Miguel Leão, criador de Overacting, série emitida na SIC Radical, conversou com o Espalha-Factos. O jovem realizador de 24 anos, licenciado em Audiovisual e Multimédia pela Escola Superior de Comunicação Social,  é também guionista, editor de vídeo e ator na série que criou.

Espalha-Factos: Vives com intensidade, em Overacting?

Miguel Leão: Nem por isso. Há momentos. Acho que a série é um bocado inspirada no exagero que a minha vida pode atingir mas não é o meu dia-a-dia. Sou um gajo pacato, até. Mas às vezes, há situações que descambam para esse lado, claro. Até tenho amigos meus que fazem Overacting na vida real, tipo o Gui [Guilherme, produtor da série], [risos] às vezes, estava connosco no carro e eu pensei: este gajo parece que está nos Morangos. Foi aí que eu comecei a criar a ideia. E se a vida real fosse assim? Mas a minha vida real não é assim.

EF: Mas gostas de “fazer acontecer”?

ML: Sim, sim. Eu não gosto de estar parado. Aliás, eu, o Toscano [João Toscano, diretor de fotografia da série] e o Gui fomos os que criámos a produtora e criámos o Overacting. Fazíamos sempre curtas, nunca estivemos parados. Sempre que estive na ESCS [Escola Superior de Comunicação Social] fazia curtas, fiz 20 curtas. Não ia às aulas, ok (risos), mas não gostava de estar parado. Nós filmámos a curta no verão, em vez de estarmos de férias, fomos filmar.

EF: Como foi o amadurecimento da curta-metragem (estreada em 2012 na SIC Radical) para a série (estreada em setembro de 2013 na SIC Radical)?

ML: Acho que primeiro a nível técnico notou-se uma evolução.  Houve um amadurecimento. Também foi um ano depois, já tínhamos feito mais projetos. Era uma linguagem diferente, uma linguagem que eu nunca tinha explorado, que era a da televisão. Na televisão, tens de estar sempre a dar estímulos aos telespetadores. A televisão é captar a atenção. Foi uma diferença de guião logo aí. Tive de evoluir nessa direção, mas a nível de realização, de produção, foi um desafio novo, fomos aprendendo. Acho que foi um trabalho muito importante para a entrada num novo mundo e começar a aprender a fazer isso.

Miguel LeãoEF: Este conceito de sátira aos lugares comuns do audiovisual, tanto do cinema como da televisão, surgiu de onde?

ML: Foram vários fatores que eu comecei a acumular e a pensar que fazia sentido juntá-los. Incluindo as minhas curtas no início. Eu ia muito a festivais de curtas que é um mundo bastante fechado, são sempre as mesmas pessoas, o mesmo género de curtas, e eu comecei a pensar nisto depois. Realmente havia, como tu dizes, lugares comuns, há coisas que acontecem sempre, há maneiras de pegar nas histórias, ou seja, parte disso [do conceito] vem da minha experiência no mundo das curtas. A coisa mais importante é uma pessoa saber rir de si próprio e gira à volta disso. No fundo estou a fazer uma sátira a toda a televisão e a todo o cinema, mas eu estou também a gozar comigo próprio, tanto com o meu passado como com coisas que me acontecem ou que eu faço. Eu exagero. [Por exemplo] a personagem da curta portuguesa, não há ninguém mesmo assim… aquilo é se eu pegasse e exagerasse ao máximo. O Overacting é muito isso, tentar ir ao limite. Estou com confiança em ter uma segunda série e quero esticar mais, acho que ainda consigo mais. Quando comecei a escrever estou um bocado comedido, se calhar não posso dizer isto. Às tantas mesmo nos episódios se começa a aperceber de partes que descamba mesmo à grande, comecei a perceber que tinha uma certa liberdade. Por um lado a cena das curtas, por outro lado o cinema português que acho que está a mudar um bocado dessa fase mas estava estagnado num estilo. Acho que as pessoas tinham preconceito em relação ao cinema português. Acho que agora já há muitos realizadores jovens que estão a mudar e a fazer cenas diferentes e giras. Eu sempre quis fazer cinema e pensava porque é que isto tem de ser sempre assim. Além disso, claro, também cheguei a ver séries juvenis, aliás, que nunca mudam, o público é sempre o mesmo e a forma também. É um bocado pegar tudo o que eu vi até hoje e aquilo que eu achava que tinha piada, se calhar brincar vá.

EF: Overacting é um tipo de inception, ou seja, uma série dentro de uma série. Isto permite que as personagens comuniquem com a câmara e a câmara com elas. Achas que isto cria uma relação entre o público e a ação?

