arctic-monkeys-2013

Arctic Monkeys – AM

Lou Reed, alma de si e dos lendários The Velvet Underground, faleceu no passado dia 27 do mês de Outubro; o rock chorou esta perda, passou a sentir-se menos vivo e mais vazio. Porém, já assim devia sentir-se desde que os Arctic Monkeys editaram AM, o novo registo do quarteto britânico, no início do mesmo mês de Setembro.

Em boa parte, o mundo rendeu-se a AM. O conceituado magazine NME classificou-o como sendo “um dos grandes álbuns da última década” e não teve o mínimo receio em colocá-lo na lista dos quatrocentos melhores álbuns de todos os tempos. A revista britânica Uncut atribuiu-lhe nota máxima, 10/10, e rotulou Alex Turner, o líder dos Arctic Monkeys, como um dos maiores génios britânicos do rock. Quanto aos nossos amigos do Facebook, esses, teimavam em não cessar com as publicações de músicas de AM, onde as descrições que mais sobressaíam andavam sempre à volta de “genial”, “os maiores”, “melhor banda do mundo”, etc. Vou directo ao assunto: detesto o AM, mas não desgosto dos Arctic Monkeys.

O que me faz desgostar do AM? Quase tudo, mas sobretudo o modo como este, por vezes, me faz descrer no amor que tenho pela música. De doze faixas, aproveitam-se apenas duas (Do I Wanna Know e Knee Socks), outras duas vêem-se como audíveis, mas no limiar da dor auditiva (falamos de R U Mine? e Fireside), e as restantes oito reflectem o quão execrável é a tentativa dos Arctic Monkeys em fazer um disco que se possa abranger a um maior público. Não que tenha alguma coisa contra discos feitos para as massas; Brothers, dos Black Keys, que até ajuda em muito ao conceito de AM (basta ouvir as componente blues do trabalho de guitarra de, p.e., Do I Wanna Know para perceber a sua influência neste disco), noventa por cento dos discos dos Pearl Jam e até mesmo o recente Reflektor, dos Arcade Fire, foram concebidos segundo a preocupação de conseguir ampliar o público-alvo e são discos que cumprem em termos qualitativos. O problema é que, em AM, a questão “qualitativa” não acontece.

Em jeito de hiperbolismo, poder-se-ia dizer que as únicas coisas que acontecem em AM são: furtos descarados por parte dos Arctic Monkeys a bandas como os Queens of the Stone Age, Black Keys ou até mesmo (e voltando à tal temática que o rock devia ter começado a chorar no início do mês passado, quando se editou este AMThe Velvet Underground. No primeiro caso, no  roubo que nunca será roubo porque agora o Alex Turner e o Josh Homme são best friends forever, reside a grande problemática de ouvir Arctic Monkeys em 2013; a vitória dos Queens of the Stone Age com … Like Clockwork, um dos melhores álbuns do defeso, é a derrota dos Arctic Monkeys com AM.

Os coros neste disco soam nitidamente a QOTSA, as vozes sentem-se, por vezes, forçadas, e Alex Turner, versão 2013, parece ser um homem mais preocupado com o seu cabelo e imagem (tudo azeiteiro, convenhamos) do que com pensar na sua música e no modo como as vitórias e possíveis influências de outras bandas não pesem tanto naquilo que escreva. Isso, infelizmente, sente-se e faz de AM um disco absolutamente nulo no que a originalidade diz respeito (e não, nem vou falar do modo como se reaproveita das malhas de Brothers, sobretudo na primeira parte do disco e a nível das guitarras, nem de The Velvet Undergorund – façamos paz à alma de Lou Reed, mas ouça-se Fireside).

Contudo, nem só por falta de originalidade AM peca; os pecados são tantos que nem uma palete de pais nossos o safava. Outro ponto execrável do disco é o facto de Alex Turner tentar rappar em One for the Road: ninguém merece uma coisa destas e esta é, arrisco-me a dizer, e não sendo uma escolha nada fácil, a pior canção do registo e, quiçá, de sempre. Porém, existem mais algumas capazes de ocupar essa posição: Arabella, No. 1 Party Anthem, Mad Sounds, Why’d You Only…, Snap out of It e I Wanna Be Yours, que até consegue ser pior do que, imagine-se, I’m Yours, de Jason Mraz, também são quase tão medíocres como One for the Road.

