Miguel Leão, criador de Overacting, série emitida na SIC Radical, conversou com o Espalha-Factos. O jovem realizador de 24 anos, licenciado em Audiovisual e Multimédia pela Escola Superior de Comunicação Social,  é também guionista, editor de vídeo e ator na série que criou.

Espalha-Factos: Vives com intensidade, em Overacting?

Miguel Leão: Nem por isso. Há momentos. Acho que a série é um bocado inspirada no exagero que a minha vida pode atingir, mas não é o meu dia-a-dia. Sou um gajo pacato, até. Mas, às vezes, há situações que descambam para esse lado, claro. Até tenho amigos meus que fazem Overacting na vida real, tipo o Gui [Guilherme, produtor da série], [risos] às vezes, estava connosco no carro e eu pensei: este gajo parece que está nos Morangos. Foi aí que eu comecei a criar a ideia. E se a vida real fosse assim? Mas a minha vida real não é assim.

«Nós filmámos a curta no verão; em vez de estarmos de férias, fomos filmar.»

EF: Mas gostas de ‘fazer acontecer’?

ML: Sim, sim. Eu não gosto de estar parado. Aliás, eu, o Toscano [João Toscano, diretor de fotografia da série] e o Gui fomos os que criámos a produtora e criámos o Overacting. Fazíamos sempre curtas, nunca estivemos parados. Sempre que estive na ESCS [Escola Superior de Comunicação Social] fazia curtas, fiz 20 curtas. Não ia às aulas, ok [risos], mas não gostava de estar parado. Nós filmámos a curta no verão; em vez de estarmos de férias, fomos filmar.

EF: Overacting é um tipo de inception, ou seja, uma série dentro de uma série. Isto permite que as personagens comuniquem com a câmara e a câmara com elas. Achas que isto cria uma relação entre o público e a ação?

ML: Essa pergunta é das melhores perguntas que já me fizeram. Porquê?  Porque quando eu criei o conceito – e eu gosto de escrever para ser eu a realizar – eu pensei no que estava “a bater” na televisão. Na altura, aquilo que eu mais gostava: The Office, Modern Family eram duas das grandes referências das séries de comédia. E o que é que eles usam muito? É essa cumplicidade com o espetador. Mas eu não queria ir para o mockumentary, era algo que muita gente estava a fazer. Eu queria retirar isso da realização mas não tirar esse conceito. Depois de eu ter a noção da câmara e a liberdade, o Mega [personagem principal de Overacting] pode criar uma relação com o espetador, fazendo assim [simula o gesto] para a câmara tipo à Ricky Gervais, estás a ver? Quis não usar como eles faziam mas retirar isso, ou seja, a tentativa de criar uma cumplicidade com o público através dessa linguagem de realização e partir do conceito de que é uma série dentro de uma série como eu imaginei. Ele não tem vida cá fora; as personagens estão fechadas numa ficção. A melhor analogia são os desenhos animados: não são os atores, são as personagens, mas têm noção das câmaras. Muitas vezes os desenhos animados falam para a câmara. Se pensares, acho que o mais parecido com o mockumentary são os desenhos animados. Não são atores, são personagens escritas e desenhadas que lá aparecem, mas muitas vezes têm noção da cena.

EF: O diretor da SIC Radical, Pedro Boucherie Mendes, acreditou logo em vocês?

ML: Sim, ele foi o meu maior apoiante. Ele gostou muito do meu humor, que era um humor e linguagem interessante, e foi ele mesmo que me teve a acompanhar no processo. Eu falei sempre diretamente com ele. Mandei-lhe a curta, ele gostou. Eu vi o piloto com ele. Ele disse que isto estava bom mas que devias melhorar aqui, aqui e aqui. Disse-me que isto era uma linguagem de televisão e que havia partes que ainda estavam “muito curta”. O Pedro Boucherie foi um grande bacano para mim, ele ajudou-me mesmo.

Miguel Leão

«Eu não sou ator, estás a ver, mas consigo fazer de Mega porque como tu calculaste, é um bocado de mim.»

EF: Como é que surgiram as participações especiais como a do Batatoon, José Figueiras, David Almeida, Almeno Gonçalves e também do Francisco Areosa?

ML: E a Joana Metrass e a Sofia Lopes… pronto, não são tuas conhecidas mas vão ser, garanto. Mas pronto, foi o que  disse: quando comecei a escrever… o conceito da série parte de “eu faço o que me apetece”, é mesmo a aparvalhar com isso. O Mega pode fazer o que lhe apetece. Uma pessoa chateia-o e ele tira o som. O gajo queria pôr o Batatinha e pôs. E eu nos guiões pensei: era giro baralhar isto tudo, bora meter aqui tipo… pronto, conseguimos as participações, contactámos as pessoas, mostramos o projecto. Uns disseram que não, outros disseram que sim. Esses quatro foram todos muito simpáticos. E para mim a maior cena foi contracenar com atores já com uma experiência, é diferente. Eu não sou ator,  mas consigo fazer de Mega porque como tu calculaste, é um bocado de mim. Consigo ir lá e exaltar isso.