ML: Essa pergunta é das melhores perguntas que já me fizeram. Porquê?  Porque quando eu criei o conceito – e eu gosto de escrever para ser eu a realizar – eu pensei no que estava “a bater” na televisão, na altura, aquilo que eu mais gostava. The Office, Modern Family eram duas das grandes referências das séries de comédia. E o que é que eles usam muito? É essa cumplicidade com o espetador. Mas eu não queria ir para o mockumentary, era algo que muita gente estava a fazer. Eu queria retirar isso da realização mas não tirar esse conceito. Depois de eu ter a noção da câmara e a liberdade, o Mega [personagem principal de Overacting] pode criar uma relação com o espectador, fazendo assim [simula o gesto] para a câmara tipo à Ricky Gervais, estás a ver? Quis não usar como eles faziam mas retirar isso, ou seja, a tentativa de criar uma cumplicidade com o público através dessa linguagem de realização e partir do conceito de que é uma série dentro de uma série como eu imaginei. Ele não tem vida cá fora, portanto; as personagens estão fechadas numa ficção. A melhor analogia são os desenhos animados: não são os atores, são as personagens, mas têm noção das câmaras. Muitas vezes os desenhos animados falam para a câmara. Se pensares, acho que o mais parecido com o mockumentary são os desenhos animados. Não são atores, são personagens escritas e desenhadas que lá aparecem, mas muitas vezes têm noção da cena.

«Filmámos 100 minutos em 10 dias. Essa parte foi agressiva.»

EF: Como é que surgiu a oportunidade de ir para a SIC Radical, depois da curta, para a série?

ML: Eu fiz sempre curtas para o E2 [programa da ESCS emitido na RTP2]. Cheguei cá e disseram-me que podia fazer curtas para passarem na televisão. E eu: “A sério? Então porque não está toda a gente tipo a fazer cenas?” Então comecei a fazer curtas, passaram seis no E2. Depois, às tantas, comecei a desenvolver guiões e a querer desenvolver mais as histórias e o E2 tem 20 minutos. As minhas curtas já estavam com 15, 20 minutos… À segunda que fiz de meia hora, que se chama Uma Quadra de Dois Versos, que escrevi com o António Dias, também falamos com a minha equipa. Disseram-me que podia mandar para a Radical, que eles tinham uma cena que era o Drive In onde passavam curtas. Eu mandei e a curta passou quatro vezes. Quando fiz o Overacting, também sabia que não dava para o E2, fiz com o apoio da escola, mas mandei também para lá [SIC Radical]. E depois eles próprios é que me convidaram: “não gostavas de fazer um piloto com estas personagens e este conceito?” Eu fiz o piloto e eles compraram.

EF: O diretor da SIC Radical, Pedro Boucherie Mendes, acreditou logo em vocês?

ML: Sim, ele foi o meu maior apoiante. Ele gostou muito do meu humor, que era um humor e linguagem interessante, e foi ele mesmo que me teve a acompanhar no processo. Eu falei sempre diretamente com ele. Mandei-lhe a curta, ele gostou. Eu vi o piloto com ele. Ele disse que isto estava bom mas que devias melhorar aqui, aqui e aqui. Disse-me que isto era uma linguagem de televisão e que havia partes que ainda estavam “muito curta”. O Pedro Boucherie foi um grande bacano para mim, ele ajudou-me mesmo.

EF: Quanto ao financiamento do projecto, notaste alguma dificuldade, por não serem conhecidos no meio?

ML: Não, a SIC Radical comprou-nos a série.

EF: Foram eles que asseguraram [o financiamento]?

ML: Comprou-nos a série e pronto não foi nada de outro mundo. Eu não fui à procura de financiamento. Eles compraram-nos e nós produzimos com o orçamento que tínhamos. E fez-se.

EF: Sentiste muita pressão em cumprir os prazos?

ML: A maior pressão, para mim, foi… é isso, é porque nós estávamos a filmar maioritariamente com pessoal amador e com pessoas que estudam, então nós tivemos de ir na Páscoa por causa das férias. Então o que nós fizemos foi: pegamos nos atores todos e os técnicos todos e fomos 10 dias para a Praia da Luz e filmámos em 10 dias quase tudo. Filmámos 100 minutos em 10 dias. Essa parte foi agressiva. Para os atores foi grande rambóia. Estávamos em três casas, trinta pessoas da nossa idade – o mais velho tem 27 anos, que é o Miguel [técnico de som da série], e o Toscano que tem 26 – por isso aquilo foi uma grande rambóia, mas para mim, para o Toscano e para quem estava em todas as cenas, foi muito agressivo. Senti aquela pressão de estamos aqui e temos de acabar isto enquanto estamos cá, senão…

EF: Realizador, guionista, editor e também ator na série. A parte da realização é que tens mais contacto. Qual foi a dificuldade maior?

