Findado o concerto que o veterano conjunto de hip-hop deu no TMN ao Vivo, aquando do encerramento do Misty Fest, no passado dia 23 de Novembro, o Espalha-Factos teve a oportunidade de entrevistar Mundo e Maze, dois dos MC’s que compõem os Dealema. Falámos da sua prestação, do álbum novo (Alvorada da Alma, designação familiar para quem acompanha a banda, já que a música Sala 101 tem a letra «As trevas antecedem a alvorada da alma») e do estatuto do conjunto no panorama do hip-hop nacional.

EF: Boa noite, primeiramente gostávamos de vos felicitar pelo grande concerto que deram. Já tinham saudades de vir a Lisboa?

Mundo: Já, bastantes. Bastantes mesmo.

Maze: É sempre bom vir cá, somos sempre muito bem recebidos. Nós temos memórias de concertos em Lisboa espetaculares… desde o Ritz…

Mundo: Talvez em ’98, ou ’99.

Maze: Sim, foi a primeira vez que viemos cá.

EF: E guardam essa memória…

Mundo: (interrompe) Sim, sim, nós falamos disso todos os anos (risos).

EF: E como é que acham que correu o concerto? Gostaram tanto quanto o público?

Maze: Divertimo-nos muito em palco.

Mundo: Muita energia, muitos sorrisos nas faces, o pessoal a cantar as letras, que é das coisas que nos faz continuar a fazer música. Tudo muito positivo.

EF: Álbum novo aí à porta, sai daqui a 3 semanas. Quais são os vossos planos num futuro próximo?

Mundo: Basicamente é fazermos estrada com o Alvorada da Alma. Tentar dar o maior número de concertos possível para fazê-lo chegar ao máximo de pessoas possível. Se conseguirmos, queremos dar alguns concertos além-fronteiras, em países de língua oficial portuguesa, que é um objectivo que nós temos.

Maze: Até porque este disco tem alguns convidados internacionais e se calhar isso pode facilitar até esse processo de começarmos a ir às comunidades.

EF: Mas já estão a ter conversações nesse sentido ou é uma coisa na qual ainda estão a pensar?

Maze: Temos alguns contactos…

Mundo: Temos conversações, mas como devem imaginar somos uma banda de cinco, mais a equipa, o que faz de nós entre oito a dez pessoas. Para conseguires financiamento para estas viagens todas leva um pouco de tempo e tem de haver um bom trabalho além-fronteiras para que tudo corra bem e seja viável, digamos assim. Mas já temos bons contactos para que isso aconteça.

EF: A propósito do álbum, permitam-nos fazer um trocadilho. Nesta fase de grande tribulação que o país atravessa, vocês anunciam o lançamento de um álbum mais positivo. Foi uma coisa espontânea ou encetaram um processo criativo onde consideraram o positivismo um antídoto para o estamos a atravessar?

Maze: Completamente, até porque n’ A Grande Tribulação nós já preenchemos uma etapa do nosso caminho. Temos várias, mas essa é muito direcionada para o período mais obscuro e mais difícil que estamos a passar. Quem quiser ouvir essas mensagens, elas estão lá e o disco é intemporal. Podem ouvi-las ainda hoje mas o Alvorada da Alma é o passo a seguir, é o dia a seguir à escuridão e é um acordar para um novo dia cheio de esperança e construir um futuro melhor.

EF: É como manda o velho ditado: A seguir à tempestade…

Maze: Vem a bonança, exacto, é um bocado isso.

EF: E relativamente à grande quantidade de convidados que vocês tiveram, foi também um processo espontâneo ou acharam que o número de convidados refletiria num maior ecletismo nas músicas?

Mundo: Foi mesmo o próprio conceito do disco. Nós já há algum tempo que queríamos ter alguns convidados no disco e achámos que este disco, devido à roupagem que fomos fazendo das músicas que pedia alguns vocalistas de outros estilos e foi basicamente isso. Estamos a falar de pessoas que também já conhecemos há muitos anos e que admiramos o seu trabalho e já há muito tempo que queríamos ter estas pessoas a trabalhar connosco. Decidimos “olha se calhar agora vamos abrir aqui uma porta e criar um universo diferente daquilo que costumamos fazer” e convidámos as pessoas que logo vieram gravar no nosso estúdio. Foi o caso do Kid MC, que veio directamente de Angola para o nosso estúdio. O próprio Hemicida, que veio do Brasil em tour e aproveitou para gravar.