Em compêndio, choro pelo rock desde a edição de AM, da sua apreciação pela crítica, do modo incessante como as pessoa o consomem. É oficial, chegámos aos tempos em que poucos têm noção do quão superficial pode ser uma coisa; em 2013, os Arctic Monkeys estão superficiais, moldados pelas massas e pela sede de conseguir vitórias de uma maneira que outros já conseguiram. Isso é triste e só revela a nulidade que é AM; temos saudades de um Alex a escrever canções como When The Sun Goes Down ou Brainstorm e a não se preocupar tanto com o seu cabelo azeiteiro, nem em ser tão figura central do quarteto nem muito menos a rappar – coisa que me proporcionou uma das experiências auditivas mais dolorosas dos últimos. Caguem nestes Arctic Monkeys, eles não vos merecem.

Nota final: 0.9/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

1185623_582905005107614_1888432364_n

  1. Prefiro maria josé valério. Passante.

    É um disco anal..ógico, como como os fans da banda gostam.

    Está, contudo, longe do apogeu de Backspacer e Lighting Bolt.
    2 obras maiores da música. Melhor só com Dvorak e Punhetoff, 2 intelectuais do séc. XIX.

  2. Eu por acaso acho que o Alex soube vender-se bem. da discografia dos Arctic Monkeys, para mim, o único álbum que se aproveita é mesmo o de estreia, porque a partir daí a febre da fama subiu-lhes à cabeça, e os “putos fixes” que faziam música de garagem passaram a ser só mais uns gajos do rock convencidos que sabem fazer música.
    A ligação do Alex ao Joshua foi a coisa mais inteligente que ele pôde fazer, desde o penúltimo álbum com umas colaboraçõezinhas e agora este novo AM cheio de influências cheias de bom gosto, ao que tu chamas “falta de originalidade”, para mim é uma coisa extremamente positiva.
    em termos de originalidade, desde que não seja a cara chapada não acho que seja muito mau. só quer dizer que há mais pessoas com bom gosto 😉

  3. Sem querer entrar em grandes considerações quanto a AM ser mais ou menos mainstream, gostaria apenas de relembrar que os Arctic Monkeys sempre (SEMPRE) foram uma banda amada pelas massas. Isto é um facto “wikipédico”: “Whatever people say I am…” foi (até 2006 pelo menos) o album que mais rapidamente vendeu no seu dia de lançamento. A lista de recordes continua. Também não vou entrar em discussões do genero “o meu gosto musical é melhor do que o teu”. É infantil e isto é um blog. No entanto, não posso deixar de apontar a falta de coerência ( e de ouvido?) de pelo menos um dos teus argumentos. Uma das inspirações mais proeminentes dos AM dos tempos do “When the sun goes down” e do “Brianstorm” é o hip hop e o rap. “From the ritz to the rubble?” Não te diz nada? E quanto ao estilo azeiteiro do Alex Turner, é apenas mais uma demonstração do estilo descomprometido da banda, tal como receber prémios vestidos de personagens do “Feiticeiro de Oz” ou aparecerem em talk-shows vestidos de palhaços. É apenas o novo ego do Turner. Outros se seguirão. Aliás, sugiro que leias uma qualquer entrevista do Jack White (penso que a blitz de Setembro de 2012 é um bom exemplo). Ele tem uma opinião muio interessante quanto à imagem publica de artistas.

  4. Sem querer entrar em grandes considerações quanto a AM ser mais ou menos comercial, gostaria de relembrar que Arctic Monkeys sempre (SEMPRE) foram “mainstream”. “Whatever people say I am…” em 2006 bateu o recorde de album mais rapidamente vendido no Reino Unido no dia do seu lançamento ( e a lista de recordes continua, é só consultar a wikipedia) A única novidade está na conquista do mercado americano após o “Suck it and See” e a solidificação de tal feito com o último album. Não vou também entrar em discussões de “o meu gosto musical é melhor do que o teu”. São infantis. Mas não posso deixar de apontar a falta de coenrência (e de ouvido?) de um dos teus argumentos. O hip Hop e o Rap sempre foram de uma forma bastante aberta uma das influências dos AM, tendência essa muito mais demarcada nos seus primeiros trabalhos. “From the ritz to the rubble?” Não te diz nada?? E quanto à imagem “azeiteira” do Alex Turner é mais um sintoma da falta de seriedade com que a banda se vê a ela propria, tal como aceitarem prémios vestidos em personagens do “Feiticeiro de Oz” ou vestirem-se de “Landlords” para os Britawards”. The Joke is on you.