ML: A dificuldade maior para mim foi realmente… o nosso maior inimigo foi o tempo.  Não tínhamos controlo e capacidade de utilizar as pessoas durante muito tempo, tinha de ter a decisão de não posso estar aqui a pensar muito nisto, tenho é de conseguir transmitir… de filmar a cena de uma forma simples. Às vezes foi isso. Gostava de ter mais tempo para realizar, como eu sei que o Toscano, que é o director de fotografia – e que depois editou comigo algumas partes – também gostava de ter mais tempo para fazer fotografia. Eu acho que desta vez foi um bocado: temos é que fazer isto e vamos fazer como pudermos, e acho que mesmo assim acabou por ficar interessante. Mas acho que ainda há um caminho a percorrer e isso é bom.

Miguel Leão

«Ao trabalhares com amigos obténs uma capacidade muito maior de criar sinergias e podes aumentar o grupo facilmente porque é uma relação muito mais simples.»

EF: A Nau Productions é maioritariamente composta por amigos teus. É estimulante trabalhar com amigos?

ML: Claro, eu acho que é sempre bom, porque, por exemplo, depois as vitórias sabem sempre melhor. Estás a festejar com amigos, não estás a trabalhar por conta de ninguém. Estás a fazer uma coisa para o teu grupo. Acho que, hoje em dia, o pessoal está queixar-se que não tem trabalho. Tentem criar o próprio trabalho, juntem a malta… depois até conheces mais gente, ficas amigo de pessoas do meio. Fiquei muito amigo do Francisco Areosa [ator que interpreta a personagem Marinho] e já estou a fazer um projeto com ele. E depois a agência dele, a HIT, também é pessoal jovem, teve interesse [em nós]. Estamos a juntar-nos à HIT, eles estão a ajudar-nos com os atores e nós a ajudá-los… Ou seja, acho que ao trabalhares com amigos obténs uma capacidade muito maior de criar sinergias e podes aumentar o grupo facilmente porque é uma relação muito mais simples.

EF: Como é que surgiram as participações especiais como a do Batatoon, José Figueiras, David Almeida, Almeno Gonçalves e também o Francisco Areosa?

ML: E a Joana Metrass, e a Sofia Lopes… pronto, não são tuas conhecidas mas vão ser, garanto-te. Mas pronto, foi o que te disse: quando comecei a escrever… o conceito da série parte de “eu faço o que me apetece”, é mesmo a aparvalhar com isso. O Mega pode fazer o que lhe apetece. Uma pessoa chateia-o e ele tira o som. O gajo queria pôr o Batatinha e pôs. E eu nos guiões pensei: era giro baralhar isto tudo, bora meter aqui tipo… pronto, conseguimos as participações, contactámos as pessoas, mostramos o projecto. Uns disseram que não, outros disseram que sim. Esses quatro foram todos muito simpáticos. E para mim a maior cena foi contracenar com atores já com uma experiência, é diferente. Eu não sou ator, estás a ver, mas consigo fazer de Mega porque como tu calculaste, é um bocado de mim. Consigo ir lá e exaltar isso.

EF: Um  alter-ego?

ML: Sim,  é um bocado um alter-ego. Tenho vários, por isso… Pode se assumir que será esse um deles. Contracenar com atores com a experiência e com pessoas com hábito da câmara é muito diferente… estares a fazer acting é muito de estímulos, é muito de resposta, estás a ver. Puxam mais por ti e não sei quê. E nessa parte foi muito bom. Dá muito mais valor aos episódios.

EF: O ator Francisco Areosa fez a direcção de atores, ele que já tem experiência na televisão. Achas que isso ajudou também para o sucesso do Overacting?

ML: Sim. Eu conheci o Chico [Francisco Areosa] numa curta que nós fizemos também que era O Frio – estreou na mesma altura que o Overacting – e depois quando lhe falei deste projecto, ele também mostrou interesse em fazer a direcção de atores porque ele tem muita experiência. Acho que foi essencial porque havia muita gente que nunca tinha feito nada…desde miúdas da ESCS, amigas minhas, eu também fiz um casting vasto a raparigas, porque o Mega queria rodear-se de raparigas giras, não é… a culpa não é minha! [risos] E acho que foi muito bom termos uma pessoa que tem noção, que já esteve em montes de decors e muitas filmagens. É a diferença que faz uma pessoa estar a fazer uma coisa de uma maneira, ou a mexer mão ou não. Percebes, há aí pormenores que ele ajudou muito.

