noiserv

Noiserv – A.V.O. (Almost Visible Orchestra)

Noiserv, aka David Santos, há muito que é uma das mais-valias para o presente e para o futuro da canção nacional: temos consciência disso desde os tempos de, sobretudo, One Hundred Miles from Thoughlessness, editado em 2008. Os tempos que lhe sucederam, incluindo a formação dos You Can’t Win, Charlie Brown, acabaram por comprovar aquilo que era já previsível: que Noiserv é um talento nato sem habitat fixo, uma simples personagem que se deixa reger pela actividade nómada cujo principal fim não é a sua alimentação, mas sim a sua criatividade. 

Multi-instrumentalista, com uma sapiência para se desmembrar por todos os seus instrumentos, que já acabam por ser um habitué num disco seu, simplesmente invejável, é também na escrita de canções que David Santos marca constantemente pontos, sendo, por isso, um dos melhores singer-songwriters portugueses da actualidade. Não se escreve sobre amor nem se revela o ser que há para além de Noiserv, escreve-se sobre o quotidiano como um mero acaso: por vezes, o escape ao cliché e ao tradicional sabe bem. Por isso mesmo, os seus lirismos podem soar, à primeira vista/audição, ligeiramente abstractos, porém, se esmiuçados, acabam por ter um conteúdo gigante, onde agentes metafóricos ou simbolismos acabam por ter uma grande influência para a sua compreensão.

A.V.O. (Almost Visible Orchestra), o seu novo disco, não nos leva a outro porto que não aquele onde, outrora, já nos deixámos atracar; percebemos isso na sua faixa inaugural, intitulada This is maybe the place where trains are going to sleep at night. Sentimos a calma do cantar de Noiserv, que embora não seja um cantor transcendente, algo que também a averiguar pela sua obra não o pretende demonstrar ser, acaba por ter um timbre peculiar e triste, o que conflui com tudo o resto: ritmos lentos, tristes, meditativos, letras que estão longe de nos fazer sorrir (a não ser pelo facto de serem tão boas) e uma ambiência de produção propositadamente misteriosa – o que só torna A.V.O. ainda melhor. E é sobretudo num destes pontos anteriormente referidos que Noiserv se revela com um dos maiores talentos nacionais da actualidade: a sua capacidade rítmica é absolutamente genial.

Em 1999, David Fincher, realizador norte-americano, fazia com que um dos filmes mais aclamados de sempre, Fight Club, se desenlaçasse tendo como banda sonora Where is my mind, dos Pixies, dando, irremediavelmente, ainda mais nome à banda de Frank Black.  Uma década depois, David Santos pegou nela e fez a sua própria versão. Resultado? Espantou muita gente que não o conhecia e acabou por angariar uma (nova) quantidade de fãs significativa; aquilo que em 2009 me fez descobrir Noiserv é aquilo que em 2013 ainda mais me fascina nele: a sua noção de como compor (e naquele caso, descompor) uma música é demasiado deslumbrante, de tão simples ser – onde paroxismos disso no disco são canções como Don’t say hi if you don’t have time for a nice goodbye ou I’m not afraid of what I can’t do. Dêem-lhe um piano, um órgão, uma flauta, uma guitarra acústica, uma guitarra eléctrica, um xilofone, os pedais da guitarra, uma bateria siamesa (garanto-vos que ele se consegue partir em dois e tocar em ambas), um baixo e um saxofone (esta lista não ia ter fim, achei por bem ficar-me por aqui) que garanto-vos que com toda esta panóplia o Noiserv consegue escrever uma canção com (demasiados) pés e cabeça, de corpo simples e com uma beleza que dói: já o tinha provado anteriormente, mas A.V.O. é, até agora, a maior prova disso: como sabe tão bem uma única pessoa parecerem tantas.

Classificação final: 9.0/10

*Este artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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