Ricardo Ventura da Costa, 27 anos, já lançou dois álbuns a solo, com singles que andam na boca dos portugueses, tem mais de 193 mil fãs na página oficial de Facebook, e, agora, prepara-se para gravar um DVD no concerto desta quinta-feira no Campo Pequeno, em Lisboa. O Espalha-Factos esteve à conversa com Richie Campbell para fazer uma antevisão do espetáculo e abordar o percurso do cantor que se funde intrinsecamente com o reggae.

Espalha-Factos: Já atuaste no Campo Pequeno e, mais recentemente, no Coliseu do Porto. Quais vão ser as surpresas deste concerto em que vais gravar o DVD?

Richie Campbell: Bem, primeiro, já foi revelado quem são os convidados: o Gentleman, o Richie Stevens e o Dengaz. Essas são as principais surpresas do concerto. Para além disso, toda a produção do concerto vai ser diferente. Vamos ter cenografia, o palco vai ser diferente, toda a sala vai ser decorada de outra maneira. Normalmente, não é o que fazemos nos nossos concertos. Mas, como vai ser gravado para o DVD, vai ser diferente. Para além disso, vamos tocar mais músicas do que costumamos tocar porque temos mais tempo para tocar também. E, no geral, vai ser melhor.

EF: E mais câmaras à volta…

RC: Sim, exato, vamos ter umas 30 câmaras.

EF: Vais apresentar alguma música inédita?

RC: Inédita, inédita, não. Mas músicas que nunca tocamos ao vivo, sim. Várias. Porque é como eu estava a dizer… temos mais tempo para tocar. Nós normalmente temos uma hora, uma hora e meia, para tocar nos festivais porque há outros artistas. Aqui, como a sala é nossa durante a noite toda, temos o tempo que nos apetecer para tocar.

EF: No início, quem te ouvia na rádio não sabia que eras português…

RC: E branco…

EF: Como é que consiste ter essa identidade tão jamaicana que, de certa forma, é o ‘crioulo’ do inglês?

RC: Não foi uma coisa muito forçada. Foi simplesmente das músicas que eu ouvia ao longo dos anos. Cada vez foi ficando mais. E eu ‘desaprendi’ um bocado a falar inglês correto e comecei a falar jamaicano porque as músicas todas que eu ouvia eram em jamaicano. Acabei por criar um bocado essa identidade por causa das influências que eu tinha. Ao longo de dez anos, estares sempre a ouvir o mesmo tipo de música… quando vais fazer música vai ser exatamente uma coisa daquele género.

EF: Então foi uma coisa gradual? Também por influência da tua mãe…

RC: Foi, foi. Exatamente, ela ouvia reggae… Foi daí que eu comecei a ouvir. Foi desde aí que as influências foram ficando mais profundas, e quando comecei a fazer música foi por aí que fui logo.

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«Há imensas pessoas que ouvem a minha música e não conseguem perceber»

EF: Pegando um bocado nesse assunto da língua em que cantas as tuas músicas, há um vídeo no Youtube – que já deves ter visto… [Richie abana a cabeça afirmativamente, imitando sons do vídeo] – em que um rapaz diz que te conhece e depois começa a tentar cantar uma música tua, dizendo palavras aleatórias. Tens medo que o público não te compreenda? Que a mensagem não passe?

RC: Não tenho medo. Às vezes é um bocado ingrato tu teres uma letra que tu gostas tanto, e achas que é uma mensagem tão importante, e as pessoas às tantas não percebem. Mas eu acho graça porque é um facto: eu próprio há uns anos atrás não percebia nada. E esse vídeo tem uma graça do caraças porque é exatamente… há imensas pessoas que ouvem a minha música e não conseguem perceber. Por um lado, é um bocado frustante. Mas é um contra que faz parte do estilo de música que eu escolhi.

EF: E o próprio público pode aprender algo por aí…

RC: Claro, e eu nos dois álbuns disponibilizei as letras. Precisamente por causa disso. Porque eu sei que quando eu comecei, também era mais fácil para mim ler e chegar lá. Eu tento escrever as letras o mais inglês possível. Há muitas palavras que não há outra maneira de escrever. É o crioulo [do inglês], não existe gramática correta. Eu nas letras tento pôr a palavra inglesa para as pessoas poderem perceber melhor, exatamente.

EF: O reggae, antes de apareceres, não era muito mainstream em Portugal. Qual é o ingrediente das tuas músicas que cativou as pessoas que não ouviam tanto este tipo de música?