EF: Ele faz uma personagem bastante interessante, o Marinho, que tem gestos inadequados para as falas. Como é que surgiu o Marinho?

ML: O Marinho… [risos] provavelmente eu estava com os copos e comecei a pensar tipo uma pessoa que fosse disléxica mas dos movimentos. Há disléxicos que querem dizer uma coisa e baralham-se. Ele é um disléxico de movimentos e acho que quando escrevi e mostrei ao Toscano, ele temeu um bocado que aquilo resultasse, é verdade.  E eu também pensei: “ok, isto tem piada mas se não passar a piada, as pessoas vão achar – o que é que aquele gajo está a fazer?” Mas acho que o Chico, por acaso, pegou mesmo bem no personagem e toda a gente percebeu, toda a gente curtiu muito. E a personagem é assim um bocado awkward, acho que se encaixou bem, mas foi um gajo disléxico nos movimento. Eu tento sempre ver uma cena e fazer isso mas um bocado de outra maneira. Como a cena do The Office, a mesma linguagem mas seguir outro caminho. Gosto de experimentar cenas.

Miguel Leão

«Eu não estava à espera que o meu público fosse tão novo.»

EF: Como é que foram as audiências na televisão? E o feedback do público?

ML: As audiências no primeiro e no segundo foram tipo normais, relativamente baixas, mas depois começaram a aumentar bem no 3º, 4º e 5º [episódios]. Até tivemos acima de 25 mil pessoas na estreia do 3º, o que é bom à meia-noite, na SIC Radical… Aquilo não conta box, só conta as pessoas que estão a ver diretamente. Mantivemos esse patamar relativamente elevada para o horário da série, uma coisa nova e só com cinco episódios. Acho que correu bem, por isso é que estou confiante [que haja 2ª temporada]. A nível de feedback foi interessante. As pessoas que me abordaram na rua e isso… eu não estava à espera que o meu público fosse tão novo. Também se calhar, o pessoal mais velho está-se mais a cagar…

EF: Mas na SIC Radical o público é tendencialmente mais novo…

ML: Pois, é isso, foi mais um público Curto-Circuito. Pessoal do secundário, não sei quê… dos putos que gostam mais das piadas, do veículo longo, da Mary,… Ou seja, o feedback que eu tive no Facebook foi muito bom, as mensagens do pessoal a dizer que gostavam muito, qual a personagem que gostavam mais… Por exemplo, o “Meu Puto”, a malta jovem gosta daquele… é swag? Como é que diz? [risos] Mas sim, o feedback foi positivo mas não estava à espera que o público fosse tão novo.

EF: A série passou no horário-nobre da SIC Radical, às 00h45, à segunda-feira. Foi um reconhecimento do trabalho realizado por vocês?

ML: Sim, eu penso que sim, eu acho que eles começaram a perceber que podia resultar e até, depois, aumentaram os horários. Tanto que aquilo ia dar uma vez por semana e depois começou a dar cinco vezes por semana, estás a ver? Ia dar tipo três. Dar às segundas, repetir às terças e aos sábados. E começou a dar sete vezes em cinco dias. Sim, acho que foi um reconhecimento e acho que uma das vantagens aqui – para a qual se deve olhar – é que [Overacting] é uma produção totalmente nacional, feita por jovens. Nós pegamos nas coisas e fizemos. Acho que a televisão comprar programas espanhóis e pagar ainda mais… porquê não apostar nisto? Ainda por cima se têm audiências. Se fosse um grande flop… Eu aí dizia “ok, my bad“, comprem lá as vossas cenas. Acho que está a começar um movimento fixe, uma geração que produz qualidade de conteúdos e, hoje, com os avanços técnicos é possível filmar com material acessível. Uma câmara já não é 30 mil euros. Por 5 mil euros compras uma câmara e ficas com qualidade. O Dr. House é filmado com uma 5D e nós filmámos com uma 5D. Por isso, hoje em dia já consegues filmar com uma grande qualidade e acho que isso é uma das cenas mais importantes: apostar na produção nacional, jovem, nestes canais temáticos é o que, para mim, faz mais sentido. Tipo Bruno Aleixo, faz muito sentido, nós, o Filho da Pub, grande programa. E é inteligente. Calculo que fique mais barato ou ao mesmo preço.

