Lou Reed, alma de si e dos lendários The Velvet Underground, faleceu no passado dia 27 do mês de Outubro; o rock chorou esta perda, passou a sentir-se menos vivo e mais vazio. Porém, já assim devia sentir-se desde que os Arctic Monkeys editaram AM, o novo registo do quarteto britânico, no início do mesmo mês de Setembro.

Em boa parte, o mundo rendeu-se a AM. O conceituado magazine NME classificou-o como sendo “um dos grandes álbuns da última década” e não teve o mínimo receio em colocá-lo na lista dos quatrocentos melhores álbuns de todos os tempos. A revista britânica Uncut atribuiu-lhe nota máxima, 10/10, e rotulou Alex Turner, o líder dos Arctic Monkeys, como um dos maiores génios britânicos do rock. Quanto aos nossos amigos do Facebook, esses, teimavam em não cessar com as publicações de músicas de AM, onde as descrições que mais sobressaíam andavam sempre à volta de “genial”, “os maiores”, “melhor banda do mundo”, etc. Vou directo ao assunto: detesto o AM, mas não desgosto dos Arctic Monkeys.

O que me faz desgostar do AM? Quase tudo, mas sobretudo o modo como este, por vezes, me faz descrer no amor que tenho pela música. De doze faixas, aproveitam-se apenas duas (Do I Wanna Know e Knee Socks), outras duas vêem-se como audíveis, mas no limiar da dor auditiva (falamos de R U Mine? e Fireside), e as restantes oito reflectem o quão execrável é a tentativa dos Arctic Monkeys em fazer um disco que se possa abranger a um maior público. Não que tenha alguma coisa contra discos feitos para as massas; Brothers, dos Black Keys, que até ajuda em muito ao conceito de AM (basta ouvir as componente blues do trabalho de guitarra de, p.e., Do I Wanna Know para perceber a sua influência neste disco), noventa por cento dos discos dos Pearl Jam e até mesmo o recente Reflektor, dos Arcade Fire, foram concebidos segundo a preocupação de conseguir ampliar o público-alvo e são discos que cumprem em termos qualitativos. O problema é que, em AM, a questão “qualitativa” não acontece.

Em jeito de hiperbolismo, poder-se-ia dizer que as únicas coisas que acontecem em AM são: furtos descarados por parte dos Arctic Monkeys a bandas como os Queens of the Stone Age, Black Keys ou até mesmo (e voltando à tal temática que o rock devia ter começado a chorar no início do mês passado, quando se editou este AMThe Velvet Underground. No primeiro caso, no  roubo que nunca será roubo porque agora o Alex Turner e o Josh Homme são best friends forever, reside a grande problemática de ouvir Arctic Monkeys em 2013; a vitória dos Queens of the Stone Age com … Like Clockwork, um dos melhores álbuns do defeso, é a derrota dos Arctic Monkeys com AM.

Os coros neste disco soam nitidamente a QOTSA, as vozes sentem-se, por vezes, forçadas, e Alex Turner, versão 2013, parece ser um homem mais preocupado com o seu cabelo e imagem (tudo azeiteiro, convenhamos) do que com pensar na sua música e no modo como as vitórias e possíveis influências de outras bandas não pesem tanto naquilo que escreva. Isso, infelizmente, sente-se e faz de AM um disco absolutamente nulo no que a originalidade diz respeito (e não, nem vou falar do modo como se reaproveita das malhas de Brothers, sobretudo na primeira parte do disco e a nível das guitarras, nem de The Velvet Undergorund – façamos paz à alma de Lou Reed, mas ouça-se Fireside).

Contudo, nem só por falta de originalidade AM peca; os pecados são tantos que nem uma palete de pais nossos o safava. Outro ponto execrável do disco é o facto de Alex Turner tentar rappar em One for the Road: ninguém merece uma coisa destas e esta é, arrisco-me a dizer, e não sendo uma escolha nada fácil, a pior canção do registo e, quiçá, de sempre. Porém, existem mais algumas capazes de ocupar essa posição: Arabella, No. 1 Party Anthem, Mad Sounds, Why’d You Only…, Snap out of It e I Wanna Be Yours, que até consegue ser pior do que, imagine-se, I’m Yours, de Jason Mraz, também são quase tão medíocres como One for the Road.

Em compêndio, choro pelo rock desde a edição de AM, da sua apreciação pela crítica, do modo incessante como as pessoa o consomem. É oficial, chegámos aos tempos em que poucos têm noção do quão superficial pode ser uma coisa; em 2013, os Arctic Monkeys estão superficiais, moldados pelas massas e pela sede de conseguir vitórias de uma maneira que outros já conseguiram. Isso é triste e só revela a nulidade que é AM; temos saudades de um Alex a escrever canções como When The Sun Goes Down ou Brainstorm e a não se preocupar tanto com o seu cabelo azeiteiro, nem em ser tão figura central do quarteto nem muito menos a rappar – coisa que me proporcionou uma das experiências auditivas mais dolorosas dos últimos. Caguem nestes Arctic Monkeys, eles não vos merecem.

Nota final: 0.9/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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