036

A Propósito de Llewyn Davis: Um homem, um gato e o folk

A música folk marca o regresso dos irmãos Coen. Os realizadores fazem-se acompanhar por um protagonista solitário, um felino rebelde e uma história envolvente, no ambiente sombrio de Greenwich Village, dos anos 60. O resultado é um embalo de sentimentos, nostálgico e avassalador.

A Propósito de Llewyn Davis acompanha uma semana da vida de um jovem cantor no ambiente da cena musical folk de Greenwich Village, em 1961. Llewyn Davis (Oscar Isaac) encontra-se falido, de guitarra ao ombro, à mercê do rigoroso Inverno de Nova Iorque. Luta para vencer enquanto músico, apesar dos obstáculos que tem de enfrentar e vive da boa vontade dos amigos. As desventuras de Llewyn levam-no a aceitar os poucos trabalhos como músico que vão aparecendo e a fazer viagens a Chicago e por toda a Nova Iorque, sempre incapaz de se afirmar enquanto artista a solo, chegando ao momento em que é obrigado a confrontar-se com a improbabilidade das suas acções.

A Propósito de Llewyn Davis inspira-se na vida do músico Dave van Ronk, influência para Bob Dylan e Joni Mitchell. Mas aqui é Llewyn Davis o protagonista, este homem solitário, mais um entre tantos cantores que querem emergir na cena folk norte-americana. Ele guia-nos por esta jornada de poucos dias, durante o Inverno de 61, de casa em casa, à boleia com desconhecidos, a tentar a sua sorte em Chicago ou a fazer pequenos trabalhos e tocar em bares.

vlcsnap-2013-05-12-12h10m16s23

Uma companhia inesperada cruza-se no seu caminho – um simpático gato – que conquista o seu espaço ao longo do filme. Que par tão inesperado: Llewyn Davis, de viola ao ombro e mala na mão com um gato ao colo, pelas ruas e em viagens de metro (que nos proporcionam belos planos). E até que ponto o protagonista não pode ser comparado a este felino, tão só, tão nómada e, ao mesmo tempo, cheio de personalidade?

As relações que estabelece são fugazes e parecem estar a desfazer-se aos poucos. Cada vez são menos aqueles que lhe dão tecto – e sofá – e é nos desconhecidos que se vê obrigado a confiar. Entre aventureiras viagens à boleia, Llewyn vai conhecendo novos personagens e, cada vez mais, percebe como está sozinho – mais ainda desde que deixou de tocar em dupla. Sem apoio, sem casa, sem trabalho, sem dinheiro, será que lhe resta esperança?

Depois de pequenas interpretações, Oscar Isaac demonstra o valor que tem e o prometedor actor que aguarda pelos papéis certos. O jovem dá a Llewyn Davis a sobriedade e a rebeldia necessárias e arrebata a plateia como poucos conseguem. Por seu lado, Carey Mulligan e Justin Timberlake têm interpretações medianas como o casal Jean Jim, onde o segundo protagoniza algumas cenas divertidas. Ao mesmo tempo, é sempre bom ver John Goodman na pele de um bizarro companheiro de viagem do protagonista.

08

O tom triste e depressivo da longa-metragem é equilibrado – como tão bem os Coen sabem fazer – com momentos de humor que nos roubam sorrisos. Todavia, o ambiente é definitivamente pesado e gelado, jogando também aí a favor das emoções da plateia. Joel Ethan Coen proporcionam-nos planos geniais, acompanhados por uma fotografia soberba de Bruno Delbonnel. A banda sonora, com performances cantadas ao vivo pelos actores, é mais um ponto de equilíbrio, com o folk a reinar, e que vai dos temas mais divertidos como o já tão popular Please Mr. Kennedy, aos mais calmos e nostálgicos – Fare Thee Well (Dink’s Song) é talvez um dos mais marcantes.

Em A Propósito de Llewyn Davis, os Coen exploram o mundo do folk com uma simplicidade tremenda, mas com um carinho ainda maior. O gato e o homem aquecem-nos o coração num Inverno não tão rigoroso como o de Greenwich Village, em 1961, mas até onde viajamos e nos deixamos embalar, entre a tristeza, nostalgia e comoção. Porque toda a gente irá questionar se realmente a esperança é a última a morrer.

9/10

Ficha Técnica:

Título Original: Inside Llewyn Davis

Realizadores:  Ethan Coen e Joel Coen

Argumento:  Joel Coen e Ethan Coen

Elenco: Oscar IsaacCarey MulliganJustin Timberlake, John GoodmanJerry GraysonAdam DriverGarrett Hedlund

Género: Drama, Música

Duração: 105 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

Mais Artigos
Big Brother Cláudio Ramos BB Zoom
Cláudio Ramos reage ao regresso de Teresa Guilherme: “Bem-vinda de volta a casa”