Muitos dos problemas apontados à primeira parte desta trilogia são agora resolvidos pelo firme punho de Peter Jackson, cuja maestria como realizador é consagrada num filme com algumas das melhores cenas de acção da última década, intrincadas, frenéticas e ousadas, que poderão ajudar a salvar o filme para os que não estão familiarizados com a Terra Média.

O problema, já muitas vezes mencionado, reside no simples facto de que O Hobbit, enquanto peça literária, não foi feito para aspirar à categoria de épico de aventura, sendo uma obra definitivamente infanto-juvenil, com pouco mais de duzentas páginas de narrativa, não fazendo sentido dividi-lo em três filmes de três horas cada. Todavia, e à medida que se avança no livro, O Hobbit torna-se menos fabulesco e mais sério – Jackson vai tirar partido disso, nesta segunda parte, e desviar-se das palavras de Tolkien para tentar dar ao espectador (e a si próprio, acredito) aquilo que ele quer: uma prequela digna de todo o peso da trilogia O Senhor dos Anéis, a todos os níveis.

Ao fazê-lo, vai aproveitar todos os apêndices e notas de rodapé que Tolkien deixou e nos quais ele pode tocar; vai, constantemente, lembrar-nos que estas personagens estão ligadas ao que acontece sessenta anos depois em O Senhor dos Anéis (talvez porque é a única maneira de nos sentirmos emocionalmente ligados a elas) e vai, perspicazmente, resolver problemas de enredo que ele próprio criou ao tornar o filme mais ritmado e dinâmico. Ao abarcar tudo isto, A Desolação de Smaug parece ter mais da quadrilha de argumentistas (Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa BoyensGuillermo del Toro) que do próprio J. R. R. Tolkien.

O que parece não resultar aqui, logicamente e em termos de credibilidade e carga emocional, é todo o plano de Thorin, versão beta de Aragorn, que simplesmente não se pode comparar à demanda de Frodo e Sam para destruir O Anel. De qualquer maneira, e talvez para colmatar essa falta de profundidade do enredo, Jackson vai separar os anões, Bilbo e Gandalf uns dos outros (apenas a ausência de Gandlaf é mencionada no livro, não sendo revelado o que lhe aconteceu entretanto), um pouco à maneira do que acontece em A Irmandade do Anel. Essas três linhas de narrativa, que depois vão colocar as personagens certas nos sítios certos, lembram-nos que esta saga pode representar e pressagiar alguns falhanços por comparação com O Senhor dos Anéis, mas que em termos de escrita, acção e manuseamento do universo tolkieniano, Peter Jackson não pode ser repreendido.

Gandalf em Dol Guldur

A grande satisfação para os fãs de tudo o que tenha que ver com a Terra Média será a adaptação daquilo que Gandalf fez durante todo o tempo que esteve longe de Bilbo e dos anões. Representa algo que Peter Jackson não ousou fazer na trilogia que realizou há dez anos e uma virtuosidade plena em colocar as peças no tabuleiro, à sua característica maneira, e em tornar implícito, mesmo havendo três ou quatro situações que são tudo menos implícitas, que toda a acção tem, aqui, um fim que é consumado em O Senhor dos Anéis. É aí que este filme é genuinamente bom.

É-nos apresentado ao longo do filme um largo número de personagens, todas certamente ímpares quando não mesmo pitorescas. Beorn, Bard, Tauriel ou o Presidente de cénica Lake-town, encarnado por Stephen Fry, fazem parte de um desenrolar frenético da acção que pode ser exagerado para alguns, mas que ajuda a tornar este filme num todo coeso e credível.

Nota, ainda, para o dragão cuja aparência tem sido tão cautelosamente escondida. Smaug é uma obra majestosa de efeitos especiais, roubando o protagonismo do filme em todo o último acto, cuidadosamente construída sob pormenores, como a voz e as expressões faciais, emprestadas por Benedict Cumberbatch, e os seus  monólogos –  e os diálogos com Bilbo, que é remetido para um lugar quase secundário quando não está a chacinar aranhas ou a construir a sua relação de amor-ódio com O Anel, outro ponto que será entusiasmante para os fãs de Tolkien, representando o pouco desenvolvimento enquanto personagem de Bilbo Baggins neste filme.

Como blockbuster, A Desolação de Smaug está largamente acima de Uma Viagem Inesperada, com cenas de acção alucinantes, a grande parte delas protagonizadas por Legolas e Tauriel (a elfa que não podia ser forte e independente sem imediatamente se apaixonar por uma personagem masculina e agir em função dela) e um ritmo mais constante. É díficil de descrever a fluidez das cenas de luta, que são muitas, longas e um franco deleite para qualquer pessoa que veja este filme. A Desolação de Smaug entusiasma e deixa-nos com muita vontade de ver a derradeira parte da trilogia. Peter Jackson colocou a fasquia muito alta para si próprio, com o material que tem em mãos. É bom que cumpra.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Hobbit: The Desolation of Smaug

Realizador: Peter Jackson

Argumento: Fran WalshPhilippa BoyensPeter Jackson e Guillermo del Toro, baseado na obra The Hobbit de J. R. R. Tolkein

Elenco: Ian McKellenMartin Freeman, Richard Armitage, Benedict Cumberbatch, Stephen Fry, Orlando Bloom, Evangeline Lily.

Género: Aventura, Fantasia

Duração: 161 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945