Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa – Um Delírio esteve em cena entre quarta-feira e sábado passado, no Teatro São Luiz. Transporta o público para um universo de sonhos, delírios, recalcamentos e banhos de realidade, na semana em que se completaram 78 anos desde a morte de Fernando Pessoa.

 É comum advogar a teoria de que, no instante final, a vida inteira nos passa à frente dos olhos, apressada. Um rodopio de acontecimentos, um pião de sensações e de gentes marcantes para a estruturação da existência. Na peça Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa – Um Delírio, encenada e adaptada de um livro de António Tabucchi por André Gago, os derradeiros encontros fizeram-se entre várias personalidades, ainda que, neste caso, todas pertencessem ao mesmo indivíduo.

Referimo-nos a Fernando Pessoa e seus heterónimos, aqui retratados a partir de uma contínua interacção, de um prolixo resgate de memórias e de fragmentos literários. A acção desenrola-se em Lisboa, nos últimos dias da vida do sublime escritor português, quando uma cólica hepática o conduz ao internamento no Hospital S. Luiz dos Franceses.

fernandopessoaheteronimospolicia

Um parêntesis histórico dá início à caminhada teatral, quando Ofélia Queiroz e os heterónimos lêem, numa sobreposição de vozes, a carta de despedida de Mário de Sá-Carneiro, datada de 1916 e dirigida ao amigo Fernando Pessoa. No documento, Sá-Carneiro confidencia a vontade de se suicidar, perante o desencanto e a angústia proporcionados pela vida.

Tendo em conta a importância do evento para o poeta fingidor, a encenação impele-nos a vislumbrar aquele como o primeiro dos seus últimos dias, embora diste dezanove anos do período de internamento e consequentemente morte, ocorrida a 30 de novembro de 1935. O barbeiro de Pessoa localiza temporalmente a acção, ao referir diversos acontecimentos da época, como a morte de Reinaldo Ferreira – o Repórter X – ou a preocupação europeia face ao regime de Hitler, que subira ao poder na Alemanha em 1933.

Enquanto se dirige ao hospital, Pessoa pede ao taxista que pare em locais representativos das vivências em Lisboa, como é o caso do Jardim da Estrela, onde se deram boa parte dos encontros com a sua eterna amada Ofélia Queiroz. Enquanto, por trás de si, se projectam imagens do Jardim, o escritor, interpretado pelo actor José Neves, disserta sobre a ardorosa e pueril paixão que o consumiu. Por sua vez, Ofélia conta como o amor por Pessoa depressa cresceu quando trabalhavam no mesmo escritório e refere a dimensão do seu desgosto pela intromissão do heterónimo Álvaro de Campos naquela relação.

ofelia e pessoa peça

Durante o atribulado percurso, há ainda tempo para declamar trechos da Ode Triunfal – de Álvaro de Campos -, numa homenagem futurista à máquina, aos motores e aos ruídos da vida moderna, feita em conjunto com todos os heterónimos. O cenário, livre de artificialismos, é constituído por pouco mais do que os corpos das personagens, cuja indumentária é uniforme: o fato preto, característico do escritor. Para o ambiente de hospital transportam-nos uma série de biombos, colocados junto à cama do agora débil Pessoa, condenado a uma morte precoce.

A fronteira entre realidade e sonho é ténue. A inesgotável imaginação do poeta de A Mensagem confronta-se consigo próprio, de um modo intenso e fugaz. À vez, cada heterónimo abeira-se do criador, dissecando alguns dos aspectos literários e regimes de pensamento que subjazem à sua própria produção escrita. Da homossexualidade reprimida de Álvaro de Campos à mestria de Alberto Caeiro, “o guia”, despojado de consciência e de dor de pensar.

Do neo-classicismo e anti-republicanismo de Ricardo Reis às “pinturas com palavras” de Bernardo Soares numa casa do patrão Vasques, em Cascais, onde escreveu partes do desconcertante e soturno Livro do Desassossego. Fernando Pessoa receberia uma última visita, desta feita de António Mora, um heterónimo menos conhecido, filósofo, marcado por uma visão decadentista e pela primazia dada às sensações. Uma interacção feita entre todos, por um só fragmentado ser.

fernando pessoa ultima foto peça

O jogo de luzes, mudando consoante o heterónimo em cena, remetia para a densidade psicológica e temática que corresponde a cada uma das personalidades pessoanas. Depois do diálogo com o criador, numa altura em que a escuridão se aproxima, todos se movem circularmente em palco, numa desorientação comum, num incontrolável desvario. Porque a morte de Pessoa é também o perecimento de todas as pessoas por si congeminadas, e da penetrante inquietação que as moldou.

Uma interpretação bem conseguida por actores como Eurico Lopes, Alberto Magassela ou Maria João Falcão, onde faltou talvez uma maior exploração dramática de certas características da psique pessoana, fundamentais para a compreensão da sua profundidade enquanto escritor e pensador. Fica contudo a imagem de um competente trabalho na representação dos vários “eus pessoanos”. A imagem de como há “tanta coisa que, sem existir/Existe, existe demoradamente”.

Fotografias: Rita Carmo