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Nicolau Breyner: “De televisão sei tudo, não me podem dizer o contrário”

No ar em Uma Família Açoriana (RTP1) e realizador do filme Sete Pecados Rurais com estreia marcada para este mês, Nicolau Breyner não se deixa envelhecer. Com 73 anos de vida e 53 de carreira, tem muitos sonhos por concretizar, opiniões firmes e muitos conselhos para dar aos futuros atores. O  Espalha-Factos conversou com o Nico da televisão portuguesa.

«O difícil é ficar, não é chegar ao topo.»

Espalha-Factos: Ser ator é algo que nasce com as pessoas? Na sua biografia, considera que é 70% de talento e 30% de trabalho, e não o contrário. 

Nicolau Breyner: Cada vez mais acredito nisso. Os 70% é o material com que você nasce. Há um dom, como tem um pintor ou um escultor. Porque é que o Cristiano Ronaldo joga melhor que outros jogadores, quando treinam as mesmas horas? Você tem de fazer um ator a partir do material que tem. Do nada não surgem atores. Surgiram agora muitos atores que vêm por outras razões, porque são bonitos… Não sou contra, pode ser um ótimo ator ou não. Podem chegar de várias maneiras. A diferença é aqueles que ficam e aqueles que acabam por desaparecer. O difícil é ficar, não é chegar ao topo.

EF: Gostava de um dia ser diretor de programas?

NB: Não era uma coisa que me repugnasse de maneira nenhuma. Modéstia à parte, sei que poderia fazê-lo. Mas nunca me ofereceram. Dependia de uma série de circunstâncias: o projeto que fosse, com quem fosse,.. Com esses ‘ses’ todos, não rejeitava. Posso dizer que acho que de televisão sei tudo. Não me podem dizer o contrário.

«O poder da ficção é fazer as pessoas sonhar. Emocionar as pessoas.»

entrevista nicolau breyner (1)

EF: O que é que teria para si o canal ideal?

NB: aquela coisa tremenda de definirmos o que é serviço público. O serviço é público desde que haja pessoas que queiram abrir um canal. Público somos todos nós. Somos todos habitantes deste país, com os mesmos direitos. Gostamos de coisas diferentes. Público é qualidade, mas não é só qualidade porque há pessoas que querem outro tipo de coisas. O que é qualidade para mim, pode não ser para si. Mas teria ficção, ficção, ficção. Muita ficção. O poder da ficção é fazer as pessoas sonhar. Emocionar as pessoas. Que é aquilo que se deve dizer aos atores: “Meus senhores, vocês têm de os fazer sonhar. Têm de os fazer rir e chorar. Desde que façam isso, a vossa missão está cumprida.” Mas também tem de haver concursos, programas de entretenimento… Por exemplo o Quem Quer ser Milionário, que a Manuela faz maravilhosamente. Tudo é televisão. No ideal da televisão, temos de saber dosear muito bem tudo isto.

EF: Qual é o melhor e o pior da televisão atualmente?
NB: O cinema tem qualidade, as grandes séries têm qualidade. Todo o género de National Geographic é um estilo que eu adoro. A ficção portuguesa tem o seu lugar que é as novelas e as séries. Eu acho que tudo isto cabe em televisão. São coisas que eu gosto de ver. Vejo menos reality-shows, mas é uma questão puramente de gosto. É um género de programas que não me diverte, não me interessa ver. Respeito as pessoas que vêm, eu não vejo e estou no meu direito.

«A sorte é determinante para a maioria das pessoas. Depois tens que trabalhar.»

EF: No filme Kiss Me, a personagem do Nicolau, em conversa com a personagem da Marisa Cruz, diz: “Sabe que eu sou capaz de tudo. Faça como eu, não se deixe desencorajar.” Foi esta coragem que teve durante a sua vida que o fez chegar ao estatuto que tem hoje?

NB: Foi também a coragem, mas eu tive sorte. A sorte é fundamental. Eu se calhar tive sorte várias vezes, se calhar muitos jovens de agora e pessoas da minha idade tinham sido muito melhores atores do que eu. Uns não foram para o Conservatório, outros não fizeram teatro, portanto não tiveram a felicidade de o ser. A sorte é determinante para a maioria das pessoas. Depois tens que trabalhar. Quando ela aparece, tem que se aproveitar. Foi isso que, pelo menos, tentei fazer. E acho que consegui. Agora, ela teve que aparecer. Quantas pessoas foram descobertas no meio da rua porque aconteceu qualquer coisa?

EF: O que é que gostava de fazer ainda?

NB: Eu vivi um ano num barco e adoro barcos. Era ter dinheiro para ter um barco como eu gostaria de ter e ir por aí. Sempre para o sul, para o norte não gosto muito. A Maria do Céu Guerra tem uma frase muito engraçada que diz: “Os países dividem-se entre os que têm palmeiras e os que não têm palmeiras.” Só gosto de calor, água quente, de gente que fala alto, que brinca, que tem as portas abertas.

 «Eu sou um apaixonado pelo ser humano. Gosto das pessoas e gosto de gostar das pessoas.»

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EF: Trocava de papel com alguém?

NB: Não trocava com ninguém, fazia um upgrade do meu. Uma série de coisas que faria de outra maneira, mas seria sempre eu. Mesmo em palermices.. Sou péssimo em negócios, sou enganado constantemente, várias vezes fui. Mas não trocava isso por nada. Queria era poder ajudar mais as pessoas. Eu sou um apaixonado pelo ser humano. Gosto das pessoas e gosto de gostar das pessoas.

EF: É uma pessoa saudosista?

NB: Sou o gajo menos saudosista do mundo. O meu tempo é agora, não há aquela coisa de “ah, no meu tempo é que era bom”. O meu tempo é o tempo em que nós existimos, por isso este é o meu tempo também. Eu estou sempre atento ao que se faz, de melhor e de inovador. Por exemplo, acho que o cinema está a caminhar para um excesso de efeitos. Eu odeio os Avatares e essas coisas, esses bonecos chateiam-me. Porque é que estamos a imitar pessoas, quando elas existem? Quero pessoas que façam coisas e que tenham defeitos. Num ator o importante é transmitir sentimentos, e não há máquina que faça isso, o computador não faz isso. Não faço muitos planos, aliás, nunca fiz.

Lê aqui a entrevista na íntegra.
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