As expectativas estavam elevadas. Depois do espectáculo no Porto, dia 2, e daquele final épico que serviu de teaser para a estreia também no Coliseu dos Recreios, menos que isso seria certamente servir um prato de azeitonas pouco saborosas. Mas a desilusão não chegou, nem esteve perto de chegar. Os Azeitonas tomaram como seu o Coliseu e as ruas de Lisboa e fizeram a festa, do início ao fim, apresentando o seu Az aos fãs da capital.

Marlon, Miguel AJ, Nena e Salsa surgem em palco para lá das 22 horas, bonitinhos, a entoar a cappella os versos de Zão já com um público delirante à sua frente. Mais electrizados ficam os azeitolas presentes com Pander, do novo álbum, acompanhada por um cenário colorido que se começa a descobrir no palco, ainda com poucos músicos a ajudar à festa. Eles cantam, eles dançam, eles saltam, mas ainda está para vir a verdadeira fanfarra.

O primeiro flashback saudosista até ao Salão América, de 2011, chega com Café Hollywood, a música dos heróis do cinema e da televisão cujas vidas parecem sempre tão mais fáceis. Desce a placa com um Az iluminado, o público contente responde às palmas pedidas pela banda e o entertainer Marlon ameaça deixar cair o microfone com a sua energia em palco, o que mais tarde viria mesmo a acontecer. Não pára quieto e espalha charme desde o primeiro minuto, qual Marlon Brando dessa terra longe onde é Hollywood. Os “és lindo!” vindos da plateia confirmam a sua popularidade.

Ele é lindo, mas também sabe bem ouvir a voz de Miguel Araújo, aqui AJ, na novíssima Whatever, Tanto Faz, que “dá ao mundo uma lição” de como pôr o público a dançar nas galerias do Coliseu. Sahara é outra dessas canções épicas de Az, talvez menos apta a concertos deste calibre, sobrevivendo apenas com o “ohohohohoh” que o público acompanha no final. Contudo, é quando Salsa fica sozinho no piano, com as violinistas lá atrás, e se começam a ouvir os primeiros acordes de Nos Desenhos Animados (Nunca Acaba Mal), que sabemos estar a chegar a hora da protagonista feminina da banda ter o seu momento.

É maravilhosa a balada romântica e a Nena de vestido chique, o piano, os violinos, o saxofonista que aparece num dos camarotes a tocar um solo. O momento está a pedir algo mais e Salsa pega em Nena para uma pequena e bonita dança antes do final em que a azeitonette nem precisa de cantar, pois o público em uníssono responde com o seu próprio “By the power of Greyskull”. Continuamos num universo paralelo com Showbizz, do novo disco, mais uma apoderada por uma Nena dos anos 20 parisienses. Entre o francês e o português, o surgimento de mais membros da banda atrás da cortina e dos rapazes da banda num sapateado digno de musical do Gene Kelly.

É a miscelânea a que Os Azeitonas já nos habituaram, só que desta vez com dezenas de músicos em palco a tornar a coisa ainda mais eléctrica, viva e vibrante. Os óculos de sol de Marlon ajudam a aquecer a plateia em Lisboa Não É Hollywood, cujos ritmos nos levam para o mundo da espionagem de um qualquer agente 007. Esta lembra muito o mentor Rui Veloso, que nos fez o favor de lançar a banda portuense e a quem esta agradeceu, no final, a presença neste concerto memorável. É de imaginar o seu orgulho pelo que se passou esta noite.

Por entre as canções, os agradecimentos, o deslumbre causado por esta estreia no palco do Coliseu e os gritos de admiração dos fãs do Porto que os acompanham para todo o lado. E quando Salsa saca do acordeão e o nosso AJ se prepara para cantar é porque vem aí Anda Comigo Ver os Aviões, a música que já era bonita antes de ser comercialona. Para quê cantar o refrão, quando a voz do público se sobrepõe a qualquer microfone? Só faltam os isqueiros no ar, no final a cappella que une todas as vozes do Coliseu.

