In media res, na canção Fim, a vozinha sub-nutrida e quase desdenhosa de cristal que se arrasta por todo este As Plantas Que Curam humildemente afirma que “Eu nunca quis ser bom / Sempre desafinei / Mas agora entrei no tom“. E de que maneira. Os Boogarins apresentam-se como uma das mais agradáveis surpresas do ano, não tanto porque não se esperava que viesse a acontecer um redescobrir do psico-tropicalismo, depois da emergência de tudo o que é revivalismo psicadélico, seja nos antípodas, sob os céus cinzentos da Inglaterra ou na cimentada Nova Iorque, ou porque eles próprios queriam ser uma surpresa, mas porque fomos tomados de assalto por este ex-duo-agora-quarteto brasileiro e o seu charme de quem consegue fazer uma revolução rebentar sem sequer chegar a sair da cama.

Enquanto Erre, segunda faixa, nos pode soar à It’s Not Meant To Be, primeira faixa do Innerspeaker dos Tame Impala (jurando que então não conheciam a banda que agora é a sua favorita), a cadência de Doce, com linhas de guitarra tilintantes e preguiçosas, pode fazer chegar à nossa cabeça um paralelo entre os Boogarins e os Psychic Ills, enquanto Hoje Aprendi de Verdade pode lembrar a “britanidade” dos cabeludos Temples, esse emparelhamento de referências contemporâneas serve apenas para nortear o comum ouvinte e apreciador e colocar a banda num movimento à escala mundial.

Tudo bem, na supracitada Fim referem-se “As tardes com os amigos / Bebendo ao som dos Beatles” e a psico-balada Despreocupar lembra Syd Barrett ou um Lou Reed na letargia que leva a progressão de acordes e na delicadeza da guitarra limpa, tudo isto num contexto muito “Miss Lisergia ’69 / (…) Abriu-me a cabeça” (Lucifernandis), Zombies, Kinks, White Album, Hendrix e tudo mais, mas é impossível não referir a militância aos Mutantes, o Panis et Circenses, toda a carga da velha guarda da MPBCaetano, Gil, Tim Maia, Tom Zé – intelectualizada e remasterizada nestes miúdos que vivem um Brasil novamente descontente, encarnada num método despreocupado de criar. As letras falam de ruptura, indignação, incompreensão e iluminação. São canções de vitórias e derrotas pessoais, que se podem assumir num contexto de massas, uma juventude que não está muito virada para burguesinhas e Annas Júlias.

Deste lado do largo oceano, hemisfério norte, invernia tremenda que se avizinha, o frio e a quantidade roupa, todo o cinzento das coisas, a chuva e ser noite às cinco da tarde, As Plantas Que Curam é um sol a despontar por entre o céu nublado de gordas e negras nuvens, é uma “escola” de “samba” portuguesa a repicar intrépida pela avenida fora enquanto as pessoas que assistem sentem frio nos ossos. Dez deliciosas faixas de psicadelismo de garagem, ensonado, despretensioso e inspirado. Os Boogarins convidam-nos a “encostar no pôr-do-sol“, porque “o tempo passou e você quer ser alguém” (na Beck-iana Paul, a melhor canção do disco). Nós, pelo menos, queremos que eles sejam alguém, ansiosos pelo que virá depois deste coeso e ambicioso disco, saudosista sem cheirar a mofo, rotulado de pós-Tame Impala pelos incautos, dito tão bom quanto os deles pelos crentes, com as devidas cerimónias, a César o que é de César. E é verdade, os Boogarins consumam uma obra articulada, metódica e coloquial sem ser vulgar e sem justificações de ser olhada de cima pelos fãs “psicodelia” em inglês.

Nota final: 8.5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945