  5. Tem partes neste artigo que concordo no que diz respeito a este album não ser muito bom, no entanto discordo completamente quanto às músicas “one for the road”, “Arabella” entre outras…
    Este album para mim tem uma música extraordinária que é de longe a Arabella, de resto tem mais umas 3 que se aproveitam, a “one for the round”, “do I wanna know” e a “knee socks”.
    Gostos não se discutem, os Arctic Monkeys não tiveram tão bem neste album, tens em compensação os QOTSA que fizeram um bom album.
    Quanto à imagem do vocalista dos Arctic e ao que ele faz em termos sociais eu estou-me nas tintas…apenos quero saber é da música que produz.

  6. De facto essa ponte do Lou Reed está muito bem concebida.

    Mas agora pensa bem, se gente que é conceituada no mundo da critica e são realmente bons no que escrevem e avaliam (por isso estão na NME, entre outras e não neste blog) o AM como um dos melhores albuns, e tendo em conta o que a grande maioria tambem diz, a tua misera opinião não faz do AM um album de merda.
    Já agora, comparares os Arctic aos Black Keys remete a tua falta de percepção do que são influencias e paralelismos musicais. Pois em nada as influências dos blues e jazz tem a ver com as influências do R&B presentes neste novo album dos AM.
    Quanto às referências do R&B nada tem de mal neste album de rock mais “acessivel”. Pois se fores um bom conhecedor das influências iniciais dos arctic, sabias que eles desde os seus 17 anos que as misturam juntamente com o hip-hop.
    Quanto às letras, se prestares a atenção correcta, percebes que há sempre algo a descodificar, bem como referências ao que é o mundo britânico e afins. Tal e qual como sempre o fizeram. E como sempre, não deixam as histórias sobre os amores perdidos e as noites alienadas de que sempre falaram.

    Li este artigo presunçoso, porque um amigo me enviou, se não em nenhuma outra ocasião viria ao site espalha “juizos de valor” ao invés de “juizos de facto”.

    1. Boa noite Luísa.

      Eu acho que tu tens todo o direito de expressar desagrado quanto à crítica do Emanuel. Mas deixa apenas que te faça um reparo.

      A tua observação final é desprovida de qualquer legimitidade. Uma crítica não é suposto expressar “juízos de facto”, se queres “juízos de facto” vais à página da Wikipédia do álbum e vês qual é a duração das músicas ou quem são os compositores. Uma crítica é um trabalho de subjectividade, é suposto expressar juízos de valor. Se as críticas fossem objectivas não seriam críticas, pior, seriam forçosamente todas iguais.

      Agora, por outro lado o que podes referir é que não concordas com a argumentação que o Emanuel emprega no artigo. Isso é uma observação legítima, se bem que também inteiramente subjectiva.

      O ponto que quero deixar aqui assente é que não é por concordares com a opinião do Emanuel (sim opinião, é suposto ser uma opinião) que ela está errada, tal como, não é por Emanuel não gostar do álbum (e justificar porquê) que o álbum se torna necessariamente mau.

      1. Boa noite.

        Tal como no wikipédia os juizos de facto não são de qualidade, também aqui os juizos de valor não o parecem ser.

        Quando me refiro aos juizos de facto tem a ver com a qualidade da argumentação e do que é dito. Ou seja, se gosta ou não, é com o nosso colega internauta Emanuel. Mas se não gosta, que dê argumentos crediveis e baseados em factos reais. Daí a minha expressão final.

        E acho que quem perceber sobre a banda, percebe que os argumentos que foram ditos, não correspondem a factos.

        E se for bem lido, no meu comentário anterior não há subjectividades. Porque eu não disse “eles são os melhores porque gosto deles”.

        Sem necessidade de estar a criar um motivo de discussão com mais pessoas. Foi apenas para alertar ao cronista a sua qualidade de informação.