RC: Eu não te sei dizer, sinceramente. Para já, eu não acho que o reggae seja mainstream em Portugal. Há alguns artistas de reggae que são. Eu gostava que toda a cultura do reggae fosse mainstream em Portugal. Não sei te dizer qual é o ingrediente porque nem sequer foi uma coisa que eu tenha planeado. Porque o meu primeiro álbum, que na verdade tinha o Blame It On Me – que foi a minha primeira música com sucesso mainstream -, nunca foi feito a pensar nisso. Esse álbum foi feito a pensar no mercado que eu tinha na altura, que era só o mercado do reggae. Por isso, eu não te sei explicar o que é que é… Mas é um facto que tanto o primeiro como o segundo álbum foram feitos a pensar em reggae. Não sei, deve ser algo que tem a ver com as minhas influências, deve haver ali alguma mistura qualquer que faz com que se reggae, mas que tenha também uma cena apelativa para o mainstream. Não sei, mas é um bom ingrediente pelos vistos.

EF: Foi um processo natural que tornou o single comercial?

RC: Sem dúvida. Eu acho que ainda não fiz nada com esse objetivo. Fiz uma vez uma música com o objetivo de ser mainstream e nem sequer a lancei.

«Eu vejo os sítios desse prisma, da visão do antropólogo.»

EF: Costumas viajar bastante: já passaste algumas temporadas na Jamaica, em Cabo Verde e, mais recentemente, em Barbados. Antes de seres o Richie Campbell estavas a estudar Antropologia. De certa forma, quando vais para estes lugares estás a ser um antropólogo? Tentas absorver tudo?

RC: Sim, uma vez estive com um  membro dos Bambu Station, que é uma banda do reggae das Ilhas Virgem, e eu na altura estava a tirar o curso. Eu disse-lhe que curso estava a tirar e ele disse-me: “é o melhor curso que podes tirar se és músico.” E é verdade porque todas essas coisas acabam por ser estudos antropológicos. Até os concertos são estudos antropológicos. Veres o Homem em sociedade. E ir para os Barbados, para Cabo Verde, para a Jamaica, etc, acaba por ser um bocado isso. Eu vejo os sítios desse prisma, da visão do antropólogo. Não acabei o curso, mas estive lá uns cinco anos.

EF: E são essas viagens que também influenciam o teu trabalho?

RC: Sempre que fiz as viagens, quando volto, venho sempre com muito mais vontade de escrever. Provavelmente, por causa disso, exato.

EF: De certa forma, quando estás em tour, nos concertos, não tens tanta disponibilidade para criar?

RC: Sim, e quando te tiram do teu conforto… Eu aqui acordo, se não tiver nada para fazer, fico em casa, vejo televisão. Lá não. Tens de sair, tens de ver, tens de falar, de conviver com as pessoas e automaticamente acabas por estar muito mais ativo na parte criativa.

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«Normalmente a música que os miúdos ouvem, os pais não gostam. É bom agradar aos dois.»

EF: Estavas à espera, quando começaste este projeto, de ter um público tão jovem a ouvir-te?

RC: Não foi nada de propósito. Nada. Como eu te disse, o objetivo quando começamos – o target das minhas músicas – era o público do reggae. Eu nem sequer pensei ter o público mainstream em Portugal. Eu achava que ia ter aqueles dois mil que ouvem reggae aqui, e depois ia tentar fazer o mesmo pela Europa fora. E o que aconteceu não foi isso. O que aconteceu foi que aqui em Portugal se tornou mainstream completo e, de facto, as miudinhas e os miúdos… é ótimo, é ótimo chegar a todas as pessoas. Muitas vezes há pais desses miúdos que falam comigo a dizer: “ah, a minha filha adora-o e eu também.” E isso é ótimo. Normalmente a música que os miúdos ouvem, os pais não gostam. É bom agradar aos dois.

EF: A tua carreira já está internacional; ainda vai estar mais nos próximos tempos? O que há no futuro?

RC: Vai, vai. Depois deste concerto, nós vamos focar 100% na promoção lá fora durante a primeira metade do próximo ano. O álbum [Focused] foi lançado este verão na Europa. Foi lançado nos Estados Unidos também no final do verão. Vamos andar a fazer um levantamento do que conseguimos daí. E investir mais lá fora, sem dúvida.

A entrevista completa é publicada amanhã no Espalha-Factos.