EF: Um  alter-ego?

ML: Sim, é um bocado um alter-ego. Tenho vários, por isso… Pode se assumir que será esse um deles. Contracenar com atores com a experiência e com pessoas com hábito da câmara é muito diferente… estares a fazer acting é muito de estímulos, é muito de resposta. Puxam mais por ti e não sei quê. E nessa parte foi muito bom. Dá muito mais valor aos episódios.

EF: O ator Francisco Areosa fez a direção de atores, ele que já tem experiência na televisão. Achas que isso ajudou também para o sucesso do Overacting?

ML: Sim. Eu conheci o Chico [Francisco Areosa] numa curta que nós fizemos também que era O Frio – estreou na mesma altura que o Overacting – e depois quando lhe falei deste projecto, ele também mostrou interesse em fazer a direção de atores porque ele tem muita experiência. Acho que foi essencial porque havia muita gente que nunca tinha feito nada… desde miúdas da ESCS, amigas minhas, eu também fiz um casting vasto a raparigas, porque o Mega queria rodear-se de raparigas giras, não é… a culpa não é minha! [risos] E acho que foi muito bom termos uma pessoa que tem noção, que já esteve em montes de decors e muitas filmagens. É a diferença que faz uma pessoa estar a fazer uma coisa de uma maneira, ou a mexer mão ou não. Há aí pormenores que ele ajudou muito.

«Se forem pessoas que merecem ser ofendidas, não tenho problema nenhum em ofender.»

EF: Fala-se muito dos limites do humor e sendo o Overacting uma sitcom, qual era a tua perspetiva sobre isso quando estavas a escrever? O que te guiava no processo criativo? Até onde podias ir?

ML: Eu fui quebrando as barreiras para ver até onde podia ir, e ainda quero quebrar mais. Acho que o humor não pode ter barreiras, desde que não seja cenas má onda.

EF: Sem ofender?

ML: Sem ofender cenas sérias. Se forem pessoas que merecem ser ofendidas, não tenho problema nenhum em ofender. São pessoas que se metem a jeito. É a vida. Também podem gozar comigo e dizer que eu sou mau ator eu… Ofender é um conceito vago, é uma palavra vaga. Mas pronto, eu fui tentando quebrar os limites dentro de mim, comecei um bocado com medo…

EF: Contido?

MG: Sim, e eu depois também arranjei uma assistente de escrita, que era uma amiga minha que é psicóloga, a Carmo Coutinho, e ela também é maluca da cabeça. Nós começamos a criar uma dinâmica, a escrita começou-se a soltar, piadas que podiam acontecer, diálogos… Ou seja, o limite do humor no Overacting, espero um dia que não seja nenhum, mas aqui era novo, ainda estava a 60%.

Miguel Leão

«Portugal é muito prolífero em ideias para brincar.»

EF: Disseste que querias ainda ultrapassar mais os limites do humor. Ainda há mais estereótipos no audiovisual para retratares na segunda temporada de Overacting?

ML: Há, há. Primeiro foram só cinco episódios, é pouco, apesar de termos quase morrido a fazê-los. Foi muito trabalho e muito pouco tempo. Acho que há muito, muito, muito para explorar. E muitas pessoas com quem eu gostava de contracenar. Gostava de chamar o José Rodrigues dos Santos para a segunda série.

EF: Achas que ele vai aceitar?

ML: Acho que sim [risos]. Eu sou um fã dos livros dele e acho que é uma personagem interessante para meter lá no meio.

EF: E convidá-lo para escrever um episódio?

ML: Olha, isso ainda era melhor! Quem sabe… mas isso se calhar já é mais complicado. Filmar é uma tarde e despacha-se. Mas Portugal é muito prolífero em ideias para brincar.

EF: Não me queres revelar quem ficou ao lado do Mega no último episódio?

ML: Ainda não escrevi…

EF: Mas a segunda temporada está certa?

ML: Não, porque em 2014 é que eles [SIC Radical] reformulam a grelha e compram os programas. Ou seja, tenho que aguardar até janeiro mas também faltam dois meses. As indicações foi que correu bem a cena, e depois depende… os canais temáticos estão tremidos, não sei.  Temos que ver. Esperar e ver. O feedback da SIC Radical foi positivo. Quando mandaram as audiências, deram os parabéns. Quando acabou a série, eu perguntei se correu bem, como é que é, segunda série… e eles disseram que só em 2014 é que teriam uma resposta mas que a série tinha corrido muito bem. Por isso é esperar. Eu gosto de acreditar que sim.

Podes ler a entrevista na íntegra aqui.

Fotografias: Júlio Eduardo Proença