O Lisbon & Estoril Film Festival continua a trazer o melhor cinema aos portugueses, desta vez o Espalha Factos foi ver o mais recente filme de Alain Guiraudie e de Roman Coppola, ambos com a presença dos realizadores na sessão.

O Desconhecido do Lago – 6.5/10

O Desconhecido do Lago é o mais recente filme de Alain Guiraudie, que marcou presença em Lisboa para uma curta sessão de perguntas no espaço Nimas. Este é um dos mais importantes filmes do panorama queer de 2013, ganhando inclusive, em Cannes, o Queer Palm e estando agora a estrear em Portugal pela mão do LEFFEST.

A premissa é bastante interessante, o filme passa-se todo numa praia fluvial de nudistas, banhada por um lago e circundada por bosques, servindo muito como um “local de engate”. O próprio filme perpassa para o espetador uma ideia de rotina e de como os homens passam por uma espécie de ritual sempre que visitam aquele lugar, onde a liberdade é ordem e o pudor não existe.

Conhecemos assim Franck (Pierre Deladonchamps), o protagonista, frequentador assíduo da praia e ávido participante na vida rotineira daquele lugar. Sendo que a história é-nos trazida do seu ponto de vista conseguimos acompanhar a regularidade da sua vida e como, todos os dias, acaba por fazer a mesma coisa. Primeiramente chega ao local, cumprimenta o seu amigo, banha-se no lago e depois dirige-se ao bosque à procura de prazer. Mas até a rotina acaba por conhecer algumas peripécias quando conhece um solitário sujeito e quando ganha uma fatal atração por um homem misterioso.

3fb5ed13a_475817081013

A narrativa começa a fluir a seu ritmo vagaroso e começa a ser interessante de ver a relação de amizade que vai crescendo entre o protagonista e Henri, o tal homem que vive na sua solidão e se excluí da espécie de ritual que se dá na praia. A amargura do homem em conjunto com a perspicácia do seu humor fazem dele, talvez, a personagem mais fascinante do filme, muito também devido ao bem conseguido desempenho de Patrick d’Assumçao. Esta relação de amizade em muito é díspar de todo aquele espaço de promiscuidade da praia e é tão interessante de ver esta relação florir naquele local e a dinâmica da mesma, uma espécie quase de amor platónico que a personagem de Henri vai desenvolvendo por Franck.

Já a história de amor, concreta, aquela que acontece entre Franck e o desconhecido atraente, Michel (Christophe Paou) é também bastante peculiar. A obsessão chega a ser doentia e a atração completamente fatal, é fascinante ver como o ser humano consegue ser tão irrefletido e obedecer aos seus instintos mais básicos, fazendo com que esta relação, totalmente irracional, fosse quase que animalesca.

Como disse, o filme tem tudo para ser realmente bom, a narrativa é única e pega em temáticas bastante interessantes. Mas o que aqui mais pecou foi a necessidade do realizador de ser demasiado gráfico, digo isto porque muitas das cenas de sexo poderiam ter sido feitas com outro cuidado e atenção. Não havia necessidade do elevado grafismo, na medida em que nada contribui para a narrativa, é uma extrapolação cometida pelo realizador que faz com que um público mais comercial se sinta repelido a ver a fita, quando na verdade merece ser apreciada pela fantástica história que conta.

Em suma, é talvez o filme com a narrativa mais peculiar de todo o festival mas deixa um pouco a desejar devido às escolhas feitas pelo realizador e pela maneira algo entediante de como a ação se arrasta.

Texto de Ricardo Rodrigues.

Dentro da Cabeça de Charles Swan III – 5.5/10

É difícil avaliar um filme como Dentro da Cabeça de Charles Swan III, especialmente quando a primeira ideia que transmite é a de um projecto absolutamente pessoal e experimental de Roman Coppola.

Em primeiro lugar, esta é a segunda longa-metragem de Roman Coppola, que tem tido um papel mais ativo em trabalhos de produção ou argumentação juntamente com Wes Anderson, com o qual escreveu MoonriseKingdom e The Darjeeling Limited. O que é mais curioso neste filme é, então, a forma como ela permite relembrar estes projectos fascinantes, e muito especialmente, na forma original de fazer comédia. Porém, um dos grandes problemas de Charles Swann III é não ter o toque genial que é imediatamente associado ao trabalho criativo de Anderson.

9b11072bb_322713091013

O filme coloca Charlie Sheen no centro de uma narrativa, que não é propriamente uma narrativa, por não ter a delimitação evidente que a caracteriza. Ele é Charles Swann III, um homem excêntrico, mulherengo, imaginativo, bem-sucedido, que se acaba por ver na situação comum do desgosto amoroso. De igual forma, encontra-se num filme recheado destes clichés românticos aos quais é adiciona um lado mais inconsciente, que coloca o protagonista a rever o seu próprio estado mental e a sua personalidade de fantasias. É nestas alturas mais invulgares que o filme brilha, tanto por situações que nos remetem para o contacto com a nossa própria mente e como “com só um pouco de graça” (como o diz o próprio Coppola), que imprimem no nosso sorriso uma boa disposição genuína.

O problema é a escassez destes momentos, ou melhor ainda, a inferioridade das outras partes que constituem a maioria da película. Charlie Sheen é um ator que volta a representar um papel semelhante aos que têm caracterizado a sua carreira e, ainda assim, continua a não conseguir ser suficientemente carismático para que nos importemos efectivamente com a sua personagem. Isto torna o filme ainda menos claro no cumprimento das suas finalidades ou supostas finalidades, o que poderá ser decepcionante para alguns espectadores.

Dentro da Cabeça de Charles Swann III não é um mau filme e na, verdade, contribui para um exercício de relexão sobre o que os filmes são para nós e o que significam. Apesar de ser um trabalho sem um objetivo ou moral específicos ou um enredo cativante, até consegue ser uma experiência agradável que pode tornar-se surpreendente para alguns. Especialmente, se através da mediação negativa que o filme tem tido, o formos ver com expetativas mais baixas.

Texto de Simão Chambel.