No passado sábado o Coliseu dos Recreios foi palco de dois milagres distintos mas, de certa forma, intimamente relacionados. O primeiro foi o regresso dos Pixies a solo nacional, para uma prestação notável e comovente. O segundo foi a enchente do Coliseu em noite de derby lisboeta, num feito que contrariou, por algumas horas, a lei dos três F’s que impera em Portugal.

Eram ainda 18 horas e já se viam, nos comboios da Linha de Cascais, vestígios do que estava para acontecer: jovens de tenra idade, rapazes e raparigas, todos muito bem vestidos com a farda da ordem. As camisas de flanela, os casacos de cores outonais, os all-stars rebentados, tudo estava impecável para receber a grande instituição do alternative rock dos anos 80 e 90 (não vejam nisto um ataque, também eu uso esse traje com orgulho).

À porta do mausoléu da Rua das Portas de Santo Antão deu para ver um cenário mais heterogéneo. Aos jovens da “nação alternativa” juntavam-se os “cotas”, os veteranos da “cena”, gente que vinha reviver as glórias do passado e comungar com as crianças as canções eternas de Black Francis e companhia.

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Às 21 horas, as luzes do Coliseu apagam-se e sobe ao palco a banda de abertura, os As Able As Kane. Em pouco mais de meia hora, esta trupe britânica arremessou uma mão cheia de temas com profundas raízes num post-punk industrial, distópico. Não foi um concerto propriamente brilhante, e o som, a um nível ensurdecedor, não ajudou, mas a verdade é que os aaaK ainda conseguiram arrancar do público uma generosa quantidade de headbangs e aplausos.

Depois de uns compassos de espera, que permitiram apreciar novamente o maravilhoso PA do Coliseu (uma fina escolha, que foi saltitando entre The Cure, The Smiths, Arctic Monkeys e Joe Strummer and the Mescaleros, entre outros) e conferir o resultado do jogo via rádio, as luzes apagam-se de novo e surgem, à frente do curioso jogo de espelhos que servia de cenário, os quatro integrantes dos Pixies na sua versão de 2013: Black Francis, Joey Santiago e David Lovering, acompanhados de Kim Shattuck, baixista destacada para fazer as vezes de Kim Deal.

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A abertura foi violentíssima, com Planet of Sound a iniciar as hostes. Seguiram-se Cactus e Bagboy, demonstrando a fluidez com que o passado e o presente dos Pixies se conjugam ao vivo. Mas o primeiro grande momento da noite só se deu minutos depois, quando as primeiras “estocadas” de Wave of Mutilation soaram da bateria de Lovering, levando ao êxtase o Coliseu a abarrotar.

Apresentando-se numa forma notável, de fazer inveja a muitos “putos” que para aí andam, o grupo foi tocando clássicos atrás de clássicos, sem dirigir nenhuma palavra ao público entre canções; afinal de contas, os riffs memoráveis e as letras crípticas de Francis conseguem, de uma forma inexplicável, exprimir tudo o que de mais negro e sórdido temos dentro de nós.

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Alec Eiffel, Broken Face, Debaser (ou “o maior orgasmo sonoro de sempre”), Tony’s Theme e Something Against You foram disparadas assim, de rajada, provocando os primeiros moshes da noite e elevando a temperatura do Coliseu para níveis insuportáveis. Daí em diante as viagens a 1988, ano de Surfer Rosa (com a adenda do EP Come On Pilgrim), e 1989, ano de Doolittle, tornaram-se bem mais frequentes, com Break My Body, Here Comes Your Man, Monkey Gone to Heaven, Crackity Jones, I’ve Been Tired, Tame e Nimrod’s Son a surgirem como os pontos mais altos do show e a arrancarem as reacções mais efusivas do público.

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Where Is My Mind?, tema ex-libris do grupo, fechou o corpo principal do alinhamento de forma perfeita, transformando a plateia do Coliseu num verdadeiro coro, iluminado pelos isqueiros e, vicissitudes dos tempos modernos, pelos ecrãs dos smartphones. Porém, houve tempo para um encore bem generoso. Hey, Caribou e Gouge Away, mais três bujardas old school do grupo, conseguiram arrancar do público os últimos saltos e gritos, inutilizando de vez as pernas e as cordas vocais de todos.

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Depois da saída de palco dos Pixies, um sorriso rasgado espelhou-se na cara de todos os presentes, atestando a qualidade de um concerto que dissipou as dúvidas de muitos e provou a boa forma de Black Francis e companhia. Para os jovens, como eu, foi um sonho molhado tornado realidade; para outros, mais velhos, foi a confirmação de que as canções imortais destes colossos da música alternativa continuam com um élan intocável. Só faltou mesmo a Kim Deal (não desfazendo de Kim Shattuck, que se portou muito bem), porque, de resto, foi uma noite perfeita.

Fotos: Rita Sousa Vieira / Sapo On the Hop

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945