the world is a beautiful place and i am no longer afraid to die

Whenever, If Ever, dos The World Is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die

Nem os próprios membros da banda se referem usando o nome inteiro. Portanto, durante todo este texto eles serão chamados de The World Is. O tamanho do nome pode indicar uma identidade post-rock, enquanto o que está propriamente dito na frase leva-nos, mesmo antes de ouvir alguma coisa, a profetizar uma tendência emo. Estaremos certos. Ao post-rock não há maneira de o contornar, enquanto que a banda não sente qualquer constrangimento em se apelidar de emo. Aliás, gozam do estatuto de uma das principais bandas do revivalismo do estilo, que começou (parece) nesta década. Com uma mão cheia de EPs, lançam, agora, Whenever, If Ever, uma tentativa bem sucedida de mostrar o que conseguem fazer num registo mais largo, sem caírem em heroísmos insípidos. Portam-se bem, mas sem grande alarido. São miúdos dos subúrbios que não se levam a sério.

Com gente suficiente em palco para fazer um torneio de sueca com eliminatórias, aqui e ali um violoncelo chorão e um trompete bojudo mas discreto (a trazer à ideia aquelas bandas filarmónicas dos filmes americanos passados em escolas secundárias), os The World Is oscilam entre os rasgões de acordes de pop-punk (You Will Never Go To Space), os arpejos melódicos e arrastados do post-rock (Heartbeat In The Brain – com um delicioso sintetizador em modo cósmico) e os riffs contrapostos e violentos de uma influência hardcore (The Layers of Skin We Drag Around).

A preencher as fendas entre tudo isto está uma bateria bem enganchada, encorpada e quase heróica, e letras vagas, mas sentidas, com refrões feitos para gritar na primeira fila, pequenas afirmações de alma, poesia de subúrbio, versos que contam as histórias dos putos esquisitos da escola, cujo fim-de-semana é passado na garagem a beber cerveja de lata e tocar guitarra. Porque há o direito a estar triste mesmo que existam criancinhas a passar fome em África.

__twiabp_WIE_cover_detail

O tom abúlico-épico das letras (“The world will destroy me / Our voices will flood rivers and valleys / The world will destroy me / I am the mountains crumbling“) ganha grande parte do seu poder quando elas são cantadas em coro, suportado pelos grossos pilares dos arranjos melódicos e da batida violenta, mas coesa e metódica. Todavia, a banda não deixa que as canções escapem das suas mãos para se tornar em algo que não são. É esse receio, esse ressentimento, que se nota, que faz com que muitas canções não tenham mais que três minutos.

Por outro lado, esta cautela vai fazer com que todas as outras faixas pareçam um prelúdio da última (sem lhes tirar o devido mérito, principalmente às já referidas), Getting Sodas. Esta canção É os The World Is: um crescendo emocional encarnado na soturna melodia do violoncelo, na impassividade da bateria rufada, na violência, ao início, e na transcendência, no fim, das vozes, na leveza quintessêncial da linha de guitarra, na linha de baixo inicial, leve, lânguida e aveludada, e no tom estranhamente bucólico da letra, a lembrar, capricho pretensioso de redactor, Caeiro. “The world is a beautiful place / But we have to make it that way.

Nota final: 7.5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

 

Mais Artigos
festival de cannes
Cannes 2021. Festival em risco de ser adiado para o verão