Maze: Eu acho que essa proximidade e esse contacto se sentem no disco. Dão coesão ao disco todo, esse contacto de amizade, de haver aí um laço, de estarmos próximos e de não termos gravado as coisas à distância, como se faz actualmente, porque não há tempo para as pessoas disponibilizarem umas horas ou uma viagem para estarem juntas em estúdio. Foi bom, foi mesmo um processo espectacular de gravação.

EF: Vocês são um dos coletivos de hip-hop mais veteranos do país, já são 17 anos. Qual é o balanço que fazem? Sentem que o hip-hop nacional tem vindo a crescer?

Mundo: Sim, tem crescido bastante. Há um chamado circuito de concertos, circuito de álbuns… Crescem cada vez mais coisas à volta do hip-hop, há fotógrafos de hip-hop, há sites de hip-hop

Maze: Tudo, tudo e há pessoal a fazer as quatro vertentes com grande nível e a dar cartas no estrangeiro. Acho que sim, que está em muito boa forma.

Mundo: Está instalado, a cultura está instalada.

EF: Vocês, enquanto artistas mais experientes, sentem alguma responsabilidade quanto aos MC’s mais “verdinhos” que estão aí a aparecer? Sentem-se uma espécie de mentores?

Mundo: A responsabilidade que temos é a de fazer o melhor que podemos e sabemos e a partir daí é um processo natural. Nós próprios, quando começámos, procurámos boas referências no hip-hop, na altura não eram portuguesas, nós ouvíamos muito hip-hop americano. Mas pronto, referências em grupos que ainda hoje existem e continuam a fazer hip-hop. E, graças a Deus, para esta nova geração já existem referências portuguesas, o que para nós foi complicado quando começámos.

Maze: Nós abrimos aí caminho e agora há pessoal a inspirar-se no que nós fizemos, os que vieram a seguir a nós.

Mundo: Mas não sentimos aquela responsabilidade do tipo «temos pessoal novo, temos de isto e a aquilo…» não, não, não, a responsabilidade é fazer aquilo que gostamos e passar essa mensagem, «faz aquilo que tu gostas, faz o melhor que tu puderes».

Maze: Eu acho que nós tentamos liderar um bocado pelo exemplo. A maneira de estarmos, a experiência que ganhámos nestes anos todos, a maneira como fazemos as coisas, tudo isso poderá servir de inspiração para quem nos tem como referência. Pode ser um incentivo.

EF: E agora, para acabar, uma pergunta um bocadinho mais política. Quem segue o vosso trabalho sabe que vocês têm uma posição bem-definida quanto às forças policiais. Vocês acham que aquilo que se passou na quinta-feira [dia 21 de Novembro, aquando da manifestação que membros das forças policiais fizeram em frente à Assembleia da República] em frente ao Parlamento abre um precedente?

Mundo: Olha, eu vou ser honesto contigo. Eu vi isso de relance, porque nestes últimos dias andámos ocupadíssimos com entrevistas e a promover o álbum, mas…

Maze: Por acaso ouvimos a manifestação ao longe, passamos e ouvimos… mas na altura não sabíamos o que estava a acontecer, estávamos um bocado desligados dos meios de comunicação social e depois viemos a saber o que é que tinha realmente acontecido.

Mundo: A minha posição em relação a estas coisas que têm acontecido, acho que todas as pessoas devem lutar pelos seus direitos, independentemente da profissão que tenham. Qualquer um deve reivindicar aquilo que acha a que tem direito e essa é a nossa posição política, não é esquerda ou direita.

Maze: É liberdade.

Mundo: É liberdade de poderes escolher e reivindicares aquilo a que tens direito.

Aproveita e ouve aqui Bom Diasingle de avanço de Alvorada da Alma:

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945