EF: Na série utilizas o coelho cor-de-rosa, a mascote da ESCS. Em entrevista disseste: “Fazia todo o sentido ter o nome da escola associado à série”. Porquê?

ML: Exatamente como já falei antes, entre para cá e comecei a trabalhar sempre associado à escola. Todos os meus trabalhos – como eu já disse, fiz cerca de 20 curtas-metragens – tiveram o apoio da escola, tanto do E2 com as produtoras iniciais, a Hélia Rodrigues, que foi a minha primeira produtora, agora a Marta… Como eu fiz sempre trabalhos com a ESCS e a ESCS sempre me apoiou… o professor Sendim, que hoje em dia é o vice-presidente, acho eu, antes era do audiovisual. Eu sempre contactei com ele, viu que os nossos produtos eram séries, que não estávamos aqui a brincar. Consegui alugar o material durante dez dias para filmar a Mexetrada, que foi um documentário, a nossa primeira longa-metragem, que estreou depois no MUDE, porque aquilo era sobre design. Tanto como recebi, acho que consegui sempre dar. Divulgava o nome, as curtas que apareciam na Radical, o primeiro logo era sempre da ESCS. E eu sempre tive orgulho e fui grato à ajuda que a ESCS me deu. Por isso, o primeiro trabalho profissional como vai ter mais impacto, mais gente vai ver, acho que fazia todo o sentido manter-me ao lado, no fundo, de quem esteve sempre comigo ao meu lado.

EF: Como é que nasceu a Nau Productions?

ML: Nos últimos anos da licenciatura continuamos a fazer curtas. Quando filmamos essas duas últimas curtas, o Overacting e O Frio com o Francisco Areosa, nós queríamos expô-las. Estávamos a acabar o curso e em vez de trabalhar só em nome próprio, criamos uma entidade que representa o nosso trabalho. Então, eu, o Guilherme Costa e o João Toscano – os três – criamos a Nau Productions que teve inauguração no LX Factory em que estreamos exatamente essas duas curtas. E que depois veio a dar a série Overacting. Ou seja, foi um passo lógico, éramos estudantes, fazíamos as nossas coisas. Paramos de ser estudantes, em vez de fazermos as nossas coisas sozinhos…

EF: Em que áreas trabalham? Fazem anúncios?

ML: Sim, fizemos agora uma parceria com a AdFamilies. Está agora a começar, fizemos uns quatro anúncios em que usamos as personagens do Overacting, também publicitar a série. É anúncios low-cost porque esta é a área onde há mais investimento. Nós não temos capacidade para competir com a [produtora] Ministério dos Filmes ou produtoras gigantes, mas fazemos anúncios para empresas mais pequenas como a AdFamilies ou empresas da start up. Depois também temos a Nau Weedings. Vamos abrir o site e dividir mesmo por áreas. Já filmámos vários casamentos… não é um trabalho que eu goste muito mas é um trabalho que existe.

EF: Dá também para o financiamento?

ML: Exato. O nosso objectivo é ficção. Aliás, estamos a desenvolver um piloto novo que depois vamos tentar vender. É uma parceria com a HIT [agência HIT Management] que o Francisco Areosa nos propôs. Vamos filmar agora em novembro. Depois temos uma Nau para desportos radicais. As marcas de hoje em dia querem ter tipo filmes com qualidade. Nós somos um bocado uma produtora low-cost no sentido em que sou eu e o Toscano que fazemos tudo: filmámos, editámos, criamos o conceito. Fica muito mais em conta. Temos também os desportos radicais… mas ficção é o que eu quero fazer.

Miguel Leão

«Eu quando exagero no personagem é mais no passado do cinema do que com o atual.»

EF: A tua área específica é a realização mas no Overacting desenvolves o guionismo também. A escrita surge por necessidade ou por vontade?

ML: Não, por vontade. As curtas todas que filmei, escrevi-as. É uma coisa que eu gosto mesmo de fazer, eu gosto de escrever. Eu gostei de escrever os guiões. Foi uma grande trabalheira, demorei tipo três meses… nunca tinha escrito para televisão. Estudar, fazer pesquisa sobre os guiões, os momentos. Aprendi muito sobre guiões a escrever o Overacting. Sacava o piloto do Is Always Funny In Philadelphia, dividia por cenas, via quantas piadas havia por cena,… foi interessante, mas eu gosto, não é por necessidade, é mesmo porque quero. Eu gosto de escrever.