O delírio maior só podia acontecer com um pedido de casamento por parte de um fã, que sobe ao palco para surpreender a sua futura noiva. Os Azeitonas assumem-se como românticos e lamechas, o que dá azo a momentos bonitos como este. Canções como a que se seguiu, o novo single, Tonto por Ti, só vêm reforçar esta faceta. Mas em concerto o romantismo dá sempre lugar à folia. Com Quem és tu Miúda? começamos finalmente a levantar-nos dos bancos e a saltar, respondendo aos apelos de um Marlon irrequieto e especialmente inspirado, que divide o público e vai ensinando a aquecer a voz e a cantar em coro um “MI-U-DA” bem ensaiado.

A partir daqui a energia é inesgotável. Ray-Dee-Oh mostra como está tanta gente em cima do palco e tanta outra gente na plateia, que não se volta a sentar. O coro do público e o adeus de Marlon marcam o primeiro ‘final’ do concerto, mas é no encore, com Dança, Menina Dança, que “a noite é uma criança” para todos darem o seu passinho de dança, com ou sem par. “O que é que estás a fazer, pá?” dá o mote para que até o músico de muletas mostre os seus dotes de dançarino. Nenhum bate, porém, a loucura de Marlon e da própria plateia que salta e ri e dança com o que está a acontecer.

Mais serena é uma nova despedida, com Angelus, a canção sobre a divisão meio secreta do autocarro da banda, onde se joga às cartas e outras ”coisas legais”. Miguel AJ conta a história – e apercebemo-nos que Az ganha muito com as histórias que o acompanham – e é o primeiro a contribuir com a sua voz para uma música entoada por todos, à vez, como se fossem dando um pouco de si a cada verso. O vozeirão grave de Salsa e o maravilhoso som da harmónica fazem-nos chorar por mais, quando “o último a sair que apague a luz” parece terminar novamente a noite no Coliseu.

Queremos mais e eles também. Ainda não está tudo, pensamos. Um concerto destes tem de terminar com mais energia, sem verdadeiras despedidas, entre “amigos e amigas”. E regressam mesmo, com o apelo do público, depois de um número divertido da Fanfarra Káustica no meio da plateia. Circo Zen traz novamente a palhaçada de que tanto gostamos e o espírito circense que queríamos ver voltar ao palco. Os balões gigantes ajudam a animar Nanana, ben como as folhas distribuídas pelo clube de fãs Os Azeitolas, num coro visual de “na na nas”. Ouve-se ainda “Em boa companhia eu vou…”, a recordar o concerto de 2010 gravado em DVD e a belíssima Marcha da Rua da Alegria.

É o expoente máximo de uma festa que não tem fim, pelo menos entre quatro paredes. Eles vão para a rua e nós vamos atrás. Ainda se detêm no átrio do Coliseu dos Recreios, mas é ao longo da Rua das Portas de Santo Antão que Os Azeitonas e a banda animam a noite lisboeta. Entre elogios, fotografias e abraços, a música acorda alguns residentes de pijama e espalha sorrisos pelos que caminham lado a lado com os quatro (quarenta) magníficos. “Foi a loucura”, dizem as minhas notas, e foi mesmo. Era quase uma hora da manhã e o “digo bom dia à noite e canto em qualquer canto” parecia não querer acabar.

Se de provas precisávamos, Az está mais que aprovado com esta fanfarra ao vivo. Os Azeitonas esmeraram-se para esta estreia nos maiores palcos do país e apostaram forte num álbum muito próprio, que diz muito de si, do seu espírito de união, diversão e amizade. Já sabíamos que eles eram grandes e ainda assim conseguiram surpreender-nos com uma noite inesquecível, na interacção com os presentes e numa grande presença em palco. “São os maiores”, como se ouviu durante a noite, e não há dúvidas de que somos sempre deles, como eles de nós, sempre que quiserem voltar a Lisboa para nos emocionar durante quase três horas.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

Fotos: Andreia Martins

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