Volvidos três anos sobre o lançamento de Casa Ocupada (2010), disco que catapultou o grupo lisboeta para o topo da pirâmide alternativa nacional, eis que nos chega às mãos o terceiro LP dos Linda Martini. Com o título paradoxal de Turbo Lento, o mais recente trabalho do projecto formado por Hélio Morais (bateria/voz), Cláudia Guerreiro (baixo/voz), André Henriques (voz/guitarra) e Pedro Geraldes (guitarra/voz) foi para as lojas a 30 de Setembro, com o selo da Universal.

Tal como o título do disco nos parece querer indicar ainda antes de qualquer audição, Turbo Lento é um registo que padece de uma certa bipolaridade, que se sente a vários níveis. Primeiro, na forma: se por um lado se mantém a mantém a intenção, “imposta” em Casa Ocupada, de encurtar e resumir as canções o mais possível (contam-se pelos dedos de uma mão as faixas que vão além dos quatro minutos), por outro também nos traz arranjos mais complexos, músicas mais densas, guitarras mais intricadas e linhas de baixo mais emaranhadas, num esforço reminiscente dos tempos de Olhos de Mongol (2006).

Segundo, na dinâmica: se em Casa Ocupada as palavras de ordem eram “entrar sempre a rasgar”, neste Turbo Lento as canções dividem-se, de forma quase equitativa, entre peças mais calmas e contemplativas (mais uma vez, a lembrar Olhos de Mongol) e outras, mais incisivas e urgentes, dignas do seu antecessor mais directo. Porém, nem tudo neste LP faz referência ao passado dos Linda Martini; em Turbo Lento, a atenção ao detalhe é muito maior, quer ao nível das guitarras (muito mais trabalhadas do que antes), quer ao nível da produção, que, apesar de manter o toque “áspero” (ah, aquela distorção a lembrar Sonic Youth), faz com que os instrumentos surjam mais “audíveis” (em particular o baixo de Cláudia Guerreiro, que aparece bem cá à frente na mistura).

Turbo-Lento

Em termos líricos, Turbo Lento também se apresenta como um disco muito mais desenvolvido que os seus antecessores. Apesar de as temáticas abordadas serem, na maioria das vezes, muito crípticas e sujeitas a interpretações pessoais, à semelhança do que tem sido a regra na obra do grupo (com notável excepção para Febril (Tanto Mar), uma das canções mais assumidamente politizadas do quarteto), a verdade é que, neste terceiro LP dos Linda Martini, os poemas tomam precedência sobre a música, indo muito além da repetição de um singelo verso ad eternum e assumindo, em conjunto com as composições, estruturas mais convencionais e trabalhadas.

Contudo, se é verdade que a referida bipolaridade de Turbo Lento consegue ser, em várias ocasiões, o seu maior trunfo, tornando-o imprevisível e nada monótono, também o é que, por vezes, acaba por dar ao disco a sensação de ser uma obra quebrada, dividida em relação ao rumo a seguir, afectando a qualidade geral do álbum. Quanto às canções “obrigatórias” deste Turbo Lento, destacam-se, na minha opinião, as magníficas Panteão, Febril (Tanto Mar), Tremor Essencial e Aparato. Na lista “a evitar” estão Pirâmica e Tamborina Fera, peças que, a meu ver, quebram o ritmo do disco e destoam do conjunto.

Em suma, é impossível ouvir Turbo Lento sem ficar com uma certa sensação amarga na boca; apesar de ser um óptimo disco, não deixa de ficar aquém das expectativas impostas pelos seus antecessores. Ainda assim, apesar de não ser o melhor álbum do quarteto, este terceiro LP dos Linda Martini acaba por ser a obra mais concisa, completa e adulta da banda lisboeta, acenando ao passado do grupo enquanto vai, simultaneamente, piscando o olho ao que poderá vir a ser o futuro do quarteto. Só nos resta esperar que seja um futuro tão brilhante quando este Turbo Lento nos promete.

Nota final: 8.1/10

Clica aqui para ler a entrevista que os Linda Martini deram ao Espalha Factos, a propósito deste Turbo Lento.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945