EF: Fala-se muito dos limites do humor e sendo o Overacting uma sitcom, qual era a tua perspetiva sobre isso quando estavas a escrever? O que te guiava no processo criativo? Até onde podias ir?

ML: Eu fui quebrando as barreiras para ver até onde podia ir, e ainda quero quebrar mais. Acho que o humor não pode ter barreiras, desde que não seja cenas má onda.

EF: Sem ofender?

ML: Sem ofender cenas sérias. Se forem pessoas que merecem ser ofendidas, não tenho problema nenhum em ofender. São pessoas que se metem a jeito. É a vida. Também podem gozar comigo e dizer que eu sou mau ator eu,… Ofender é um conceito vago, é uma palavra vaga. Mas pronto, eu fui tentando quebrar os limites dentro de mim, comecei um bocado com medo…

EF: Contido?

ML: Sim, e eu depois também arranjei uma assistente de escrita, que era uma amiga minha que é psicóloga, a Carmo Coutinho, e ela também é maluca da cabeça. Nós começamos a criar uma dinâmica, a escrita começou-se a soltar, piadas que podiam acontecer, diálogos… Ou seja, o limite do humor no Overacting,  espero um dia que não seja nenhum, mas aqui era novo, ainda estava a 60%.

EF: Uma das personagens que tu já mencionaste foi a personagem da curta portuguesa. Achas que o cinema português está limitado às mesmas fórmulas?

ML: Acho que já esteve mais. A [personagem] curta-metragem portuguesa, mais do que uma referência a Portugal, é uma referência à minha experiência. As curtas que eu fiz, as curtas que eram mostradas… todos os anos os alunos fazem curtas. Eu vi quatro anos de curtas, de pessoal de 1º ano, o que é sempre muito interessante.  Ou seja, foi standartizar mas mais o passado. Não tanto a actualidade… aliás, as curtas portuguesas é muito bom cinema. Eu quando exagero no personagem é mais no passado do cinema do que com o atual. Continua a haver o intelectualismo cinematográfico mas acho que já se está a fugir muito a isso.

EF: Na curta morreu uma personagem. Na série ainda não. Nas curtas portuguesas tem de morrer sempre alguém no fim?

ML: Segundo o personagem do cinema, sim, porque todas as curtas que eu via e até as que eu fiz, morria alguém. Pronto, não sei. Agora como é que isto acaba? Olha, morre, pronto. O herói desaparece e pronto, está feito. Mas não, na série, não vai morrer. A irmã do P está realmente convencida que vai porque ela perdeu-se, foi ali parar, tal como a personagem do cinema francês. Fugiu do filme e foi parar à série. Essa aí é de A Rosa Púrpura do Cairo, do Woody Allen… ela foge do filme e vai parar ao filme dele. Mas não, não vai morrer ninguém. Ela é que acha que sim mas está enganada.

EF: Outra das personagens é o “erro de casting” que aparece nas cenas vinda do nada. Há erros de casting em todos os filmes?

ML: Há sempre, tanto em filmes como em cenas que eu fiz, como em coisas que vou fazer, tal como há surpresas de casting. É como tudo na vida. Porque isto aqui é: tu imaginas uma coisa, escreves, pegas em pessoas para fazer, depois fazes, depois editas e depois vês. Nestas fases todas, é normal que tu digas ‘oops’ ou digas ‘ahh’ [admirado].

«Se uma rapariga feia aparecesse numa novela, não podia levar com um saco na cabeça…»

EF: Tanto podem surpreender pela positiva como pela negativa?

ML: Sim, acho que tinha piada porque uma das críticas da sátira que eu faço é: eu tentei rodear-me de raparigas giras porque as séries juvenis abusam disso. Não querem saber se elas sabem ser atrizes ou não, querem é ter um bom par de mamas e três palmas de testa… de cara, testa não, esquece. [risos] Eu queria meter só raparigas giras, não interessa se são boas atrizes. Isto é o Overacting, são todas muito giras, e depois há lá uma que não era gira e “pumba”, um saco na cabeça. É essa a mensagem. Se uma rapariga feia aparecesse numa novela, não podia levar com um saco na cabeça… Isto é uma crítica à exploração da imagem feminina: tÊm de ser todas girinhas e muito bonitinhas… O erro de casting é para subentender isso.

EF: No genérico o Mega organiza as personagens para ficar só com raparigas. O Mega também é um bocado mulherengo?

