Todos os anos a história repete-se: para combater o frio que cobre Lisboa no final do Outono, a Avenida da Liberdade deixa-se invadir pelas dezenas de concertos do Vodafone Mexefest e pelos milhares de fãs que para lá se deslocam para os apanhar. Na passada sexta-feira teve lugar a primeira noite da terceira edição do festival e, como sempre, foi recheada de escolhas difíceis, correrias e muito boa música.

“You might not be interested in war, but war is interested in you”; mesmo retiradas de contexto, estas palavras, proferidas por Kayus Bankole como jeito de introdução ao concerto, espelham bem o que foi o actuação de Young Fathers no Hotel Flórida, bem junto ao Marquês. O trio, também composto por Alloysious Massaquoi e G Hastings, e acompanhado por um percussionista, trouxe a Lisboa o seu hip-hop experimental, feroz e militante.

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Com as canções de Tape One (2011) e Tape Two (2013) na bagagem, o grupo declarou uma autêntica guerra aos nossos sentidos, com um show avassalador. Com as colunas a debitarem os viciantes graves a um volume avassalador, os Young Fathers cantaram, gritaram, dançaram e contagiaram toda a gente com a abrasividade do seu hip-hop. Low, Sister e I Heard foram destaques dum concerto que, apesar de curto, estabeleceu uma bitola bem elevada para todo o Mexefest.

Perdidos os shuttles, descemos a pé para o Cinema São Jorge, onde Márcia começava já o seu espectáculo. No regresso à sala principal do edifício, depois da apresentação de Casulo, editado este ano, a portuguesa trouxe um som mais “cheio” e encorpado e alguns convidados especiais. O tempo escasseou e não deu para apanhar nenhum cheirinho de Samuel Úria nem de António Zambujo, mas conseguimos, ainda assim, atestar a qualidade do alinhamento de Márcia, com Cabra Cega (palmas para o dançarino solitário da fila da frente) e Delicado a serem muito bem recebidos pelo público, num concerto com sabor a consagração.

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Depois de um saltinho no Delta Q Avenida, para ver, por um par de minutos, a airosa Sequin desfilar a sua synthpop perante uma plateia bem composta, seguimos para o palco Vodafone.fm, na estação da Refer do Rossio, para apanhar JP Simões. Substituindo John Wizards, o português fez-se acompanhar de guitarrista e saxofonista, num concerto para um público muito morno.

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A plateia, desfalcada, ainda deu algumas gargalhadas com o humor cáustico de Simões, bem presente em Gosto de Me Drogar e Marcha dos Implacáveis, mas a verdade é que, com aquela acústica terrível e com tão pouca gente, a actuação deste grande vulto da música nacional foi muito mal aproveitada.

Despachamo-nos para chegar ao Coliseu, para o primeiro grande concerto da noite: Savages. Vestidas de negro, como manda a tradição post-punk, as britânicas levaram até à maior sala do festival um número bem generoso de fãs, ansiosos de ouvir as canções de Silence Yourself, disco de estreia lançado este ano. Chegámos mesmo a tempo de ouvir a primeira grande explosão da noite, She Will, que, apesar da aparente descoordenação da secção rítmica, levou ao êxtase a plateia.

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As violentas descargas de distorção que o grupo foi atirando fundiram-se de forma perfeita com a postura, imponente e aterradora, de Jehnny Beth, vocalista do grupo. Cousins e Don’t Let the Fuckers Get You Down, tocadas ao cair do pano, ribombaram de forma intensa no público, comprovando os méritos das Savages enquanto autêntica brigada de artilharia do post-punk do novo século. Só nos resta esperar que venham cá mais uma vez, mas em nome próprio.

Novamente no shuttle, subimos a Avenida de regresso a um São Jorge a rebentar pelas costuras. O motivo? John Grant, que, com a companhia da sua banda, apresentou Pale Green Ghosts (2013) e revisitou alguns dos temas de Queen of Denmark (2010). Das escadas, deu para ver um público rendido a este norte-americano descontraído e casual, também ele embevecido por uma plateia tão recheada.

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Grant fez também questão de, de quando em vez, ir atirando umas graçolas e piropos aos portugueses (em particular para os homens, fez questão de ressalvar), mas foram as canções que nos conquistaram. Marz, clássico de 2010, e It Doesn’t Really Matter to Him, da colheita deste ano, foram sem dúvida pontos altos que levaram ao êxtase a sala principal do Cinema São Jorge.

Regressamos ao shuttle, desta vez para descer até ao Ateneu Comercial, casa da Sala Super Bock Super Rock, onde, segundo nos disseram, os Wavves estão a fazer trinta por uma linha e a causar mais uma enchente. Quando chegamos, o cenário não poderia ser mais high-schooler; ginásio cheio, miúdos em polvorosa e Nathan Williams, bem bezano (e não só), a incitar ao mosh e ao crowdsurfing.

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A receita da banda, bem presente em King of the Beach (2010) e Afraid of Heights (2013), é muito simples: pop punk juvenil, cheio de fuzz, com cheiro a ganza e sabor a cerveja. O resultado é, ao vivo, uma autêntica rebelião em forma de concerto, com toda a gente a acabar a noite suada e cansada, mas feliz. King of the Beach, Post-Acid, Sail to the Sun e, no encerramento, Green Eyes fizeram as delícias de todos. A acústica não era a melhor, mas o que interessa a qualidade de som quando a distorção está no máximo, o palco está a ser invadido e o vocalista está a atirar-se para cima do público e a distribuir whiskey?

De volta ao mundo adulto (leia-se: aborrecido), damos mais uns passos até ao Coliseu, para a actuação de Woodkid. O francês, de seu nome Yoann Lemoine, atraiu até à Rua das Portas de Santo Antão a maior enchente do primeiro dia. A culpa há-de ser de The Golden Age, disco de estreia do artista lançado este ano e que tem feito as delícias de muitos com a sua neofolk barroca e épica.

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Infelizmente, não posso dizer que morra de amores pela música de Lemoine, pelo que o concerto no Coliseu serviria para, quanto muito, fazer a prova dos nove. Mas a verdade é que, mesmo com todo o aparato visual e toda a pompa do instrumental, a música de Woodkid continuou a soar, mesmo ao vivo, insonsa e inchada. Porém, não se pode dizer que tenha sido um mau show, pelo menos no que toca a agradar o público; canções como Run Boy Run, I Love You e Iron levaram a plateia ao rubro. Com uma estreia tão feliz em solo nacional, não será de espantar se Woodkid regressar em breve a Portugal.

Contudo, na “porta ao lado” (isto é, no Ateneu) estava, para os menos impressionáveis, RAC, que até às duas da manhã distribuiu alguma da sua electronica e house viciante. Debitando remixes atrás de remixes (com particular destaque para Blue Jeans de Lana Del Rey), o DJ conseguiu que alguma da plateia gastasse as últimas baterias da noite antes do regresso à base.

No segundo dia, houve CíceroMoMo Wado (projecto Brasil d’agora), DaughterErlend Oye, Oh LandBraids The Legendary Tigerman, entre outros nomes.

Fotos: Beatriz Nunes

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945