Existem dias que mudam o rumo da História… e noites ainda mais fulcrais que os antecedem. Regressemos à madrugada de 24 de abril de 1974. A rotina semi-controlada segue o seu rumo numa redação de Lisboa. Entremos nela no Teatro da Trindade com A Noite, o primeiro texto dramático escrito pelo Nobel português, José Saramago.

Pequenas insurreições confrontam o nosso olhar perante uma redação dividida entre os que se conformam e os que resistem pelos seus ideais. Contra a penetração sublime do poder, contra a mentira, contra a manipulação da realidade.

A Noite não nos conta apenas a Revolução de abril. Felizmente. A obra de José Saramago traz-nos acima de tudo uma reflexão constante sobre o impacto de um poder que se quer invisível. Incubadora de vontades de mudança, esta redação é o exemplo perfeito de quem resiste em prol da liberdade de pensamento e expressão. Mas não se esquece de nos revelar aqueles que se moldaram ao sistema, em busca de uma estabilidade que não é a deles… mas que os satisfaz.

Sem artificialismos, num registo de naturalidade em cena, A Noite envolve-nos. Um abraço não físico, mas mental, sem cair em demasias. Sempre que tomamos consciência da seriedade que assombra os temas discutidos em palco, eis que a ação nos corta o fluxo de pensamento com jogadas de humor no segundo certo. Assistimos à distância, como alguém que não se quer envolver, com medo das consequências.

Autora: Tânia Frade

Autora: Tânia Frade

Até 29 de dezembro, este elenco bem conhecido do público português (Vítor Norte, Paulo Pires, João Lagarto, Sofia Sá da Bandeira, Joana Santos, Filipe Crawford, Pedro Lima, Samuel Alves e Fábio Alves) traz-nos um trabalho de grande sensibilidade, encenado por José Carlos Garcia e com texto adaptado de Paulo Sousa Costa.

Passaram-se quase 40 anos e pouco parece ter mudado quando comparamos a obra de 1979 aos dias de hoje. Mudam os contextos, é certo, mas a luta por certos ideais mantém-se, transversal ao tempo.

Contudo, continuamos hoje a desconhecer os mecanismos de poder que interferem na nossa visão ‘objetiva’ do mundo, no nosso pensamento, nas nossas ações. Todos nós nos deixamos contaminar. Permanecemos agrilhoados pelos constrangimentos, pelas teias de um poder que não sabemos a origem. Recusamos resistir, aceitamos o que nos é imposto.

Resta-nos acreditar que um dia todos escreveremos jornais, como afirmou Saramago a partir de um autor desconhecido. O tempo tem-no demonstrado. Resta-nos lutar para que o possamos fazer com a maior das liberdades nas nossas palavras.