Uma carreira na literatura, na televisão, no cinema e na música sem precedentes. A arte de ser Rosa Lobato Faria esteve no Casino Lisboa e o Espalha-Factos faz-te o retrato.

Rosa Maria de Bettencourt Rodrigues Lobato de Faria – atriz, poeta, autora de canções e romancista – era e continua a ser uma figura admirada pelo meio artístico. Uma rosinha em exposição no Casino Lisboa:  frases da sua obra; entrevistas cheias de simplicidade.; interpretações cheias de excentricidade. Dá saudade só de olhar a profundeza dos seus olhos que figuram no retrato da artista da autoria de Nikias Skapinakis, de 1959.

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A água a derramar sobre os passeios, fora do Casino, e os alucinantes jogos da sorte, dentro do edifício, contrastavam com a calma daquelas paredes mergulhadas em memórias. Em pouco tempo, abstrai-me da alucinante vida que corria ao meu lado e afoguei-me na imensidão de história que ali estava. Tenho 18 anos. O nome Rosa Lobato Faria podia facilmente não ser do meu conhecimento. Podia tê-la visto como atriz, em Aqui Não Há Quem Viva, mas ignorar a pessoa por detrás da personagem. Podia ter ouvido muitas das músicas que dominaram o panorama musical português e o Festival da Canção, mas ignorar a letrista por detrás da melodia e lírica. Podia simplesmente não dar por ela. Mas Rosa não deixava.

A descoberta realmente começou pela televisão, porém, facilmente se alastrou às outras áreas que Rosa Lobato Faria dominava. Desde o Amor D’Água Fresca, da Dina, à sua obra literária que eu mais gosto: O Prenúncio das Águas (1999) – Prémio Máxima de Literatura em 2000. Continuei a viagem em A Estrela de Gonçalo Enes e na eternamente cantada Chamar A Música interpretada por Sara Tavares: “Esta noite vou servir um chá / Feito de ervas e jasmim / E aromas que não há / Vou chamar a música / Encontrar à flor de mim / Um poema de cetim.

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Simplicidade na Excentricidade

Senti uns olhos a brilhar. Não eram os meus. Eram os da Rosinha, alcunha pela qual era tratada – de forma terna – pelos amigos. As entrevistas que pudemos ver na exposição – com Herman José, Júlio Isidro ou Marco Paulo – espelham a simplicidade na excentricidade. “Meter as minhas angústias no papel”, disse a atriz a certa altura. Para Rosa Lobato Faria “a mudança é sempre positiva.” Rosa não era uma mulher simples. Era-o nas ações, que é o mais importante. Já o seu espírito, pairou bem acima do óbvio, voando pela profundeza do ser, com os pés assentes na terra crua e nua.

As declarações que deu sempre refletiram o mundo pragmático e positivo da artista. Contudo, a sua obra eleva-nos na observação da sua figura: a autora, por exemplo, traz-nos também a melancolia aliada ao humor, às questões da vida, e à vivência sem fôlego. Não se pode dizer que seja linear. No cinema, interpretando mulheres fortes, fracas ou simplesmente seres humanos, Lobato Faria transmitia sempre algo mais, uma profundeza sentimental e humana, só experienciada naquelas imagens que figuravam na exposição. A dimensão humana aliada à vontade de ser mais, e melhor, foram os motores de Rosa Lobato Faria e a forma como esta cativou tanto os portugueses.

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Rosa Lobato Faria já é nome de escola primária, em Lisboa. Que os seus ensinamentos perdurem nas palavras do futuro que ali se constrói. A exposição, “Cântaro de Água Fresca: Rosa Lobato de Faria, 1932-2010”, resultou de uma parceria entre a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e o Casino Lisboa.. Com 77 anos, 1932-2010, a Rosinha não murchou; ficou gravada na obra e nos sentimentos.

Fotografias: Casino de Lisboa