Pedro Boucherie Mendes

Pedro Boucherie Mendes: “Estamos sempre a um passo de sermos substituídos”

Se falamos de casos de sucesso no mundo dos media, falamos de Pedro Boucherie Mendes. Já passou pela FHM e pela Maxmen e, na televisão, foi jurado no programa Ídolos. O senhor Diretor Coordenador de Conteúdos dos Canais Temáticos da SIC e Diretor Geral da SIC Radical não tem meias palavras. Aqui, no Espalha-Factos, a experiência e a perspicácia do boss de Carnaxide é revelada numa entrevista realizada por email, numa altura em que a azáfama do lançamento da SIC Caras está no auge.

«A sorte, a oportunidade e o timing têm um peso muito relevante»

Espalha-Factos: O que é que resulta sempre em televisão?

Pedro Boucherie Mendes: Futebol.

EF: Qual o papel da televisão hoje?

PBM: Mais ou menos o mesmo: descodificar o mundo em redor, divertir, entreter, formar.

EF: A televisão deve “educar” os seus espetadores?

PBM: Não e sim. Sim e não. Eu aprendo sempre qualquer coisa mas não veria um programa que me tentasse ensinar a falar russo.

EF: No Alta Definição, disse: “Temos de ter noção do que somos ou não capazes de fazer”. Na sua opinião, o que é um bom profissional de televisão?

PBM: É aquele que vê televisão, para além de tudo o resto. Não é possível perceber de vinhos sem os provar, não é possível ter um papel de relevo em TV sem a ver.

EF: Numa entrevista à revista Sábado, disse: “Eu não acho muito difícil ter sucesso em Portugal porque a concorrência é baixa” – Para quem gostava de trabalhar nesta área, que conselhos pode dar?

PBM: Que a sorte, a oportunidade e o timing têm um peso muito relevante. Ou seja, não depende só de nós. Mas por via das dúvidas que saiba falar bem, que não diga Portegal em vez de Portugal ou Vrão em vez de verão. É muito importante as pessoas perceberem que não depende só delas. Tendo isso em mente, devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance.

EF: Quem são os apresentadores portugueses em quem reconhece mais talento?

PBM: Não respondo porque não quero deixar nenhum de fora.

«Desafios: pior que tudo é a imaginação e exigência do espetador»

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EF: Quais os seus formatos/programas preferidos a nível nacional e internacional?

PBM: Sempre diferentes, quase sempre sobre coisas improváveis. Gosto de trash tv, mas só dois ou três episódios.

EF: Quais os maiores desafios que a SIC Radical enfrenta hoje?

PBM: Concorrência direta, TV em diferido e internet. Pior que tudo a imaginação e exigência do espectador.

EF: O preconceito é indissociável da televisão?

PBM: É indissociável à vida. Ver três pessoas ao longe, às quatro da manhã, numa rua deserta, a vir na nossa direção faz-nos soar o alarme de perigo. Estamos a ser preconceituosos?

EF: Está no patamar profissional que queria para esta altura da sua vida?

PBM: Não penso nisso assim, mas acho que já cheguei a algum lado e todos queremos chegar a algum lado não é?

EF: O que é que o fascina mais em trabalhar em televisão?

PBM: Toda a gente sabe do que estamos a falar. Não temos de fazer um preâmbulo de dez minutos a explicar em que consta a gestão de refeitórios ou coisa parecida.

«O dia de amanhã será pior: há mais concorrência»

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EF: No livro Ídolos: sonho e televisão, diz: “Há talentos e talentos; uns são preciosos, outros apenas curiosidades”. É fácil perceber essa diferença numa pessoa logo nos primeiros segundos?

PBM: Com experiência é possível acertar mais vezes sim.

EF: Quais são as decisões mais difíceis que tem de tomar no seu trabalho diário?

PBM: Saber que o dia de amanhã será em princípio pior que o de hoje – há mais concorrência e o consumidor não precisa de me ver na televisão. Pode até ver-me sem me pagar nada.

EF: O que é que o foi alimentando ao longo do seu crescimento/percurso profissional? Que motivações teve sempre presente?

PBM: Ganhar a vida claro. Não vivo do ar, nem quero.

EF: Dizer o que pensa é uma das suas características. Reconhece a transparência como estando associada ao seu sucesso profissional?

PBM: Não. Até acho o contrário.

EF: Aposta muito na lógica da comparação real: “As pessoas que trabalham em stands de automóveis querem vender carros, as televisões preocupam-se com as audiências”. Uma das chaves para trabalhar em televisão é entendê-la, em primeiro lugar, como uma indústria e com uma postura comercial/empresarial?

PBM: Sem dúvida. Estamos sempre a um passo de sermos substituídos, tal como o homem que vende carros ou o chef que tem de encher o restaurante.

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