ML: O Mega queria ser mulherengo… mas não consegue. Ele queria aquilo para sair por cima e saí sempre por baixo. Ele quer ser o eterno romântico, é fã do Woody Allen, que consegue ficar com a Diane Keaton e a Mia Farrow, mas o Mega claramente não, se aquilo [a série] houvesse cá fora, ele não conseguia. Ele cria aquilo porque quer exaltar o seu ego, mas o ego acaba sempre por ser destruído. O genérico demonstra a intenção dele. O episódio demonstra o resultado.

EF: Atualmente o financiamento do Estado para o cinema encontra-se em stand by. A indústria também é quase nula. Qual o futuro dos jovens criadores que, como tu, estão a começar neste ramo?

ML: Eu não sou muito a favor do financiamento do Estado para fazer cinema. Na minha opinião isso é um dos erros que depois culmina no cinema que havia antes. Porque o cinema cá não é pensado como um produto de audiovisual mas tem de ser. Se tu pensares como um produto, tu tens de ter retorno. Se o Estado investe numa coisa… vá, vá lá, faz aí uma cena artística à tua vontade… mas não há retorno. Depois queixam-se que não há dinheiro, que ninguém vai às salas. E depois o Estado é concursos e concursos são dúbios. A cena que eu acho é que isso aí se acontecer aconteceu. Eu acho que o financiamento do Estado é importante se calhar para projectos de pessoal que saí da faculdade que tinham projecto escrito e que os professores achavam que fazia sentido mostrar-se ao público, por exemplo. Como viste nós filmamos sempre sem dinheiro e depois apareceu o financiamento. Mas o financiamento privado é uma coisa que acontece porque sabem que vai dar resultado. Acho que nós podemos sempre fazer arte por fazer arte, mas a nível de negócio – como produtor – faz sentido olhar como um produto. Tanto para a televisão como para um produto cinematográfico. Ou seja, eu quero fazer filmes mas quando fizer quero que acreditem que aquilo resulta no mercado.

Miguel Leão Overacting Entrevista EF

«Se eu pensar só em mim e puser uma coisa como eu quero, não vou passar a mensagem a quase ninguém.»

EF: De certa forma conjugar a parte artística com a parte monetária?

ML: Sim, é o que eu tento fazer no Overacting. Nunca quero descurar a parte artística, nunca quero fazer uma coisa não honesta comigo. Quero fazer uma coisa que eu acredite que está bonita e que resulte, tanto artisticamente… e claro, tentar encontrar o público. Eu acho que um dos papéis de uma pessoa que cria uma coisa e realiza é comunicar e passar uma mensagem. Se eu pensar só em mim e puser uma coisa como eu quero, não vou passar a mensagem a quase ninguém. Eu quero passar ao máximo número de pessoas mas manter a mensagem. Se calhar há partes que os putos não curtem… as referências ao Woody Allen, mas eu pus na mesma. Deve-se encontrar um meio-termo.

EF: Ainda agora falaste do Woody Allen, uma das tuas inspirações. Há uma vontade de o trazer para filmar em Lisboa. Fazias de tudo para entrar no projeto?

MG: Sim, acampava à porta do hotel dele com uma placa a dizer “não como há 10 dias, dá-me trabalho se faz favor”. Fazia assim uma cena do género, claro. Era o meu sonho, claro que sim.

EF: Pretendes explorar a parte de ser ator noutros projectos, mesmo que não sejam da tua autoria?

ML: Eu tenho um bocado medo disso. Não sei. Nunca fiz nada de ator. Eu costumo dizer: não sou ator, sou esquizofrénico. Eu tenho tipo várias personagens que consigo explorar, não sei se me dessem um guião eu ia conseguir pegar numa personagem e fazer. Não sei. Estou aberto a propostas e logo vejo o que acontece. Não tenho medo de experimentar e dar porcaria. Isso acontece a todos.

EF: Disseste numa entrevista que preferes cinema, mas que queres construir público na TV primeiro. A estratégia mantém-se?

ML: Sim, não foi uma estratégia… eu não ia fazer televisão, convidaram-me. Não foi uma estratégia maléfica que eu tinha aqui escondida. É uma coisa que se pensarmos faz sentido, o próprio Woody Allen começou na televisão. Ele ficou muito conhecido em programa de stand up, lutou com um canguru em direto… E quando ele faz os primeiros filmes já tinha um público. Acho que é uma coisa que faz sentido. Mais do que nos queixarmos que não há público, não há dinheiro… acho que sim, que é interessante mas posso estar aqui a falar e nunca mais fazer televisão nem cinema. Por isso, também é arriscado. Mas claro que acho que é uma estratégia que no fundo faz sentido. Se começas a ter público e se crias uma linguagem, quando um filme teu sai para o cinema com essa linguagem o público vai ter curiosidade. O filme A Conversa da Treta teve sucesso, os Morangos foram um dos filmes mais vistos por um público vastíssimo… Acho que é um processo que faz sentido. Não sei quanto tempo é que me vou conseguir manter na televisão nem quando vou conseguir filmar o meu primeiro filme, mas como estratégia mantém… mais como esperança do que outra coisa.

