Foi no passado dia 11 que o Espalha Factos marcou a sua presença na Sala Estúdio para assistir ao ensaio na íntegra da peça A Visita, encenada por Moncho Rondriguez e protagonizada por Pedro Giestas. Este espetáculo foi produzido pelo Teatro Invisível, companhia que também já conta no seu repertório trabalhos como O Donzel do Cavaleiro Dom Quixote e adaptações obras de autores como Miguel Torga e Aquilino Ribeiro.

O que se viu ao longo de cerca de uma hora foi um espetáculo forte, cativante e atmosférico. Um misto de emoções à medida que António (principal interveniente num palco que na verdade está mais cheio do que aparenta) partilha connosco inúmeras histórias e situações durante a nossa “visita” à sua aldeia.

Logo no início, há algo que nos desperta os sentidos, principalmente se estivermos nas primeiras filas: um agradável aroma campestre capaz de nos transportar para um qualquer cenário bucólico engendrado por Alberto Caeiro ou Daniel de Sá. Isto é devido a uma original construção de palco que permanece praticamente imutável ao longo do espetáculo. As folhas, ervas e ramos secos dispostas no centro da Sala Estúdio criam uma atmosfera rural, a recordar uma qualquer região do interior norte do país de onde entre todo o cenário natural e inanimado irrompem as pequenas luzes das casas que constituem as isoladas aldeias, aqui representadas por várias velas dispostas entre a vegetação morta.

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E é assim que se inicia a nossa Visita: os grilos cantam a sua serenata, ergue-se um vulto, ouve-se o ecoar sombrio de um chocalho e uma a uma, as velas vão sendo acesas e revelam por completo António, o solitário habitante de uma qualquer aldeia portuguesa. Que comece o nosso serão.

Não é demais frisar a consciência presente nesta peça. O excelente texto de Moncho Rodriguez obviamente vai de encontro a um tema cada vez mais real: o êxodo rural está a despir cada vez as aldeias portuguesas e assim o isolamento aumenta. As escolas fecham, os jovens deslocam-se e para trás ficam os poucos resistentes, as histórias e as vivências.

Assim, é de louvar o excelente trabalho do Teatro Invisível em criar um trabalho profundamente atmosférico, acolhedor e sem dúvida tocante e autêntico na forma como aborda este assunto. Essa autenticidade é produto de um texto escrito de forma brilhante e bem interpretado por Pedro Giestas que veste completamente a pele de António, um homem do campo, um rapaz humilde, fiel à família e ao trabalho que a terra exige.

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A sinceridade com que António nos fala do seu irmão, que foi o único a estudar na família, a convicção com que dialoga com o senhor Venâncio ou o respeito que demonstra pelo seu pai são os elementos que compõe uma prestação envolvente e muitas vezes comovente, ampliada por um discurso que ganha uma autenticidade acrescida com o registo rural empregado pelo personagem, seja nas expressões tipicamente nortenhas (“que mais dá?!”), seja no seu sotaque. Claramente houve aqui um grande cuidado e rigor na construção desta personagem.

Fisicamente, apenas António existe no palco, mas o seu manifesto da vida rural não se expressa a solo. São inúmeras as personagens que, embora invisíveis, prestam mais cor e conteúdo a estas histórias que nos são apresentadas. O nosso personagem é interrogado, chamado à atenção e participa em diálogos invisíveis que compõem memórias de histórias que podem ter acontecido ou que afinal não passam de uma espécie de “arma” face à solidão fria e implacável da natureza que reveste a localidade para onde somos transportados. António é um resistente. Ele não quer ir embora. Tem um dever para com este sítio e a sua vontade é ficar. Mesmo quando de longe vê a estrada nova onde “os carros vão, mas já são poucos os que voltam“, a sua vontade é ficar.

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O espetáculo que a Sala Estúdio presentemente acolhe é sem dúvida original, meditativo e profundamente didático. Estas situações são reais e acontecem todos os dias. Ver esta peça é ser transportado para um mundo familiar, um mundo de tradições, em que a palavra falada adquire um valor precioso, o tipo de valor que as histórias que os nossos anciãos contam ao pé da lareira.

É de louvar Moncho Rodriguez e o texto, pela autenticidade e pelo conteúdo cativante. É de dar os parabéns a Pedro Giestas pela brilhante interpretação. É de congratular a sonoplastia e a construção do cenário que se fundem de uma forma perfeita para criar um ambiente profundamente bucólico e intimista em que a audiência do Dona Maria II é transportada temporariamente para um sítio bem distante.

E este é um sítio encantador, com muitas histórias para contar e muitas vivências para imortalizar. É importante que estas tradições não se percam e é talvez por isso que muitos resistentes como o António insistem em ficar. Apagam-se as velas, os montes retomam o seu descanso eterno. “O meu país é lindo…

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A Visita estreia dia 12 de dezembro na Sala Estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II e lá permanecerá até dia 15, estando integrada na iniciativa Teatro Avulso.

Fotos por Cármen Veloso