Pé ante pé, levemente, assim como quem descobre um segredo. Como se se revelasse em frente aos nossos olhos aquilo que o nosso imaginário carregou durante anos e anos. Nos embalos de um palco, a sincronia é perfeita, com o sapatinho de cristal transformado em sapatilha de ponta. Falamos de Cinderela, o bailado em três atos pela Companhia Nacional de Bailado no Teatro Camões, em Lisboa.

Passaram 68 anos desde a estreia absoluta no Ballet Bolshoi, mas a história da jovem rapariga que sonhava ser princesa continua tão atual e relevante. Nesta versão com coreografia de Michael Corder (estreada pela primeira vez em 1996 pelo English National Ballet), a viagem entre mundos paradoxais é constante. Do universo grosseiro de uma cozinha onde os sonhos são destruídos ao ambiente luminoso do salão de baile. Mundos inconciliáveis que têm de encaixar para seja possível viver feliz para sempre.

Não há quem não conheça a história de Cinderela (Filipa de Castro). Aqui, envolvida pela música intemporal de Prokofiev, ela ganha nova dimensão. As notas interpretadas pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida por Boris Guzin, criam o ambiente necessário para que a ação se desenvolva. A vontade, por vezes, é de fechar os olhos e apreciar a música criada ao vivo. Mas o que se passa em cena é tão profundamente apoteótico que nos leva a procurar conciliar tudo, em busca da obra de arte enquanto todo.

Cinderella 2

Numa dança embalada pela passagem do tempo, fica o cheiro da raridade das laranjas – símbolo de um amor em crescimento. O tempo passa, ditando o possível fim de um romance eterno. O tique-taque das doze badaladas ecoa pela noite. A Cinderela e o Príncipe (Carlos Pinillos) têm de se separar. Acredita-se numa história de amor que sabemos ser a deles. Tudo isto numa conjugação perfeita entre música, dança, expressão corporal e cenário, que reforça a importância desta cena como o centro de toda a narrativa.

Em palco, constantemente, a fusão entre o sonho e a realidade, numa espiral que varia entre a felicidade e a tristeza. Da solidão à multidão, à solidão dentro da multidão. Das sombras à luz das estrelas que embalam noites de transformação. Um equilíbrio que reforça a ligação a quem assiste, que nos faz ser parte da história. Cinderela é a rapariga que não encaixa em nenhum ambiente, à exceção do mundo maravilhoso onde habita o seu príncipe. Está, pela força das circunstâncias, destinada a ser princesa.

A intemporalidade de uma história revela-se pela sua capacidade de transmitir valores transversais à sociedade. Cinderela faz-nos descobrir de novo a força do amor quando acreditamos nele. Não admira que tenham sido vários os autores a apropriar-se e renovar esta narrativa. Cinderela está agora no palco do Teatro Camões. É preciso correr, subir a escadaria (sem se esquecer do sapato). A meia-noite chega a 15 de dezembro.