EF: A televisão é boa para captar público porque atinge mais pessoas?

ML: Sim, e a televisão vai ter com as pessoas. Ou seja, no cinema as pessoas têm de sair e ir lá, é diferente. Estás num domingo à tarde com uma manta e podes se calhar pôr um canal, ficar a ver e gostas. Então é uma boa maneira de puxar pelas pessoas, mas é um processo demorado que não dá para adivinhar se vai resultar ou não, nunca.

EF: Disseste que querias ainda ultrapassar mais os limites do humor. Ainda há mais estereótipos no audiovisual para retratares na segunda temporada de Overacting?

ML: Há, há. Primeiro foram só cinco episódios, é pouco, apesar de termos quase morrido a fazê-los. Foi muito trabalho e muito pouco tempo. Acho que há muito, muito, muito para explorar. E muitas pessoas com quem eu gostava de contracenar. Gostava de chamar o José Rodrigues dos Santos para a segunda série.

EF: Achas que ele vai aceitar?

ML: Acho que sim [risos]. Eu sou um fã dos livros dele e acho que é uma personagem interessante para meter lá no meio.

EF: E convidá-lo para escrever um episódio?

ML: Olha, isso ainda era melhor! Quem sabe… mas isso se calhar já é mais complicado. Filmar é uma tarde e despacha-se. Mas Portugal é muito prolífero em ideias para brincar.

EF: Não me queres revelar quem ficou ao lado do Mega no último episódio?

ML: Ainda não escrevi…

EF: Mas a segunda temporada está certa?

ML: Não, porque em 2014 é que eles [SIC Radical] reformulam a grelha e compram os programas. Ou seja, tenho que aguardar até janeiro mas também faltam dois meses. As indicações foi que correu bem a cena, e depois depende… os canais temáticos estão tremidos, não sei.  Temos que ver. Esperar e ver. O feedback da SIC Radical foi positivo. Quando mandaram as audiências, deram os parabéns. Quando acabou a série, eu perguntei se correu bem, como é que é, segunda série… e eles disseram que só em 2014 é que teriam uma resposta mas que a série tinha corrido muito bem. Por isso é esperar. Eu gosto de acreditar que sim.

«Uma pessoa também fica com saudades de fazer casting

EF: E para quando um filme?

ML: É assim, eu por acaso estou a escrever um guião assim na minha onda de comédia, mas uma coisa que eu vou escrever com calma. Tenho que fazer com calma e também quero também manter-me a explorar este novo mundo que é a televisão que nunca tinha conhecido. Daí que também estou a desenvolver outro projeto, outro piloto, e esperar para o ano estar a fazer a segunda série do Overacting.

EF: Quanto aos projetos futuros: o que estás a desenvolver agora?

ML: Estou a fazer um piloto de uma comédia, com atores com relativa experiência. Foi um grupo de atores que se juntou na HIT Management que é uma agência de atores. Juntou quatro atores que gostava, eles criaram personagens e mandaram para mim. Disseram: “olha, gostávamos que pegasses nestas personagens e criasses uma história”. E eu escrevi um guião, em dez dias, sentamo-nos todos à mesa, falamos – o que é que precisamos, o que não precisamos – e vamos começar a filmar. Não posso revelar muito porque está muito embrionário, mas é uma comédia para televisão. Nós queremos vender isto para televisão. É uma sitcom. Não posso revelar muito, mas é com atores jovens, com o Francisco Areosa, o Salvador Nery, que fez Uma Aventura também… são quatro atores que andam aí a lutar como nós, tudo boa onda, é uma cena jovem e para jovens. Mas está muito embrionário. Ainda nem filmámos o piloto, não sabemos o que acontece depois. Para já estamos com esse projeto. Eu também vou anotando umas ideias para o Overacting, tentando escolher numa lista de quem acordou ao lado do Mega, se calhar faço um novo casting, não sei… [risos] Uma pessoa também fica com saudades de fazer casting.

EF: Para terminar e em jeito de questão… está doce?

ML: Está, está, ‘tá docinho!

Fotografias: Júlio Eduardo Proença