O Lisbon & Estoril Film Festival está, infelizmente, prestes a despedir-se dos cinéfilos da capital, continuando apenas no Porto até dia 20. Na memória vão ficar momentos especiais como a antestreia mundial de Cadências Obstinadas no Cinema Monumental, este domingo, com a presença da própria realizadora/argumentista/cenógrafa e a alma do filme, Fanny Ardant, dos atores Nuno Lopes e Franco Nero e do produtor Paulo Branco.

Cadências Obstinadas – 8,5/10

Cadências Obstinadas é, antes de mais, um filme com muita alma. Não importa se é passado em França ou noutro país qualquer – os locais de filmagem variam entre Portugal e França, mas as ruas são iguais a tantas outras, sem pessoas, sem marcas, sem pontos de referência. Os grandes planos materializam o foco essencial nas personagens, nas emoções, em lugar de dar espaço à envolvência. O sacrifício do acessório, em prol da identificação com a história.

A história é um exemplo franco de como um argumento pode transformar por completo um filme banal numa obra prima. Furio é desafiado por Carmine a restaurar, em apenas quatro meses, um hotel em ruínas e inaugurá-lo com grande pompa. Apesar das dificuldades, Furio quer mostrar-se à altura e aceita dirigir a obra. Margo, a sua mulher, que por ele abandonou a sua brilhante carreira de violoncelista, encoraja-o, confiante no renascer da chama do casal. Mas à medida que a data se aproxima as tensões e os obstáculos acumulam-se.

Margo é a única mulher no meio de tantos homens: Furio, o marido que já não a ama, que não compreende a sua paixão pela música e ignora o seu amor incondicional; Mattia, o sedutor viciado em póquer; Carmine, o promotor da obra, que acolheu os dois rapazes quase como filhos; Gabriele, o decorador que também restaura frescos e tem sempre palavras para a consolar; Wladimir, o professor que sempre acreditou nas suas capacidades; o padre Villedieu, o homem sábio a quem todos recorrem em última instância.

A “sopa de cinzas” que Wladimir diz envolver Margo é o espelho do seu declínio, desde a dedicação ao amor à previsão do seu fim. Veste-se sempre de negro, cantarola de voz grave e indecisa, caminha com uma altivez frouxa e os sapatos altos que descalça são como se não aguentasse mais manter a postura. Furio não gosta, mas Margo continua a tocar violoncelo, em planos magníficos da janela do quarto aberta, com ela de branco, angelical, e o som a confundir-se com berbequins a trabalhar, em contraste com a plateia repleta e cativada que um dia já teve à sua frente.

Os contrastes são o ex-libris da realização de Fanny Ardant, que para além do excelente trabalho com o argumento, rico em fazer sobressair as personagens, e com a banda sonora encantadora, se dedicou de forma cuidada aos grandes planos, ao mostrar a ação sem a explicar – e ao explicá-la, quando necessário, com as palavras certas. As repetições e os contrastes são uma constante, embora nunca sejam exactamente repetições – e é isso que as torna tão especiais.

Margo passa vezes sem conta pela janela que dá para o talho, sobe as escadas da igreja e caminha pela escola do professor de música, mas sempre que o faz é uma pessoa diferente. O que pensa e o que sente, e o que nós enquanto espectadores sentimos, é algo mais do que da última vez em que a vimos fazer aquele percurso. Vêmo-la subir as escadas, Furio a descer outras escadas e, como Fanny Ardant partilhou mais tarde, um hotel a construir-se enquanto um amor se destrói, aos poucos – mas ambos com os alicerces arruinados, impossíveis de voltar a pôr de pé.

Porque é que já nunca nos rimos?”. Fanny Ardant confessa que quis falar sobre um amor, mas o que nos traz não é um amor feliz, é um amor difícil – é o fim do amor. Mais uma vez os contrastes da dor do presente, do desespero, com os flashbacks de um passado feliz e promissor que parece ter-se desvanecido em sonhos perdidos. “Quero viver!”, berra Margo, e procura-o sempre no amor de Furio, nas pequenas coisas que já não são suficientes para a tornar feliz. Cadências, como os acordes que pontuam uma frase musical e lhe dão um final próprio, quase necessário. Obstinadas, como a persistência inesgotável de Margo em amar.

Margo é um pouco de Fanny Ardant e um pouco de Asia Argento, como todas as personagens são um bocadinho construídas pelos próprios atores. E no caso de Margo a personagem é notoriamente apoderada pela atriz, que nos oferece um retrato maravilhosamente trágico desta mulher coberta de negro, cuja loucura é apenas o reflexo da sua mágoa.

É um orgulho termos, no elenco principal, dois atores portugueses como Ricardo Pereira e Nuno Lopes – o primeiro sem precisar de grande esforço para ser um Mattia encantador, o segundo a comprovar, mais uma vez, que é um dos maiores atores dramáticos do nosso país. Furio enche o ecrã desde o primeiro momento com a sua ambição desmedida, à custa de um amor que já o fizera feliz um dia – e cuja recordação o modifica -, e o nosso Nuno Lopes é perfeito para um papel ao qual também dá muito de si.

Cadências Obstinadas, produzido por Paulo Branco, tem estreia prevista para janeiro de 2014. O drama poliglota franco-italiano-português marca ainda a participação relâmpago do cantor Mika, na sua estreia no cinema (como o pianista Lucio) e a colaboração amigável de Gérard Depardieu como o padre da ‘aldeia’. Uma das melhores frases é-lhe oferecida por Fanny Ardant:Não te apagues, não sabes quem iluminas”. Que sirva de luz guia para apreciar esta tragédia romântica, hoje e sempre, as vezes que for preciso para aprender a amá-lo.

Texto de Raquel Santos Silva