justiça social; na Europa mistura-se com o comunismo até. Há muitas pessoas que associam o reggae ao comunismo e não tem absolutamente nada  a ver. Se fores estudar reggae, é preciso que faças a tua interpretação. Porque há coisas boas e coisas más. Nalguns aspectos são extremistas demais… mas é uma música que acima de tudo promove essa máxima do “equal rights and justice for all”, que era o ensinamento do Deus dos rastafaris, o Imperador da Etiópia. Acho que uma pessoa deve chegar ao Bob Marley e não ires mais profundo do que isso, porque se fores vais encontrar controvérsia, partes da cultura do reggae que não interessam muito. Bob Marley é um exemplo clássico do que era a mensagem do reggae de paz, amor, união. Esta é a base do reggae.

EF: Achas que o reggae já se tornou universal, sendo que não existe essa tradição nos países nórdicos, por exemplo?

RC: Acho que o Bob Marley fez exatamente isso. O Bob Marley fez com que as pessoas soubessem o que é o reggae. E toda a gente no mundo gosta. Depois, nos países nórdicos… eu estive na Suécia a tocar, por exemplo, e essa marca que ficou do reggae vem ainda do Bob Marley. Eu acho que ele teve um poder tão grande que as pessoas que ouvem reggae de agora são muito influenciados pelo Bob Marley. Associam o reggae a ele. Quando fui fazer a tour com o Antonhy B pela Europa, ele cantava sempre uma música de Bob Marley nos espectáculos. Sem dúvida que o reggae está internacionalizado, eu gostava que estivesse ainda num nível mais elevado. Porque é um bocado música de nicho. Eu acho que era mais construtivo [o reggae] ser uma música mainstream do que muito do hip hop que chega a mainstream com uma mensagem que não acrescenta nada.

EF: A tua carreira já está internacional; ainda vai estar mais nos próximos tempos? O que há no futuro?

RC: Vai, vai. Depois deste concerto, nós vamos focar 100% na promoção lá fora durante a primeira metade do próximo ano. O álbum [Focused] foi lançado este verão na Europa. Foi lançado nos Estados Unidos também no final do verão. Vamos andar a fazer um levantamento do que conseguimos daí. E investir mais lá fora, sem dúvida.