  7. Não sei se é arrogância, pseudo-megalomanismo ou se és, simplesmente, um dos pouco humildes hipsters da nova geração. Um álbum que é pensado para as massas não é necessariamente mau. O “Brothers” é um álbum inteligente e cheio de complexidade musical e com letras e originais, que conquistou as massas. Não é esta UMA DAS (em maiúsculas para que se perceba que estou a referir apenas uma de várias) premissas em que assenta a definição da boa música?
    Não gostas do AM, é a tua opinião e vale o que vale. O que critico inteiramente são mesmo os argumentos vazios e inconclusivos com que fundamentas a tua apreciação. Posso estar enganado ou a ser injusto, mas leva a crer que não gostas do álbum porque, aparentemente, já não é “alternativo”.
    Confesso que também dou pouca credibilidade aos tops da NME, Billboards e afins porque, enfim, é o que todos sabemos que é. Mas a partir do momento em que essas influências musicais (que tu, incorretamente, ridicularizaste quando te referes a elas como “furtos descarados”) são, elas próprias, fãs das músicas ao ponto de fazerem covers delas (“Why d’you only…”, QOTSA”), então talvez não seja sequer correto estares a fazer o paralelismo entre as bandas.

    Pessoalmente, considero este álbum um dos melhores da banda e um bom pedido de desculpas pelo Humbug que também, na minha visão, poucas músicas geniais apresenta (Crying Lightning, My Propeller e The Jeweller’s Hands). E sustento isto apenas com a minha estranheza PESSOAL perante a evolução do estilo da banda, e particularmente do Alex, em relação ao álbum anterior.

    São opiniões, mas sê humilde em tê-las porque a arrogância com que a fundamentas rouba-te logo 60% da credibilidade que te poderia dar. Os restantes 40% perdeste-o, a meu ver, pela tua preguiça em raciocinar sobre o conceito de boa música (e sobre o que faz de uma música a “pior música de sempre”) e quando assumiste descaradamente essa tua vontade de seguir o paradoxo que é esta moda de não-ser-de-modas.

  8. Dizer que o AM é mau e dizer que os MBV e os Swans deram dos melhores concertos do Primavera Sound é o mesmo que perceber zero de música.

      1. Fácil. Nick Cave & The Bad Seeds, Blur (OK, este estava ganho à partida), Grizzly Bear, Explosions in the Sky (não são uns Mogwai, mas são bons) Dead Can Dance (no Coliseu foi melhor, como é óbvio), Metz, Savages, Fucked Up e Fuck Buttons.

        E agora, tenho ou não tenho razão?

        1. Não tens toda a razão, na minha opinião: para quem adorou o concerto de Swans e depois foi ver Grizzly Bear, achei que foi um bocado uma desilusão; primeiro porque era uma banda que esperava um excelente concerto, o que não aconteceu, e depois porque levar com a barulheira de Swans e passar para Grizzly Bear é como passar do 80 para o 8; o som parecia-me demasiado baixinho, se é que me entendes. Quanto a Dead Can Dance, não gostei do concerto e achei que, muitas vezes, ao vivo, eram uma seca do caraças (sobretudo quando a mulher se metia a cantar). De resto, concordo com tudo, embora não tenha visto as, dizem, enormes Savages ao vivo nem Fucked Up – tudo culpa de MBV, podes julgar-me à vontade. Metz surpreenderam-me pelo facto de tanto terem crescido em pouco tempo (vi-os no Plano B, em Fevereiro, e vi-os no OPS e confesso que estão cada vez melhores). Nick Cave foi do caraças, Blur também, embora esperasse ainda mais, EITS foi, para mim, e porque é uma banda do coração, o melhor concerto do OPS. E por fim, Fuck Buttons foi incrível até porque nessa altura já outros factores circulavam dentro de mim. Curiosamente, é deles o meu álbum favorito de 2013.

          E pronto, é isso. É sempre um prazer encontrar um Graça pela internet e desculpai-me o espalhanço de ódio ao AM, mas nada me fará olhar para ele de outra maneira que não desta.

  9. Caro Pedro, como defendo no artigo, existem discos que foram pensados para as massas e que gosto: caso do Brothers ou até mesmo do …Like Clockwork. O AM é, irreversivelmente, um disco também pensado para as massa, contudo mau. Não se trata de nenhuma alergia com “o que o pessoal gosta”, trata-se de se ver ou não qualidade num disco; em AM não a vejo.

  10. Para uns gostarem outros têm de não gostar, isto porque pelo que percebo tu não podes nunca gostar do mesmo que as massas. és alergico ou qualquer coisa

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Naya Rivera
Morreu Naya Rivera. Corpo encontrado é da atriz