Palácio, editado há dois anos, já nos ia evidenciando que a guitarra de Filho da Mãe, nome artístico de Rui Carvalho, não se tratava apenas do instrumento que este se servia para esculpir a sua arte; mais do que isso, era através dela que nos conseguia fazer levitar, que nos conseguia transportar até outras paragens, espaços mais apaziguadores, calmos e celestiais. Recentemente, foi editado Cabeça, o novo álbum do guitarrista lisboeta, e o que é certo é que, cada vez mais, mais vamos assimilando na nossa cabeça que Filho da Mãe é um artista que se transcende e que nos faz transcender. 

Se no passado tivemos Carlos Paredes, hoje ninguém espelha melhor a alma de uma guitarra do que Filho da Mãe ou Norberto Lobo. Nesse campo, a alma que se vê e se penetra em Cabeça é imensa; do passado se construiu o presente, ouve-se o cruzamento da guitarra de Bert Jansch com o dedilhar de guitarra mais típico da canção folk dos anos setenta de Nick Drake ou de Jackson C. Frank, sendo esta convergência sempre acompanhada pelo modo hipnótico como Rui Carvalho se desmembra pelas suas cordas. É tão ágil que não nos parece humano; será que tem mesmo cinco dedos?

Será cliché dizê-lo, mas é raro encontrar um disco desprovido de qualquer palavra que nos diga tantas palavras ao mesmo tempo. Cabeça diz-nos muito, talvez demasiado (no bom sentido, claro); diz-nos que é na simplicidade que Filho da Mãe se apoia para nos oferecer músicas de corpo cheio, onde os vazios sonoros, que acabam por ser uma habitué num disco de guitarra, são muito escassos, quase inexistentes. A música nunca pára, assume uma continuidade que nos mantém presos à Cabeça da sua primeira ponta à sua última, porque talvez exista sempre algo que Rui nos queria dizer tocar: o modo como se prende o ouvinte é sublime, a magistralidade com que toca é, hiperbolicamente, humanamente impossível; a genialidade como se expõe a alma de quem nutre um amor incondicional pela guitarra é tremenda. Cabeça é um exemplo vivo de que quem corre toca por gosto, não cansa.

Nota final: 8.9/10

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945