Cortantes, cortantes foram as barras que Fuse, Maze, Mundo e Expeão cuspiram no palco do TMN ao Vivo, mais até do que o frio gélido que se fazia sentir lá fora. O veterano colectivo gaiense/portuense Dealema encheu o palco ao longo de uma hora e vinte minutos de concerto, mostrando que a idade só lhes fez bem, tendo-os tornado mais acutilantes se necessário.

A sala estava bem composta (apesar do andar de cima não ter sido aberto) por um público expectante para voltar a ver os Dealema em Lisboa. Foi necessária alguma paciência, pois houve o atraso de uma hora, mas, por volta das 23:00h, soou o alarme e Entra na Cripta começou a ecoar nas paredes do TMN. Os quatro MC’s, acompanhados por DJ Guze, diligente acólito do turntable e do scratching, dão início às hostilidades com Arte de Viver, hasteando a bandeira de tudo aquilo que os Dealema pretendem promover: «Paz, amor, união e divertimento». Mas não é só de rambóia que a música do grupo é feita, seguindo-se uma daquelas battle tracks à antiga, Infiéis, para mostrar que não estão para brincadeiras.

O som esteve equilibrado, se bem que os graves por vezes engolissem algumas das samples que permeiam as músicas do grupo, como em Bófiafobia, hino anti-repressão policial, que faz uso da sempre clássica Shook Ones II dos lendários Mobb Deep. Falando em grupos dos anos 90, Escola dos 90 foi outro dos temas apresentados, aludindo para a pureza do movimento hip-hop dessa década que os Dealema se dizem representar (e fazem-no, efectivamente) e repudiando a estupidificação e estetização bacoca que flagela o género actualmente. E se os Dealema conseguem transmitir alguma coisa, é genuinidade e apreço pelos fãs, característica cristalizada em A Cena Toda, onde houve um claro rejubilo por parte da audiência quando Expeão disse: «Saudações gente da grande Lisboa/Quando vamos aí oh mano é grande loucura».

Depois do sentimento exalado por Talento Clandestino, seguiu-se Família Malícia e a sua dissecação da família totalmente disfuncional da personagem António Centopeia, director de filmes pornográficos, e companhia. Aqui, os Dealema mostram a sua capacidade de contar uma história, com um grafismo que roça o desconfortável quando Fuse se refere ao filho mais novo da família: «O pai deu-lhe um fato de latex no aniversário / Parabéns Toni, vais ser actor secundário». Tendo enchido o TMN de demónios, foi altura de os purgar com Mais Uma Sessão, faixa onde cada MC é apresentado e dá um ar da sua graça, com um estilo e flow distintos. Mundo é mais ponderado e sapiente ao passo que Fuse é um portento, com uma voz cheia de gravil e um dote para o lirismo gráfico. Maze tem uma energia notável na sua velocidade e entrega (e isso reflectiu-se na forma como se movimentava pelo palco) e Expeão tem um flow sombrio e esguio, fazendo jus ao seu epíteto. O que é notável neste grupo é como nenhum MC se sobrepõe aos outros, não há um choque de egos, e este entrosamento é um dos motivos para o sucesso e longevidade dos Dealema.

Seguiu-se um dos momentos mais altos da noite, Sala 101, com um beat sensacional a acompanhar uma temática de violência e pobreza social que continua a assolar a vida urbana, tendo também um dos melhores refrães que os Dealema já congeminaram:

«Ignorância gera violência, nela nunca procurei abrigo
Cultivo a paz pela subsistência da existência deste universo onde resido
Se estás a um passo do abismo pensa bem,
Será que vale mesmo a pena ir mais além?
A consequência do acto torna-te refém,
Não queiras para os outros o que não queres para ti também».

Depois de mais grandes temas de A Grande Tribulação, como A Última Criança e Léxico Desléxico (uma das melhores batidas da noite), chegámos à primeira surpresa da noite. Depois de terem convidado todos os presentes a comparecerem no Santiago Alquimista no dia 20 de Dezembro para o concerto de apresentação de Alvorada da Alma, os Dealema convidaram Ace, dos Mind the Gap, para estrear Bom Dia, o single desse novo álbum. Esta música, que conta com os créditos de produção de DJ Guze, revela a viragem que os Dealema farão no novo trabalho para um conteúdo mais positivo, mas não menos ligeiro. Ace ia-se a escapulir do palco, mas foi obrigado a voltar para cantar um tema que muitos de nós conhecemos (nem que seja à custa dos malfadados Morangos com Açúcar). Falo de Brilhantes Diamantes, música original de Serial que contou com Maze e Ace.

Esta não seria a única música nova a ser revelada, já que NBC também subiu ao palco para emprestar o seu vozeirão no refrão de Vive…. Teria sido uma estreia de sonho, não tivesse Maze esquecido parte das letras a meio, mas o próprio admitiu humildemente que no dia 20 já teria tudo sabido. Depois de encarecidos agradecimentos e de relembrar que os 17 anos de história dos Dealema se fizeram com uma forte relação com Lisboa, o colectivo partiu para a última música, Nada Dura Para Sempre, com a participação de Ana Lú. E foi assim, num clima intimista, onde o público chegou a cantar o refrão mais alto do que os artistas em palco, que se findou um concerto onde foi provado que o hip-hop nacional está de saúde e recomenda-se, se procurado nos sítios certos. O TMN ao Vivo, neste passado dia 23, foi um deles.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945