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Até Amanhã, Camaradas: a Televisão não é Cinema

Para comemorar o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, o realizador Joaquim Leitão pegou na sua minissérie de 2005 baseada num livro do líder do PCPAté Amanhã, Camaradas e, das cinco horas de duração da mesma, fez uma reformulação com três para o Cinema. Os resultados não são os melhores, porque mesmo que o conteúdo televisivo tenha qualidade, não é isso que o torna adaptável para o grande ecrã.

Até Amanhã, Camaradas é a adaptação do livro homónimo de Manuel Tiago (o pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, com o qual assinou também Cinco Dias, Cinco Noites, levado ao Cinema por José Fonseca e Costa) que nos conta as histórias de vários membros do Partido Comunista Português e as suas desavenças com o Estado Novo durante os primeiros anos da década de 40. Enquanto o mundo lidava com a II Guerra Mundial, a ditadura portuguesa é alvo das lutas populares, das revoltas e contestações que se vivenciaram no Vale do Tejo em 1944, onde se cruzarão personagens, vidas e ambições futuras distintas.

Escrito por Luís Filipe Rocha (argumentista e realizador de Camarate, Adeus, Pai, Sinais de Fogo, entre outros) e realizado por Joaquim Leitão, de Adão e Eva, Tentação e, mais recentemente, Quarta Divisão, a minissérie, no ano da sua estreia, tornou-se num dos maiores sucessos do ano para a SIC, que a emitiu e produziu, e para comemorar os 100 anos do nascimento do autor do livro que lhe deu origem, estreia agora nas salas com uma nova versão, mais curta, mas muito menos interessante.

Não esqueçamos também que, sendo uma série televisiva, esta foi gravada especialmente para este meio, que nada tem a ver com a arte cinematográfica em termos narrativos e visuais. Senão vejamos: Até Amanhã, Camaradas foi constituída por seis episódios, cada um deles com cerca de 50 minutos, e onde as histórias são construídas em função dessa duração e em função da lógica de cada episódio.

Em filme de 180 minutos, sentimos uma narrativa apressada, onde acontecimentos e histórias de personagens são “comidos” sem dó nem piedade, triturados de forma acelerada e incongruente, e entregues ao espectador num prato confuso e cansativo, pela rapidez como trata cada uma das cenas. Ficamos sem perceber como é que algumas personagens surgiram ou onde foram parar, e algumas cenas verdadeiramente inúteis para o Cinema são melhor aproveitadas do que aquelas que teriam mais interesse na sala escura, que já fica afetada pela qualidade da película da série, filmada para TV, não encaixar normalmente aos ajustes das definições do ecrã cinematográfico.

Assim, ao contrário de um fenómeno como A Melhor Juventude, o épico de Marco Tullio Giordana, a produção portuguesa não funciona como produto televisivo e cinematográfico. Se a princípio o filme italiano foi uma aposta televisiva com quase 400 minutos, foi depois para as salas, com um corte reduzido (menos meia hora de série), e mesmo assim o filme funciona de forma maravilhosa. E talvez o problema maior da versão cinematográfica de Até Amanhã, Camaradas seja mesmo o de ter sido cortado demais, o que consequentemente, torna-o demasiado longo e curto ao mesmo tempo: longo por perder demasiados minutos com futilidades, e curto porque deixou muitas coisas relevantes por contar.

A qualidade da produção é portanto prejudicada por este resumo a alta velocidade de uma obra longa e complexa, que sabe a pouco e que não deixa ao espectador muito para se recordar, a não ser a falta de ritmo e coerência que o filme possui. Não teria sido melhor ideia uma projeção integral da série, se Joaquim Leitão queria tanto levar este seu trabalho para as salas?

Num ambiente onde a emoção se envolve demasiadas vezes com a política e as convicções destes trabalhadores, Até Amanhã, Camaradas não envolve muitas caricaturas humanas, e centra o seu propósito na condução das lutas clandestinas do PCP , com algumas subplots de bastidores, onde o romantismo e o companheirismo entre alguns dos protagonistas da trama ganha maiores e mais profundos contornos, alguns por vezes bastante exagerados.

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Mas há que salientar os lados positivos: mais do que um panfleto político ou uma visão ficcionada da realidade política portuguesa, Até Amanhã, Camaradas constitui um precioso documento histórico, pela qualidade e o rigor da reconstituição da época, dos costumes e das gentes portuguesas. Retrata-se o Portugal de então e as dificuldades impostas pelo regime de uma forma muito credível e algo sensível, mesmo com todas as liberdades reproduzidas do livro original, onde se dá forte atenção ao secretismo e à clandestinidade das reuniões do PCP e aos efeitos das mesmas nos seus representantes. Esperança é uma palavra-chave da história, assim como seguir fielmente os ideais em que acreditamos. E esta mensagem não cabe aos comunistas, mas a todas as esferas da política, da sociedade, dos valores e da ética dos seres humanos.

E os grandes atores que compõem a trama, e que lhe dão uma graça especial e com algo de inesquecível, fazem outro fator positivo desta obra. Vemos Gonçalo Waddington, Paulo Pires, Adriano Luz, Leonor Seixas, entre outros grandes artistas, a terem aqui alguns dos melhores momentos das suas carreiras televisivas. E dá gosto ver a qualidade das representações e o espírito emocionante com que os atores encarnam estas suas personagens.

Apesar da falta de solidez e de ritmo da obra, e depois de um início demasiado solto, até se conseguem ver e acompanhar com algum gosto muitas das histórias do filme. Mas nunca nos esquecemos daquilo que nos dececiona, e nos cansa, nesta condensação do programa de televisão. No Cinema, Até Amanhã, Camaradas é um longo trailer que parece não ter fim, mas que consegue envolver o espectador nas suas partes mais bem conseguidas (pelo menos, na montagem para esta versão). E fica ao menos a boa intenção de se querer recuperar uma obra que marcou a televisão portuguesa. Pena é que não tenha sido bem concretizada.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Até Amanhã, Camaradas

Realizador: Joaquim Leitão

Argumento: Luís Filipe Rocha

Elenco: Gonçalo Waddington, Cândido Ferreira, Leonor Seixas, Paulo Pires, Marco D’Almeida, Adriano Luz, Carla Chambel

Género: Drama

Duração: 180 minutos

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