Se a noite de sexta foi, tanto ao nível dos concertos como das mudanças de sala, rica em euforia e agitação, bem espelhadas nos melhores concertos (com Young Fathers e Wavves a disputarem o primeiro lugar, seguidos de perto pelas Savages), a segunda dose do Vodafone Mexefest deste ano foi, de certa forma, pautada por uma maior acalmia para os nossos corpos e ouvidos.

Arrancámos o sábado com o concerto das três grandes promessas da música brasileira, Cícero, Wado e Momo, numa actuação conjunta baptizada com o pomposo chavão de “Brasil d’Agora”. De guitarras em riste, acompanhados pelos “tugas” Bernardo Barata (dos Diabo na Cruz e fundador dos já extintos feromona), Fred (dos Buraka Som Sistema e Orelha Negra) e Alexandre Bernardo (dos Laia), o trio foi até ao BES Arte & Finança apresentar as canções dos seus discos, perante uma generosa plateia, ansiosa de assistir a tão bela comunhão “tropicalista”.

IMG_6236

A entrada, precedida por problemas técnicos iniciais, foi feita “a pés juntos”, com Rosa (de Wado), Tempo de Pipa (de Cícero) e Tenho de Seguir (de Momo), com interpretações bem mais ácidas e pungentes do que nas versões de estúdio, em virtude da distorção e dos arranjos mais “roqueiros”. Seguiram-se outras belas peças, como Duas Quadras, Ponta dos Dedos, Ela e a Lata, Primavera Árabe, Nuvem Negra e, para terminar, Laiá Laiá, tudo sob o olhar atento do “casal real” do revivalismo mpb, Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, que puderam assistir do fundo da sala a uma belíssima celebração da nova vanguarda da pop de terras de Vera Cruz.

Depois de roubar um par de setlists e sacar um autógrafo a Wado (também queríamos apanhar Momo e Cícero, mas o primeiro foi demasiado esquivo e o segundo foi aproveitar o seu estado “transcendental” para o backstage), rumámos Avenida abaixo, em direcção ao Coliseu, para apanhar a estreia dos britânicos Daughter em Portugal.

IMG_6322

Numa sala a abarrotar, o trio encabeçado por Elena Tonra trouxe até nós uma remessa de canções retiradas de If You Leave, LP de estreia lançado este ano. A indie pop da banda, cambaleando entre as passagens contemplativas e oníricas e os clímax instrumentais portentosos, deixou ao rubro os milhentos fãs que ali estiveram, ansiosos por ouvir temas como Still, Love, Smother e, lá está, a orelhuda Youth. Confessamos que, para nós, continuam a ser uns The xx dos pobres com um instrumental mais portentoso e menos electrónico (não que isso seja necessariamente mau), mas a verdade é que ninguém lhes tira o mérito de terem dado um concerto irrepreensível, com um Coliseu a seus pés.

Subimos de novo, desta vez até à sala principal do Cinema São Jorge, para o concerto de Erlend Oye. O norueguês, metade dos Kings of Convenience e mentor do projecto The Whitest Boy Alive, apresentou-se em Lisboa acompanhado de Victor, flautista, e Maurizio, guitarrista, para mostrar algumas das novidades de La Prima Estate, disco que ainda está em gravações na Islândia.

IMG_6396

Afável e bem-disposto, Oye enfrentou de forma paciente os problemas técnicos com o microfone da flauta e manteve a plateia animada entre canções, explicando de forma cómica as razões por detrás da sonoridade mais calma nos seus trabalhos a solo mais recentes (problemas de ouvidos, disse ele) e de onde veio a inspiração para os seus novos temas e para a cover de Grande grande grande, de Mina Mazzini (a sua recente mudança para Siracusa, em Itália).

Houve também tempo para dar destaque a Maurizio, que interpretou sozinho Uma Tarde em Itapoã, de Vinicius de Moraes e Toquinho, antes do encerramento com La Prima Estate, perfeita canção de Verão. O público ficou rendido, e nós sublinhamos por baixo: esteve aqui um dos grandes concertos do festival.

Nova descida, desta vez em direcção à Casa do Alentejo, onde conseguimos apanhar os últimos 15 minutos da actuação de Braids. O trio canadiano, que substituiu Autre Ne Veut e veio apresentar Flourish // Perish, segundo registo de originais, conseguiu esgotar a Sala dos Espelhos, trazendo até nós a sua arrebatadora parede de som, banhada pelos tons experimentais do shoegaze e da synthpop.

IMG_6411

In Kind, última canção do alinhamento, conseguiu hipnotizar todos com os seus drones graves, a percussão possante e os sintetizadores cintilantes, e estabeleceu esta actuação como uma das grandes revelações do festival. E para que fique lavrado em acta, ficou provado que Raphaelle, vocalista do grupo, é das cantoras indie mais adoráveis que por aí andam.

Seguimos depois para a Estação Vodafone.FM, no Rossio, para vislumbrar um pouco do concerto de Oh Land. A nórdica, repetente nestas andanças, trouxe até nós a sua pop de inverno, acompanhada de uma numerosa banda, hábil em dar vida às canções de Fauna (2008), Oh Land (2011) e Wish Bone (2013).

IMG_6524

Perante um pátio a rebentar pelas costuras, e com uma acústica manifestamente melhor que aquela que encontrámos na noite anterior no mesmo espaço (kudos para o engenheiro de som), a dinamarquesa apelou à dança com as infecciosas Pyromaniac, Love a Man Dead e Wolf & I. Tivemos pena de não poder apanhar mais do concerto, mas ficou aqui uma sólida e contagiante demonstração por parte de Oh Land. Se tudo correr bem, não tardará muito o seu regresso.

Estucamos o passo para apanhar o nosso último shuttle da noite. Destino: sala principal do Cinema São Jorge, onde regressamos para, desta vez, ver o concerto de The Legendary Tigerman, nom de guerre de Paulo Furtado. O artista de Coimbra montou um verdadeiro one-man show, intercalado, de forma pontual, por alguns convidados que foram aparecendo para dar uma mãozinha (em especial Paulo Segadães, baterista dos extintos Vicious Five e novo companheiro de estrada do “homem tigre”), num espectáculo de blues rock coberto de pó, sujidade e brilhantina, bem ao estilo do que Furtado nos tem habituado.

IMG_6593

Intercalando versões várias de clássicos intemporais do blues com os seus próprios clássicos (nunca imaginámos que 20 Flight Rock pudesse conviver tão bem com Fuck Christmas, I Got the Blues), Tigerman foi incendiando a plateia com riffs rasgados, solos arrepiantes e versos nasalados, que nem um bluesman do delta norte-americano. Mais perto do fim, And then Came Pain suscitou uma das maiores ovações da noite, num concerto que consagrou The Legendary Tigerman como rei e senhor do blues em terras lusas (e quiçá da Europa).

Para os mais destemidos ainda houve, no Coliseu, a Discotexas Picnic Live, com Mr. Mitshuhirato, Mirror People, Da Chick, Moullinex e Xinobi a transformar uma das mais emblemáticas salas de espectáculos do país numa pista de dança improvisada. Quanto a nós, o plano foi o regresso a casa, para recuperar as forças perdidas na roda-viva que foi este Vodafone Mexefest. Até para o ano!

Fotos: Beatriz Nunes

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945