Britney Spears acaba de comemorar 32 anos, tendo lançado como prenda o seu novo trabalho, intitulado Britney Jean. Prometido o álbum mais pessoal de sempre, depois do altamente fabricado Femme Fatale, fomos verificar se as expetativas correspondiam à realidade.

E se o southern-fucking-sexy accent da cantora ainda nos dá aquele arrepio na espinha, tudo o resto parece ter partido sem regresso anunciado. Toda a gente que trabalhou com Britney Spears realça a sua ética profissional, a sua entrega às gravações, sem pausas e sem brincadeiras. Todos contam a forma como faz dos seus tempos em estúdio uma rotina 9 to 5.

Britney tem sido demasiado profissional, mas sem grande alegria no trabalho

Britney tem sido demasiado profissional, mas sem grande alegria no trabalho. No fim do dia, o que interessa é poder pagar as despesas. Outrora prometida como uma nova Madonna, Britney afinal só quer ser uma nova mãe de família do Louisiana: ficar em casa, cuidar dos filhos e tocar piano só para amigos. A retirada, durante dois anos, para uma residência em Las Vegas, só o confirma.

Mas foquemo-nos em Britney Jean. O início com Alien é num tom bem mais ameno do que tem sido o início dos últimos álbuns. A produção é de William Orbit e tem uma ambiência a lembrar os hits tropicais dos anos 80. A voz surge, contrariamente ao que tem sido habitual, despida de autotune. Na letra, resquícios do que podem ter sido alguns dos últimos anos: “Houve uma altura em que estava fora de mim, a sentir-me uma extraterrestre. Tentei e não descobri, mas senti-me sempre uma estranha no meio da multidão”.

Segue-se Work Bitch. O último hit da cantora não chegou a descolar nos tops internacionais, mas merecia ser mais que um flop. É um hino motivacional para ginásios, para ouvir enquanto a passadeira nos tenta matar. Cantada em rap style, a letra é catchy e cheia de referências cómicas. O pseudo sotaque britânico da Queen B é outro ponto alto da canção, que apesar de tudo não deixa de ser altamente genérica.

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It Should Be Easy é talvez a música em que se nota mais a marca de Will.i.am, produtor executivo de Britney Jean. A diva surge com a voz robotizada e a canção está talhada para as pistas de dança. Por um lado, ainda bem, porque Scream & Shout já precisa de ser substituída depois da overdose de anúncios da Popota. No entanto, se os álbuns de Britney costumam ser marcados por músicas a ditar tendências na pop, esta parece só mais uma canção igual a tantas que se ouviram em 2013. Um tiro ao lado num álbum que se prometeu pessoal e diferenciado – até porque em muitas situações nem nos lembrámos que a cantora está lá.

Tik Tik Boom segue a mesma onda de canção pop a puxar para o dancefloor, com a produção de T.I. a encaixar bem com a faixa anterior, mas sem acrescentar nada à música atual. Mais melódica e a lembrar o pop-chiclete de outros tempos, parece só um interlúdio que, por acaso, tem um featuring. Body Ache e Til It’s Gone funcionam como uma homenagem ao que David Guetta, Avicii e Axwell têm celebrizado internacionalmente. Apelam às pistas de dança, mas parecem longe de alcançar o objetivo de serem peças de um trabalho pessoal e até de serem, dentro do género, minimamente marcantes. Pisca o olho à eurodance – sim, nós percebemos bem que é que foram aqueles teclados. Ficamos a pensar se estas músicas teriam sido mais que b sides em trabalhos anteriores.

Passenger é uma incursão pelo poprock, sem deixar de lado a eletrónica que domina todo o registo. É uma canção que tem o dedo de Katy Perry e em que a protagonista oferece o volante da sua vida a outra pessoa. Põe a nu a vulnerabilidade de alguém que desde 2008 perdeu a sua independência e passou a ter, em plena vida adulta, uma espécie de encarregado de educação. É um bom momento e seria um bom single.

Faltava um regresso às origens. Chillin’ With You, com a parceria de Jamie Lynn, a irmã de Britney, parece meia deslocada no meio deste Britney Jean, mas é a primeira a levar-nos onde tudo começou. O dueto com a mais nova do clã Spears funciona bem, até porque Jamie Lynn canta bem, mas a canção podia ser bem melhor se se agarrasse ao tom country ou R&B e deixasse de lado as invenções futuristas de will.i.am. Depois da volta que ele lhe deu, fica só a parecer um remix manhoso de uma canção da Tony Braxton.

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Don’t Cry começa com um assobio e é uma balada das antigas a fechar a versão standard do álbum. Estamos perante mais um back to basics. Relembra a vibe de Born to Make You Happy ou Don’t Let Me Be The Last to Know. Britney canta e canta bem. Já tínhamos saudades dos vocais graves da cantora. Em faixas como esta nota-se o esforço do álbum em ser pessoal e, sem ser perfeita, é bem melhor do que as últimas tentativas mid-tempo da cantora, como as desastradas Out from Under ou My Baby.

37 minutos de música em serviços mínimos

Se tivéssemos optado por analisar apenas a versão normal do álbum, na qual se contam apenas as 10 faixas anteriores, o cômputo seria francamente negativo. 37 minutos de música sem qualquer momento de grande brilhantismo, sem novidades e em serviços mínimos.

Nas faixas bónus o cenário melhora substancialmente. Brightest Morning Star é dedicada aos filhos da cantora e tem qualquer coisa de brilho juvenil, talvez por que Sean e Jayden achem mais piada a músicas assim. É enternecedora e muito catchy, não é pretensiosa e não precisa de provar nada a ninguém, só soa bem.

Hold On Tight é mais uma balada que ficou de fora do ‘corte final’ e que indica que talvez tenham ficado para bónus as melhores canções, indicação sobre o quão errado tem sido o rumo da carreira de Britney desde o incoerente Circus.

Now That I Found You é uma música muito bem feita, apesar de também ter o defeito de parecer parte de um best of 2013. Junta um instrumental que começa pacífico, a lembrar country até, à maestria comercial de David Guetta. Não entendemos o que é que lhe falta para ser single. Parece que will.i.am pediu para esconder na versão deluxe tudo o que faria sombra à miserável produção das várias faixas que nos apresenta.

Perfume (The Dreaming Mix), última faixa bónus, é a versão verdadeira de Perfume e a melhor canção de todo o álbum. A melhor balada do disco surge aqui sem artifícios e a mostrar o quão confuso pode ser o caminho de Britney daqui para a frente. Se em Work Bitch ela mostra ainda dominar a pista de dança, a verdade é que é nos momentos mais introspetivos que consegue alcançar os melhores momentos do disco.

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É provável que tenha chegado a hora de ter calma. Se a partir de agora for só baladas ou mesmo uma longa pausa, ninguém vai levar a mal. Ser Britney Spears cansa. Uma cabeça rapada, internamentos psiquiátricos, atuações desastrosas e perseguições de paparazzi a toda a hora não é fácil.

Não deixa de ser curioso reparar que, enquanto os fãs das várias divas se digladiam para provar quem é a melhor, Britney Spears pareça completamente desinteressada da competição. No entanto, as coisas são mesmo assim: Não há nada a provar a ninguém quando provamos, a nós próprios, que somos felizes com uma vida normal.

Standard: 5/10

Standard + Faixas bónus: 6,5/10