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LEFFEST’13: Uma abertura em grande

O Lisbon and Estoril Film Festival abriu oficialmente as hostes com dois dos grandes destaques deste ano no festival. Se por um lado temos um retrato íntimo de um artista nova iorquino filmado pelos Irmãos Coen, do outro surge-nos o olhar atento de Polanski sobre uma relação de dominação algo ambígua entre duas personagens.

Os destaques do dia são óbvios, apenas dois filmes foram projetados e cada um como filme de abertura. Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen, estreou-se pelo Monumental em Lisboa, numa sessão completamente esgotada. Vénus de Vison, a mais recente obra de Roman Polanski, foi projetada no Centro de Congressos do Estoril. O festival não podia ter começado da melhor maneira, com dois grandes destaques bem diferentes, mas muito idênticos em termos de qualidade. Se um nos convida a acompanhar a vida solitária de um músico que tenta sobreviver através do seu dom, o outro apresenta-nos a atribulada relação entre um encenador e uma atriz demasiado excêntrica.

Inside Llewyn Davis – 8/10

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Llewyn Davis é um músico de folk que tenta sobreviver em Nova Iorque através do dinheiro que ganha com o seu talento. No entanto a situação é algo complicada, o folk não está nada em voga nos anos 60 e o músico vive desalojado, dormindo em variadas casas de outros colegas de profissão. A premissa em si parece-nos já um pouco gasta, o típico músico de rua que mal tem dinheiro para sobreviver, mas que eventualmente terá a sua oportunidade de brilhar e subir na vida. A questão aqui é, isto não é um filme básico, é um filme escrito e realizado pelos irmãos Coen.

Se a história funciona um pouco à base dos inevitáveis clichés, a existência dos mesmos não são inquietantes, a narrativa flui com naturalidade. A história que nos é contada, através de uma personagem principal que requer bastante trabalho por parte do ator, é deliciosa de se ver na grande tela. A intimidade que é partilhada entre Llewyn Davis e o espetador é impressionante e é-nos inevitável criar fortes laços de empatia com o mesmo. Muito disto se deve à brilhante performance de Oscar Issac que carrega todo o filme às costas e entrega-nos um músico atormentado pelo passado, escravizado pelo presente e aterrorizado pelo futuro. É melancolia do olhar aliada à inteligência do seu humor que fazem com que o ator assente que nem uma luva neste papel em que, efetivamente, se nota um trabalho exaustivo e meticuloso na escrita do argumento.

Em suma, este não é um filme de homenagem às história de sucesso da música norte-americana. Mas uma ode àqueles que mesmo com bastante talento nunca saíram do mundo das sombras e do anonimato, aqueles que carregavam caixas cheias de discos de vinil que não se venderam, aqueles que o momento de fama nunca passou senão de um fantasma. Um retrato cru do mundo artístico que por vezes é mais inglório, que justo.

Vénus de Vison – 8.5/10

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Roman Polanski volta aos cinemas e com mais uma adaptação de uma peça da Broadway, depois de em 2011 ter adaptado Deus da Carnificina. Desta vez foi La Vénus à la fourrure de David Ives. A história centra-se num encenador, Thomas, que passou um dia inteiro num teatro parisiense a fazer audições para o papel principal da sua obra. Quando já se preparava para abandonar as instalações, uma última atriz aparece para a audição e curiosamente tem o mesmo nome que a personagem principal, Vanda.

La Vénus à la fourrure é uma peça baseada na obra de Sacher-Masoch, onde se conta a história de um conde que se apaixona por uma rapariga e que lhe pede para ela o dominar, para fazer dele o seu escravo já que para ele era através da humilhação e da dor que se atingia o prazer. Este romance foi, em 1870, tão polémico que as práticas eróticas de sadomasoquismo foram desde logo associadas a este autor e obra. Polanski traz-nos assim o que começa por ser uma simples audição de uma atriz algo excêntrica para o papel dessa mesma rapariga.

O mais curioso é depois ver a evolução da relação que existe entre a Vanda e Thomas. O encenador rende-se por completo à atriz quando percebe que ela é perfeita para o papel de Vanda, mas, ao representarem a peça, o espetador vai-se apercebendo que a realidade de dominação patente entre o conde e a rapariga também se vai estabelecer, em paralelo, entre o encenador e a atriz. As cenas ficam cada vez mais precipitadas e num ritmo algo extasiante mais para o final ficamos completamente trocados e já não sabemos o que é encenação e o que não é. É esta ambiguidade presente em torno desta peculiar relação que é deveras fascinante, o cuidado meticuloso dos diálogos é extraordinário e aqui se percebe que Polanski não é só um bom realizador como também um excelente argumentista.

Polanski tem a singular capacidade de pegar num único espaço e em dois ou três atores e fazer disso um filme brilhante. Mais do que em Deus da Carnificina, aqui, em Vénus de Vison, nos apercebemos do controlo completo que Polanski tem sobre o espaço e como o conhece tão bem, controlo esse que o mesmo também tem sobre os atores que aguentam, apenas os dois, um filme com perto de 100 minutos. Em suma, Vénus de Vison é talvez dos filmes mais curiosos que irão passar neste LEFFEST e talvez aquele com o melhor trabalho feito em termos de elenco.

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